sexta-feira, 23 de maio de 2008

Aforismos: Anarquia

A Ação Direta

Como os pensamentos e as práticas da ação direta atravessaram os diferentes militantes e se propagaram em diversas direções?
Talvez a pergunta correta a se fazer não seja como, mas o que constitui este atravessamento que liga diversos e diferentes indivíduos a direções e projetos semelhantes, quiçá, comuns?
A ação direta é uma recusa de uma via política saturada. É o método da autogestão, isto é, constitui-se na própria autogestão em movimento. É estratégia que põe a “máquina de guerra” em ataque, que impõe a luta de dentro para fora, uma implosão (uma guerra política ou uma política de guerra): desgastando, corroendo, minando as forças do Estado capitalista.
É um vírus que contamina, espalha e dá ânimo ao instinto de revolta adormecido. Trata-se da capacidade humana de se indignar. É o móvel bélico que ocupa/desocupa espaços e não-espaços, imprevistos, que escapa e desaparece quando é contra-atacado e ressurge, na invisibilidade do disfarce e da camuflagem, onde o Estado policial ainda não controla, é a ação que se antecipa ao controle, o ludibriando, que finta a marcação da tática disciplinar. Enfim, a ação direta cria o novo, o inesperado, o “milagre” na repetição, no provável, no determinado. A ação direta é uma sensibilidade do inconformismo, um uivo de agonia, um espasmo de ira, uma recusa à uniformidade de controle.
Suas histórias impregnaram toda a humanidade, desde os mais remotos tempos, até ser nomeada, enclausurada, aqui ou ali, temporariamente (pois é fuga incessante), em um ou outro campo de força, mas, sobretudo, trata-se de uma idéia, um método, uma estratégia, um modus vivendi... sem dono, autor ou culpado.

Ação Direta II
Anarquismo... Uma falsa unidade

Seguindo a linha da crítica à formação discursiva de Foucault, o anarquismo se forma a partir da prática da ação direta, é em torno da idéia de ação direta que se torna possível a unidade que conhecemos por anarquismo. Mas em que consiste esta unidade e até que ponto a ação direta como marca do anarquismo é em si restrita a prática libertária.
A emergência dessa prática na modernidade ocorre em oposição às novas formas de vida burguesa e as rupturas que a instituição da sociedade burguesa impõe aos costumes mais tradicionais, às organizações autônomas das manufaturas, das comunas, enfim, ao alheamento dos trabalhadores autônomos trazido pela industrialização e a perda de seus padrões de controle da produção e da propriedade de seus instrumentos de trabalho, açambarcados pelo Estado burguês.
Foi no bojo da instituição da sociedade burguesa, da liquidação da sociedade do Antigo Regime que ainda permitia uma certa autonomia dos produtores sociais que se formaria em oposição ao liberalismo democrático, aristocrático ou monárquico a prática da ação direta como resistência ao progresso técnico de uma classe dominante que se instala no poder com outro tipo de domínio, não mais o de sangue, o da honra aristocrática, mas o do capital, o da propriedade que expropria os produtores e que se apropria da produção e da pequena propriedade autônoma.
A classe operária e seu instinto de revolta não surgem da sociedade burguesa, mas da resistência a ela, da oposição à técnica de dominação que a burguesia tenta impor ao se apropriar da democracia grega e lhe impor contornos modernos de representação para suprimir o obstáculo da tradição aristocrática. É no romantismo que encontramos o ritmo da revolta camponesa e depois operária, é ali que a contra-revolução burguesa via camponeses e marginalizados de toda a ordem, se impõe contra o iluminismo que pretendia inaugurar o progresso, mas este, impõe um novo tipo de escravidão. São os ludditas, os cartistas, os camponeses, os citadinos das comunas que se opõe ao nascimento do Estado burguês, da indústria, do liberalismo que se constituem nas condições de possibilidades do discurso da ação direta. O proletariado explorado nas grandes cidades industriais forma outros núcleos de discursos da ação direta e não marcam uma continuidade obrigatória com os explorados do passado.
Tendemos a acreditar que o que conhecemos por anarquismo seja resultado de uma formação discursiva construída a posteriori, mas escrever isto é não dizer nada, pois o que nos interessa a partir dessa constatação são as condições de possibilidades de onde puderam emergir essa suposta unidade prático-discursiva e quais seus enunciados aglutinadores e o que expressam de relações de poder no contexto que emergiram.
Não nos interessa nesse estudo buscar a origem do anarquismo, até porque, dentro de certa perspectiva a qual aderimos, tal busca é vã pelo simples fato da unidade constituir um constructo representativo dos jogos de poder no contexto que ele emergiu. Portanto, o que nos instiga é a correlação de forças que propiciaram uma prática que se diferenciava em vários aspectos mesmo dentro do campo dos socialismos revolucionários, das outras táticas de luta. A prática anárquica nunca teve um estatuto seguro, e talvez nunca tenha sido vista de forma completamente positiva.
Na longa história de governos e instituições de poder, a anarquia era desordem, bagunça... quando foi então que o termo passou a ter status de positividade no campo socialista. Ao longo da história do anarquismo, da formação de sua unidade discursiva, o termo nunca foi uma unanimidade entre os simpatizantes da revolução, alguns como Guillaume chegaram até a propor a mudança de terminologia. Só isso já bastava pra pôr fim à idéia de um movimento anarquista ou de um anarquismo? Talvez não, mas complexifica o problema, pois o que muitos historiadores utilizaram como ponto de partida, como um fato inconteste, um certo movimento anarquista ou mesmo uma miríade de militantes que se aglutinavam em várias tendências que compunham pluralidades de anarquismos, não passava, contudo, tanto anarquismo ou anarquismos de construtos a posteriori, que não representavam nem expressavam os grupos militantes ou as forças em luta no âmbito dos movimentos operários revolucionários.
Sabemos que um dos primeiros socialistas a utilizar o termo de forma positiva fora Proudhon e que por isso, muitos historiadores que se diziam anarquistas passaram a ver em Proudhon, o fundador do anarquismo moderno, porém, esta tentativa mais revela a fragilidade de um saber, de um passado do que o contrário.
Muitos homens a partir de um critério construído a posteriori foram considerados anarquistas, homens, porém, que nunca teriam se denominado de tal forma. Mas qual o significado de tais constructos históricos? Que poder tem um historiador de dizer que uma pessoa foi ou não um anarquista, sem ao menos inquiri-lo, sem ao menos levar em conta se havia possibilidade no percurso de vida de tal pessoa, de sê-lo anarquista? As continuidades que se estabelecem, muitas vezes, de um grupo militante a outro, de uma tendência à outra, enfim de uma tática a outra, são falsas construções, emendas frágeis que não conseguem encobrir as lacunas. São apenas sínteses a priori.
Se devemos buscar não a origem, mas pontos de emergência de práticas anarquistas ao longo da história, não podemos inquiri-la de fora, mas a partir de suas forças em jogo. O que fez Proudhon se denominar um anarquista? O que caracterizou os discursos de Bakunin? Mas antes disso, isto é antes de cairmos no erro da falsa unidade do indivíduo, de sua obra, devemos indagar sobre as condições históricas da época que proporcionaram as práticas anarquistas? A continuidade de um discurso anarquista é marcada por emendas que procuram ocultar lacunas e abismos, por vezes, quando problematizadas, intransponíveis.
Qual seria a marca que sustentaria tal unidade de discurso? Que características justificariam a nomeação de anarquismo? Quais as ações e dizeres necessários para que em determinada época, mesmo contra a vontade e sobre a constatação de certa inconsciência dos indivíduos que a viveram, eles pudessem ser chamados de anarquistas, ou pudessem se autodenominar anarquistas, sem que isso, fossem-lhes uma ofensa e tivesse ao contrário uma certa positividade? E que sentido havia em ser anarquista dentro do imaginário do socialismo revolucionário?
E assim apesar de entendermos que a classe operária principal portadora, ou principal condutora dos ideais libertários dos militantes anarquistas, apesar de a vermos não como herdeira da burguesia revolucionária, nem como resultado trágico da sociedade burguesa, que ao fim traiu seus ideais de liberdade e igualdade ou talvez nem os levassem mesmo a sério. O fato é que a idéia de anarquia só nos é concebível em um contexto de governo em que a ausência dele seja uma possibilidade plausível, e para isso, como marca da especificidade histórica do anarquismo na modernidade, haveria que se ter em vista, alguma tática ou estratégia que propiciassem a alguns, pelo menos, a crença ou sonho em um futuro melhor, este sonho para os anarquistas é o da sociedade sem governo e o caminho a ela é o da ação direta.
Acontece que a condição de possibilidade da ação direta não depende necessariamente do novo ator social que surgiu da exploração burguesa e da resistência a esta nova realidade, a ação direta perpassa o anarquismo, o atravessa e de passagem encontra nos anarquistas sua melhor expressão, contudo, não foi a única. A guerra contra o Estado ou sua possibilidade iminente é contemporânea do Estado, do governo e a ação direta é a resistência a ele, a guerra política e a política de guerra contra a autoridade instituída e fundada na desigualdade e na exploração. Os anarquismos apenas fizeram um uso mais condigno com a realidade social instituída pela burguesia.

Ação Direta III
Autonomia e Ação Direta

Tentaremos fazer neste opúsculo uma relação livre entre o conceito de autonomia em Castoriadis e o de ação direta. Quando o pensador grego afirma que o mundo é uma instituição imaginária dos homens e que somente a eles cabem os limites de suas ações. Deveremos ter em mente que a autonomia é a reconquista dos homens de decidirem suas próprias vidas, tanto exigindo a ampliação de suas liberdades relativas, quanto à limitação de suas ações. E é nesse ponto que entra a noção de ação direta que seria justamente o método de reconquista dessa autonomia pela própria ação autônoma dos homens. A ação direta é a estratégia política anti-política parlamentar autônoma de militantes que buscam disseminar tal prática para que todos conquistem esta autonomia.
É nesse ponto que a ação direta ultrapassa os limites das teorias e práticas anarquistas e é por isso que se justifica a nossa tentativa de relação entre um conceito e outro, isto é, entre autonomia de Castoriadis que surge em um contexto de luta de classes a partir dos operários, mas leva em conta um alicerce humanista, que se contrapõe ao totalitarismo de esquerda.
Cada sociedade, ao se instituir enquanto tal, cria as suas formas de representação, de expressão, de interpretação, em suma, todas as idéias e ações só são possíveis dentro dos limites impostos por essa sociedade instituída. Dessa forma, em uma sociedade surgida do empreendimento histórico da burguesia que ao se instituir enquanto classe, depois como classe dominante e a seguir como instituinte da nossa sociedade, em que a expressão de seu domínio impõe limites às oposições e contestações desse poder. Em outras palavras, todas as práticas e idéias estão contidas em uma redoma, em um magma que dificulta a sua destruição, ou seja, a sociedade instituída impõe suas próprias regras de jogo.
Portanto, para se opor à sociedade burguesa há que se opor ao jogo liberal burguês pela rejeição de suas próprias regras instituídas. É nesse sentido, que reivindicamos para uma inteligibilidade possível da ação direta libertária, um outro fazer político, uma outra regra imposta pelo novo método, pela criação “milagrosa” inédita que impõe um outro fazer. Em outras palavras, não dá para construir o novo, com atitudes velhas, podemos sim, não tem outro meio, partir do velho, mas o fazer deve ser autônomo baseado nos fins que se almejam, e de acordo com estes mesmos fins e com as possibilidades reais de erigi-los. Com efeito, a ação anarquista contra o Estado capitalista, se constituiu enquanto tal nas brechas do próprio. Como vírus, a ação direta foi a prática autônoma, que se configurou como a criação de uma outra possibilidade de sociedade, de outro jogo político, de outras regras, moralmente diferentes, por meio de pessoas que se dedicavam a causa de propagar a anarquia. Assim, a ação direta constituiu-se em práticas, hábitos, sensibilidades de alguns militantes que pretenderam universalizá-las.

Ação Direta IV
A Compreensão da Ação Direta, um problema metodológico

O estudo do anarquismo nos impõe uma outra concepção de política. O conceito de política proveniente da Antigüidade baseado no diálogo entre iguais, entre os pares, não nos é suficiente para compreender a emergência dos discursos e práticas anarquistas. Nem muito menos a noção de político que emerge na modernidade atrelada ao suporte e necessidade de um Estado. A anarquia nos coloca a política como guerra entre campos de forças diferentes, cujo conceito de política clássico ou moderno não comporta.
A política não pode se restringir a uma determinação que compreenda as diversas formas de relações de poder, deve, numa perspectiva ampliada, poder ser também a arte ou a guerra (estratégia) de organizar os indivíduos com o fim a um objetivo novo, que extravase a redoma do estabelecido. Qualquer que seja a sociedade e sua organização, a sua ordem estabelecida é imunizada de novas formas de organização, impedindo o novo de brotar no velho, daí a necessidade de se pensar a partir do fora imaginado, de destruir por inteiro. A ação direta libertária é esta atividade de pensar o novo fora do velho, é uma estratégia de guerra, não um diálogo; é uma tática que mudas as regras do jogo, trazendo o inimigo para o campo em que ele é vulnerável.
Assim, para estudar a ação direta, seus discursos e práticas que as permitiu, devemos reavaliar o conceito de política para além do índice do Estado na modernidade e da polis na Antigüidade.
Por outro lado, não podemos cair na armadilha iluminista do “bom selvagem” ou da utopia de Morus, isto é, na idéia de que nos primórdios houve sociedades perfeitas e de que num futuro socialista não haverá mais repressão, opressão e dominação. A equipagem do conceito de política não quer instaurar a pretensão de perfeição utópica, mas permitir que a utopia aja no seu espaço mental próprio da possibilidade ilimitada da criação do novo, do milagre humano de instituir o imponderável. Tal conceito de política não pretende extinguir as relações de poder, mas incluir em sua inteligibilidade a anarquia, a ausência de governo. O conceito de política deve ter condições de compreensão da ação direta.
Para além do diálogo, do monopólio da violência, do mal menor, o conceito de política deve também abrigar a possibilidade da auto-governabilidade, isto é, da organização social como autogestão, como ação direta dos indivíduos em sociedade, no enfrentamento dos problemas diretamente, a partir de um ponto de partida que estabeleça a igualdade e a justiça social, territórios essenciais para se plantar a liberdade plena.
A emergência do conceito de ação direta em meio à correlação de forças da modernidade, a partir do aparecimento e do agravamento dos problemas criados e impostos pelo Estado capitalista, referencial pleno e absoluto da política a partir de então, que em sua representação mais branda, se reveste na forma de democracia representativa, inscrita na livre iniciativa privada, colocou em cheque todas as condições de existência do conceito de política, tanto o antigo, quanto o moderno que se construiu a partir daquele.
A ação direta, método e sensibilidade para construção autogerida de um novo mundo, implode a noção de política construída a partir da polis do colonialismo grego e retomada e reconfigurada na modernidade a partir da idéia de Estado e de representação, que pretendia dar conta problemas modernos que vieram à tona com a multidão nas cidades e com a formação dos Estados nacionais. Sendo assim, a partir do problema que nos impõe o estudo da ação direta e da autogestão anarquista, sugerimos que a noção de política deva ter outro fundamento, além dos habituais, polis e Estado. O suporte da política deve ser a guerra, o conflito, ou pelo menos, a sua possibilidade. O diálogo, o debate, ou mesmo, a comunicação humana busca a supressão dos conflitos, a disposição das pessoas, dos instrumentos, das armas numa determinada arrumação, ordem. Mas o objetivo de tal busca nunca é alcançado plenamente. A política não surge para evitar a guerra, esta é sua condição de existência. Ela é uma continuidade da guerra em outro plano. A política é o conflito no plano do diálogo e do entendimento, porém, este não é isento de violência. Esta não é suprimida na política, a violência é disfarçada, ganha um outro formato, uma perspectiva civilizadora, tanto antiga, quanto moderna.
Somente a partir da noção de guerra é que o novo pode emergir, pois o inimigo e não mais um dos pares ou um representante da lei, do cidadão, mas aquilo que não se conhece, aquilo que não está decodificado pela língua, pelo hábito ou pelo estabelecido, pois o inimigo sempre vem de fora, é um estranho, um elemento surpresa, aquilo que não se pode prefigurar ou prever, enfim, com a noção de guerra, há possibilidade do novo, e isso nos coloca outros paradigmas, uma nova ética, uma nova educação... etc.

A Maleabilidade da Ação Direta

A ação direta embora pressuponha o novo, o milagre na política, o imponderável da história e existe enquanto marca conceito, ação para dar condição ao novo, contudo, ela é uma estratégia nômade, não fixa, e sim maleável. Pode se configurar como estratégia explosiva, um ataque frontal e surpresa, maciço, como emboscada, pode também ser uma implosão viral contaminando as veias sistêmicas e depois as artérias. Os anarquistas apostavam em várias táticas, que vão desde a resistência pacífica ao ataque violento e até mesmo condenável, pelo menos nos parâmetros arcaicos da política da polis e do Estado.
Como marcas exemplares da pluralidade da ação direta libertária houve a tentativa de criação de uma nova moral, um novo modus vivendi, tanto a partir da educação quanto pela propaganda em seus mais variados aspectos, assim como, houve criação de guerrilha armada, a implantação de autogovernos que perduraram por algum período, mas o ponto em comum desses estratagemas, tanto implosivo quanto explosivo é o “começar algo novo” é o “criar a partir do fora”, mesmo que este fora não seja do ponto de vista espacial, mas signifique a negação ou rejeição total daquilo que está posto, seja em método ou em finalidade.

Dialética... Ainda uma lógica identitária

A dialética é um método que, muito embora, valorize as contradições da sociedade e o movimento do real por elas criado, seja numa visão materialista, seja ainda pelo prisma idealista, tal método se baseia no princípio lógico da identidade, pois é contra o dito que se firma a contradição, é a inversão de algo já posto, e esta inversão é a identidade às avessas daquilo que já está dado, portanto, é pela lógica da identificação incessante, mesmo que invertida, que se dá o suposto movimento dialético do real. Há uma determinação interna que impõe um caminho para o fazer do real.
Com isso, mesmo a dialética materialista quando se propõe enquanto método para apreender o real e ser a sua identificação tal qual e por isso ser sua expressão verdadeira, este método a partir dessa lógica identitária não permite a aparição do novo, porque o novo segundo a sua concepção é o contrário do que está posto e não o diferente, aquilo que não se pode predizer e quando dito torna-se por princípio uma distorção da realidade.
Daí resulta tanto o erro de Hegel quanto o erro de Marx, o de acharem ambos que estavam de posse dos óculos que poderiam transpor as ideologias que alienavam e impediam a verdadeira visão do real. Há que se ter a maleabilidade de um método que dê a possibilidade do imponderável, da diferença, que se constitui enquanto diferenciação, posto que é outra coisa e não se identifica com o real, pois este é sempre uma construção a partir da realidade e não a mesma coisa, e não a des-inversão do real.
Nesse sentido, a sociedade do futuro não é o contrário da sociedade burguesa, nem o socialismo o contrário do capitalismo, mas uma forma diferente de viver, imponderável para os que vivem hoje, imprevisível e com todas as variáveis que o hoje nos possibilita ver, mas também com todas as variáveis que nem podemos imaginar. É nisso que consiste a nossa defesa na autonomia, na autogestão, enfim, na ação direta dos próprios interessados na mudança.
É por isso, que a direção dessa mudança não pode ser prescrita, não pode ser imposta de fora para dentro, mas deve ser movimento autônomo, criticável apenas em seus próprios parâmetros e não no de uma dialética de fora que presume apreender o todo, num sobrevôo mágico que não se deixa contagiar nem se determinar pelo vento atmosférico do que se propõe a visar.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Resenha: "Autoritarismo e Anarquismo" de Malatesta



1876 é uma data marcante para socialismo mundial, é, ao mesmo tempo, o ano da morte de um dos maiores revolucionários anarquistas, Bakunin, e também a bifurcação da herança do revolucionário russo que culminará mais tarde na criação do anarcossindicalismo e do anarco-comunismo. Esta última corrente libertária criada a partir das idéias de Kropotkin, sofreu inúmeras críticas de anarquistas descontentes com a perspectiva determinista que preconizava uma evolução gradativa da sociedade a um estágio moral elevado que faria com que as pessoas reconhecessem o anarquismo como a forma de vida mais natural. Com as críticas de Malatesta e Cafiero formou-se um tipo de anarco-comunismo que valorizava a preparação da revolução libertária e a organização da futura sociedade, dando devida atenção para o papel dos sindicatos e dos conselhos, sem, contudo, destacar a insuficiência da organização sindical para a criação de condições concretas à revolução.

No Congresso de Amiens em 1906, quando pela primeira vez se usa o termo ação direta, embora, a noção e o significado desse conceito já fosse há muito uma característica da ação ácrata, cresce em força a presença dos sindicalistas revolucionários. Um ano mais tarde no Congresso Anarquista de Amsterdã, ocorre um debate significativo entre Malatesta que defendia um anarco-comunismo sem lugar estratégico de luta definido e P. Monatte que advogava pela valorização predominante do sindicalismo revolucionário. Daí surgirá à denominação e “oficialização” da corrente anarcossindicalista, que foi muito forte na França e teve em Georges Sorel, um dos seus principais teóricos e entusiastas do “mito” da greve geral.

A partir da morte de Bakunin, a pluralidade das idéias e práticas libertárias ficou mais escancarada, já que o grande revolucionário que aglutinava esta pluralidade em torno de sua figura histórica de luta e dedicação incomparável em toda história do anarquismo moderno já não estava mais no campo de combate, e já há algum tempo, mesmo antes de sua morte, conforme confidenciava em suas cartas, já se via mais para um burguês velho e fraco, sem forças para combate e sem motivação para a pura teoria.

No vácuo da morte de Bakunin, alguns anarquistas, como Nachaev, o mesmo que o russo se viu por um breve momento atraído, deram início a várias ações violentas, como atentados à bomba, assassinatos a grandes personalidades de governo e a explosão de prédios simbólicos do poder que levaram ao grande público uma mensagem extremamente negativa do anarquismo. A burguesia se aproveitando disso começou uma grande propaganda em que generalizava que anarquistas eram sinônimo de terroristas. A partir daí várias campanhas de repressão e violência tiveram como efeito a deportação, a prisão e o assassinato de vários militantes anarquistas no mundo inteiro. A organização libertária e o movimento operário sofreram de um modo geral um grande golpe.

Nesse período, surge no cenário operário do ocidente a figura de Kropotkin e a filosofia do anarco-comunismo, os escritos desse outro grande anarquista russo tentava fundamentar o anarquismo dentro de uma perspectiva da ciência natural, defendendo uma tese ousada e original para o período, a de que a seleção natural, a qual Charles Darwin ficou famoso por vê-la como um traço principal da evolução das espécies, não era tão preponderante na história natural e que, por outro lado, a ajuda mútua, o termo que cunhou, era muito mais verificável como fator para evolução.

Kropotkin com isso, pretendia dar respaldo científico ao ideal libertário e propunha que a principal tarefa do militante anarquista seria a de divulgar esta filosofia, por meio da propaganda, para que fosse possível gradativamente o convencimento de que a moral anarquista era o fim último da natureza humana.

É inegável o valor dessa filosofia, principalmente, para desmitificar a péssima imagem deixada pelos anarquistas individualistas que seguiam o método da propaganda pela ação. Kropotkin, sem dúvida, foi responsável por uma maior aceitação do anarquismo pelo público em geral, mas cometia um grande erro, ao não valorizar a organização e priorizar o espontaneísmo operário que levaria fatalmente a revolução, que para ele era mais uma evolução gradual, com o menor uso possível da violência e dos embates entre as classes do que propriamente uma ruptura radical com a sociedade burguesa. Em certa perspectiva as palavras de Kropotkin levavam os anarquistas a uma letargia prejudicial, pois no fundo acreditava-se que as próprias descobertas científicas e a maior divulgação dos avanços da ciência já seria um fator para levar as classes a um consenso em torno da moral anarquista e de seu ideal que melhoraria a vida de todos.

Por outro lado, Malatesta dentro do anarco-comunismo Kropotkiano iniciava com intervenções e críticas ao resultado imobilista das idéias de Kropotkin que tinha como conseqüência: um anarquismo de gabinete que cada vez mais se distanciava dos trabalhadores. Nesse período crescia a influência dos sindicatos, principalmente, na França, e os anarquistas da linha de Kropotkin tendiam a desprestigiar esses movimentos e, dessa forma, colaborava ainda mais para perda de influência do anarquismo entre os operários. No entanto, apesar de Malatesta reconhecer o erro em rejeitar o sindicalismo revolucionário que pretendia ser a base da futura sociedade, ele também via claramente os limites do sindicato tanto para organização anarquista, quanto para organização da própria sociedade libertária.

Assim, o revolucionário italiano estava no meio de um fogo cruzado dos diversos anarquismos que lutavam entre si por uma maior hegemonia e influência dentro do movimento operário revolucionário. De um lado havia a paralisação do anarco-comunismo espontâneo de Kropotkin; de outro, os infundados atentados dos anarquistas individualistas que recaí em um niilismo que já vinha anunciado desde as idéias de Max Stirner; de outro ainda, havia a supervalorização do sindicalismo revolucionário que fora fermentado pela adesão de anarquistas formando o anarcossindicalismo na França, seguindo orientações de Georges Sorel e Pierre Monatte e no meio dessas ideologias cruzadas em que ambas reivindicavam ser legitimamente anarquistas estava Malatesta e seus companheiros que defendiam uma anarco-comunismo reflexivo e organizacionista.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Excerto de El Sindicalismo de Victor Griffuelhes

(...)
V. La acción directa

Es esta una palabra que suscita muchas discusiones. Se han complacido en dar de ella una definición falaz y ha sido agitada como un espantajo. La acción directa ha sufrido, en boca de nuestros contradictores, una deformación exagerada, que conviene remediar. En efecto, corresponde definir esta palabra a los primeros que la han lanzado.

Acción directa quiere decir acción de los obreros mismos, es decir, acción directamente ejercida por los interesados. Es el trabajador mismo quien realiza su esfuerzo, y lo ejerce personalmente sobre los Poderes que le dominan, para obtener de ellos las ventajas reclamadas. Por la acción directa, el obrero crea su lucha y la dirige, decidido a no encargar a otro que a sí mismo el cuidado de emanciparle.

Mas como las definiciones teóricas no bastan para mostrar lo que nosotros entendemos por acción directa, citaremos como ejemplo la agitación promovida en Francia para libertar al capitán Dreyfus. Si se hubiese esperado esta liberación únicamente de la legalidad, puede asegurarse que nunca habría sido un hecho. Se conquistó a la opinión pública y se la dispuso en un estado de ánimo favorable a la causa del forzado, gracias a la agitación, a la campaña de la Prensa, a los mítines, reuniones, manifestaciones, demostraciones callejeras que, en algunas ocasiones, originaron víctimas. Fue la multitud amotinada la que hizo presión sobre los poderes constituídos, y el complejo organismo judicial, puesto en movimiento, devolvió al capitán la libertad. Todo el mundo tiene demasiado presente en el espíritu este período de agitación para que necesitemos pararnos en él.

A consecuencia también de una agitación menos intensa, pero de idéntico carácter, los Poderes públicos atacaron al derecho de propiedad de los agentes de colocación, permitiendo la supresión del privilegio de que gozaban.

La actitud del Senado frente a la extensión de la jurisdicción arbitral a todas las categorías de asalariados muestra también el valor de la acción directa. Recordemos este hecho, demasiado poco citado.

En Julio de 1903, las organizaciones de los Empleados diseminaban por todo París un llamamiento a la corporación, que decía:

"¡Tened confianza!
¡Los empleados piden jueces! La Cámara se ha inspirado en sus deseos; ha adoptado, casi por unanimidad, un proyecto de ley que concede a los empleados la jurisdicción de árbitros.
Este proyecto está actualmente en el Senado. El ministro de Comercio lo ha defendido en un discurso documentado ...
Es imposible que tal lenguaje no sea aprobado por el Senado republicano.
¡Tened confianza!
Renunciad a manifestaciones intempestivas, que serían aprovechadas por los partidos de reacción y comprometerían nuestra causa. Con nuestra prudencia, debemos apelar a la prudencia del Senado".

A este lenguaje tan prudente, tan ... republicano, respondió el Senado con un acto democrático y ... republicano. A finales de Octubre, negaba el derecho a formar parte de los tribunales arbitrales a estos asalariados. Y esta negativa se hacía en el momento en que la Cámara votaba la supresión de las agencias de colocación. Sin embargo, conviene repetirlo, semejante supresión constituía un atentado, anodino sin duda, contra la propiedad, y la cuestión arbitral no era más que una extensión de una jurisdicción establecida.

Tres meses después, el Senado repetía su negativa, por una mayoría de votos mucho mayor que la primera vez. Ante tal obstinación, los empleados lanzaron el manifiesto siguiente:

"Al negar a los empleados del comercio y la industria la jurisdicción de árbitros, el Senado ha perdido la confianza que el proletariado de las oficinas y almacenes había depositado en su espíritu republicano. Protestar contra su voto reaccionario se nos impone como un deber.
Pero la protesta, que todas vuestras organizaciones corporativas deben hacer, sería vana, si no fuese seguida de una acción enérgica.
A esta acción debéis invitar a nuestros camaradas obreros para un esfuerzo solidario. No son sólo nuestros derechos los que han sido desconocidos; son también sus derechos los amenazados por los ataques de que ha sido objeto, por parte de los retrógrados del Luxemburgo, la institución misma del arbitraje.
Se han atrevido a invocar contra nosotros y contra todos los trabajadores los principios de la Revolución. ¡Qué audacia y qué impudicia! ¿Creen, pues, que habéis olvidado la historia de las luchas sostenidas en defensa de nuestros derechos? ¿Y quién, entonces, si no han sido los hombres de 1789 y 1793, ha proclamado más enérgicamente el derecho de los ciudadanos a ser juzgados por sus pares, el principio de la elección de los magistrados?
La Federación Nacional de empleados os invita a una enérgica campaña de protesta y acción. El triunfo es posible: depende de vuestra resolución y de vuestra tenacidad. La violencia sería peligrosa para nuestra causa, pero la inacción y el silencio serían mortales. Por todos los medios que estén a vuestro alcance y en todos los terrenos de propaganda, manifestad vuestra voluntad, afirmad vuestro derecho.
Empleados del comercio y la industria:
Al negaros la jurisdicción de árbitros el Senado ha cometido contra vosotros un acto de injusticia. Vuestra Federación Nacional no se dejará desalentar por ningún obstáculo, desarmar por ninguna habilidad. Fuerte por vuestro apoyo, no dejará de combatir hasta que os haya sido asegurada la justicia por la victoria completa de vuestras reivindicaciones.
Hay diferencia entre los dos manifiestos. El segundo declara la acción enérgica indispensable y eso es lo que significa acción directa".

Para acabar, he aquí un comentario a la reproducción de un pasaje de Sembat en el Parlamento sobre la acción directa, de la cual hizo un somero examen; el comentario es de Pouget: "Pues bien, sí. Eso es la acción directa ... Es una manifestación de la conciencia y voluntad obreras; puede tener manifestaciones benévolas y muy pacíficas, como también ímpetus vigorosos y violentos ... Esto depende de las circunstancias".

Pero, en uno como en otro caso, es acción revolucionaria, porque no se preocupa de la legalidad burguesa y porque tiende a obtener mejoras que realicen una disminución de los privilegios burgueses.

(...)


Victor Griffuelhes
El sindicalismo
Primera edición cibernética, enero del 2004
Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés
Para acessar a obra completa:

domingo, 6 de abril de 2008

A Ação Direta

Como os pensamentos e as práticas da ação direta atravessaram os diferentes militantes e se propagaram em diversas direções?

Talvez a pergunta correta a se fazer não seja como, mas o que constitui este atravessamento que liga diversos e diferentes indivíduos a direções e projetos semelhantes, quiçá, comuns?

A ação direta é uma recusa de uma via política saturada. É o método da autogestão, isto é, constitui-se na própria autogestão em movimento. É estratégia que põe a “máquina de guerra” em ataque, que impõe a luta de dentro para fora, uma implosão (uma guerra política ou uma política de guerra): desgastando, corroendo, minando as forças do Estado capitalista.

É um vírus que contamina, espalha e dá ânimo ao instinto de revolta adormecido. Trata-se da capacidade humana de se indignar. É o móvel bélico que ocupa/desocupa espaços e não-espaços, imprevistos, que escapa e desaparece quando é contra-atacado e ressurge, na invisibilidade do disfarce e da camuflagem, onde o Estado policial ainda não controla, é a ação que se antecipa ao controle, o ludibriando, que finta a marcação da tática disciplinar. Enfim, a ação direta cria o novo, o inesperado, o “milagre” na repetição, no provável, no determinado. A ação direta é uma sensibilidade do inconformismo, um uivo de agonia, um espasmo de ira, uma recusa à uniformidade de controle.

Suas histórias impregnaram toda a humanidade, desde os mais remotos tempos, até ser nomeada, enclausurada, aqui ou ali, temporariamente (pois é fuga incessante), em um ou outro campo de força, mas, sobretudo, trata-se de uma idéia, um método, uma estratégia, um modus vivendi... sem dono, autor ou culpado.

sábado, 5 de abril de 2008

Nostálgicas Noites de Abril

Um artigo sobre Cazuza, Legião Urbana e a descrença da juventude[1]

“O meu partido é um coração partido e os meus sonhos foram todos vendidos tão baratos, que eu nem acredito. Os meus heróis morreram de overdose e os meus inimigos estão no poder”.



Abril é um mês de lamentações e nostalgias. Para quem está de saco cheio de ouvir letras preconceituosas que tipificam as mulheres denominando-as de “tchutchuca” e “cachorra” nessa nova onda do mercado fonográfico brasileiro. Um tipo de som que é rotulado de funk e que inunda as rádios e os programas de auditório da televisão. Músicas que fazem das palavras nas letras apenas um receptáculo adaptável ao ritmo. Para quem quer sair dessa calmaria e ir pegar uma onda agitada em outra praia. Falar de outras músicas que, em verdade, são poesias musicadas é discorrer sobre uma realidade cada vez mais distante. O fato de esporadicamente escaparmos dessa fugaz, mas cíclica tempestade mercadológica e ouvirmos canções como as de Cazuza e Renato Russo fazem dessa ocasião um ato solene de muita nostalgia e pesar. Dessa forma, a reflexão acerca do mercado fonográfico e o(s) gosto(s) do(s) público(s) no Brasil se tornam, cada vez mais, uma discussão necessária.

No título refiro-me ao mês de abril porque tanto Renato quanto Cazuza são do signo de Áries e, embora, Renato faria aniversário dia 27 de março a saudade torna-se mais intensa dia 04 de abril quando Cazuza completaria 43 anos. Estamos passando por um momento em que existe uma escassez daquele rock transgressivo dos anos 80, daquelas letras que lhe davam com temas existenciais e com o amor, mas amor no sentido amplo da palavra e não relações humanas permeadas de preconceito, machismo e submissão. E até mesmo a “dor de cotovelo” das letras de cazuza era recheada da mais pura erudição Moriartyana. [2]

Segundo essa perspectiva, e, diante dessa constatação cabem algumas hipóteses: o que mudou para que nas letras atuais, até mesmo nas do chamado rock brasileiro os questionamentos acerca dos problemas sociais estejam cada vez mais raros. O que ocorreu, em linhas gerais, que transformou a cara dessa juventude (metropolitana) do novo milênio. A juventude a qual fiz parte em finais dos anos 80 e início dos anos 90 tinha a uma aversão a músicas como pagode e sertanejo. E tal aversão não era um preconceito declarado, era antes disso, uma incompatibilidade de experiências, as letras não abordavam temas recorrentes a nossa vida enquanto jovens. Atualmente, vejo que não foi a temática desses estilos que mudaram, é claro que, por exemplo, a temática sertaneja se urbanizou (o sertanejo desde Chitãozinho e Xororó é enormemente influenciado pelo o country americano), é o caso também das duplas Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano, etcetera. Mas os discursos das letras ainda tratam de traições, brigas amorosas, casos extraconjugais. Assuntos esses, mais que desgastados, pois não se reciclam as mensagens ao público, aliás, muitas vezes não há essa preocupação, a criatividade nas composições dessas letras fica a cargo de falarem a mesma coisa de maneiras diferentes. Dessa forma, creio que mudaram os jovens.

Primeiramente, seria interessante começar por expor os fatos, pois como no filme de Antonioni (Blow up) não há jogo de tênis sem bolinha e, por derivação, nem notícia sem fatos. Uma das coisas notórias é que em cada momento o mercado trata de nos presentear com um modismo. Para não ir muito longe, foi assim com a lambada no início dos anos 90. Com toda aquela discussão moral que temos hoje, lembro até que, naquele período a Igreja católica foi mais contundente. Essa proliferação de grupos baianos em que os “cantores” quase que só abrem a boca para babar pelos os quadris libidinosos em movimento, já existia no início dos anos 80 com as chacretes, ainda não tanto exploradas pelas gravadoras, é verdade. Mas nomes como o de Rita Cadilac e Gretchen ainda hoje são personalidades recorrentes na mídia.

Muito bem, aonde quero chegar com tudo isso? Quando pensamos em música devemos levar em conta três aspectos que não podem ser vistos separados. A produção, a distribuição e o consumo. Na produção temos a figura do produtor ou, o que mais comum se chama de empresário, que procura ter uma visão geral do mercado e conhecer minimamente as expectativas do consumidor. Na distribuição encontramos o monopólio das grandes gravadoras em que se privilegiam os artistas de maiores vendagens, assim temos: o artista vende mais porque ele tem um esquema de distribuição ampliada e também, tem uma distribuição ampliada porque vende mais. Logo, uma artista que em um disco vende 100 mil cópias, sua rede de distribuição se amplia, as gravadoras então pagam a difusão nas rádios e as apresentações no programas de televisão, o que não é gratuito (o Gugu é um dos maiores empresários musicais do Brasil). Se no disco seguinte esse artista não chega nas 30 mil cópias, então todo esquema é desfeito e redirecionado para outro artista na mesma condição anterior.
Um dos exemplos mais característicos desse esquema é o caso do Tiririca, ou mesmo do Rafael ex-integrante do Polegar empresariado por Gugu, nesse último caso a perda de sucesso repentino trouxe sérias conseqüências para a vida do jovem. Não é fácil dormir famoso ao lado da Cristiane Oliveira e no dia seguinte acordar na sarjeta ignorado até pelos mendigos a sua volta. É uma barra muita pesada para segurar lucidamente, descobrir que não tem talento e que foi o tempo todo usado. Outro aspecto bastante importante que muitas vezes os críticos não dão a menor bola é, sem dúvida, o consumo. E na minha humilde opinião é o mais importante. Por que será que o Tiririca de repente, com todo o esquema lhe apoiando em seu segundo disco não vendeu o esperado? A indústria cultural é um fenômeno bastante significativo da sociedade de “massas”, mas como seu poder está situado nas relações humanas que nem sempre seguem as leis rígidas do mercado, que é também determinado pelos aspectos subjetivos, assim, a indústria cultural deixa também suas lacunas e suas limitações. E é nessas brechas que surgem um outro aspecto, a criatividade do artista que com coragem, mesmo em um esquema mercadológico muito restrito e excludente consegue colocar sua subjetividade, seu talento. É esses casos que lamento nessas noites nostálgicas de abril.

Deixando a nostalgia de lado e, tendo como paradigma os grupos empresas que seguem a risca as tendências de mercado. O excesso de informação, os veículos como televisão, vídeo clipes e internet que trabalham com a exposição de imagens são essenciais para a difusão de grupos como Tchan (um dos grandes exemplos, atualmente de empresas musicais – lembrando que isso não é privilegio do Brasil, há exemplos como Menudos de Porto Rico, New Kids dos EUA, etc). Por quê? Esses fazem “música” para serem vistas e não para serem ouvidas. É verdade! O Tchan antes de lançar um novo cd, veiculam antes o clipe ou a apresentação ao vivo. Ah..., Mas até grupos de rock fazem isso. Sim fazem, mas não é fundamental no seu trabalho, pois nesse caso o arranjo, a letra e o desempenho vocal são o que contam mais, isto é, a sonoridade consegue abarcar o fundamental da música que eles fazem. No Tchan, o que está em jogo não é a sonoridade, este aspecto está em segundo plano, o que conta é a harmonia entre os corpos voluptuosos em movimento, no compasso com o balanço sensual da canção e, o mais importante, é que tudo isso seja visto pelo consumidor. A imagem é mais relevante que o som. A sonoridade é subordinada aos movimentos da dança, e a parte vocal é um detalhe tão ínfimo que às vezes perguntamos (para ficar apenas no exemplo do Tchan) o que faz o Compadre Washington no meio daquelas beldades do bisturi? Mas ele tem um papel, senão tão importante, pelo menos complementar, que é o de fazer a personagem típica da tipologia que querem “enfiar” no caráter do brasileiro: o daquele cara que quando uma mulher passa por ele em sentido contrário ele sempre olha para traz, que é, em um universo machista, mais uma maneira gestual de se afirmar a masculinidade. O papel dele é representar as cantadas “típicas” de botequim que quase sempre se restringem aos termos como “gostosa”, “boasuda”, “popusuda”, etcetera.

Em síntese, o “funk” atual, o pagode da “barata”, da “amarelinha”, o sertanejo urbano (lembrando que esse exerce uma vantagem sobre os demais, porque falam a mesma coisa com palavras diferentes e, talvez por isso permaneçam no mercado) e todos os demais hits que tiveram sua vez, formam um fenômeno próprio da sociedade globalizada que preconiza, até pela própria sobrevivência do sistema, um consumo massificado. Eu sei que tudo isso já é “mingau batido”, mas eu tenho uma boa notícia para vocês, é que as modas duram no máximo duas estações, são em sua essência efêmeras. Mas, também tenho uma má notícia, outras sempre aparecem no lugar. Elas também são cíclicas.

No entanto, o fato de ficarmos torcendo o nariz para os modismos só nos faz colocar para fora um gosto estético que também não é nosso, um gosto tipicamente de classe média. (Se o leitor for de classe média ignore o período anterior, mas fique sabendo que você está lendo o jornal errado, vai ler Estadão, qualé!?). Veja bem. O que nos faz torcer o nariz para uma performance do Tchan, por exemplo? É, com certeza, um senso crítico mais apurado que denota uma formação mais refinada, de um meio social com mais oportunidade e com informações diferenciadas. Assim, é a formação que faz com que se supere o “gosto de massa”, e esse gosto massificado é o único acesso garantido da maioria dos brasileiros.
Então é a formação que seleciona e procura novas informações diferenciadas que promovem um juízo de valor mais acurado. Esse senso crítico supera o senso comum e ao mesmo tempo o desdenha, e esse desprezo pelas manifestações populares traz em si um preconceito tipicamente de classe média, do indivíduo que teve acesso a uma formação privilegiada em um país que não liga a mínima para a educação de sua população como um todo, num país que a todo ano cresce as dificuldades para um estudante de classe baixa chegar a Universidade. Dessa forma, o indivíduo que tem uma formação descente despreza os que foram marginalizados pela estrutura educacional brasileira, como os velhos antropólogos de gabinete que não enxergaram que as “sociedades primitivas” produziam cultura.

A questão não é torcermos os narizes para tais canções ou alguém ainda acha que essas músicas são simplesmente impostas pelo mercado e, de certa forma não representam as expectativas da nossa sociedade? Se acharem, podem ir ler outra notícia. As imposições existem, mas a recepção por parte da sociedade não se dá de forma passiva. Essas canções cumprem um papel de mercado, mas também representam os anseios da sociedade. A questão é que as expectativas da sociedade como um todo, são determinadas historicamente e estão ligadas à formação educacional (no sentido amplo). O que isso quer dizer? Ora, em um país que a classes dominantes não têm a mínima consideração pela formação de sua sociedade, e que, lógico, é o que convém ao seu interesse enquanto classe hegemônica. Pois, é vantajoso para as elites que nos apropriemos da idéia de que se não temos uma educação descente é porque não temos condições de passar no vestibular e, portanto, a culpa de não freqüentarmos uma universidade pública é do indivíduo e não do Estado. E mais, (e nesse ponto reside minha crítica) aqueles raros que chegam oriundos da classe marginalizada se apropriam dos gostos das classes dominantes, em vez de olhar para trás e ter uma postura crítica sobre o processo de sua formação. O jogo ideológico das elites, eu até que concordo, pois faz parte do papel a ser desempenhado por elas. Porém, o que não posso admitir é que, além de, não fazermos nada de efetivo para mudar esse panorama, ainda por cima, nos apropriamos dos gostos e estilos da classe que nos oprime e, ainda assim, enquanto seres pensantes nos identificamos mais com o deboche “intelectual” da classe média alta do que com os excluídos que deveríamos estar defendendo.

“Mas vem cá”, o título do artigo não é “nostálgicas noites de abril”, o que ele tem a ver com essa argumentação? Tudo. As noites de abril são nostálgicas pelas ausências dos dois maiores ícones do rock brasileiro e das músicas contestadoras que criavam e que, atualmente, são raras no universo juvenil. Da música que nos faz pensar sobre o que está acontecendo a nossa volta, é essa música que deveria ter mercado amplo para ela. Como teve com a Legião Urbana que recentemente alcançou a marca histórica para o rock brasileiro de 10 milhões de cópias vendidas, mas que, até 1996 antes da morte de Renato Russo, só tinha vendido 5 milhões, ou seja, os outros 5 está dentro de outro fenômeno de mercado que é a “necrofilia da arte”, quando um certo artista morre, há uma profusão de relançamentos promocionais que acabam alavancando as vendas dos trabalhos do artista.

Se no mercado fonográfico brasileiro não há muito espaço para a difusão de músicas de protesto é porque o brasileiro não foi formado para dar importâncias as coisas sérias como a política, a economia, etc, e achar que esses temas podem ser conteúdo das artes. O que vem ao encontro dos interesses das classes que estiveram no poder até então, pois a educação no Brasil só esteve em debate político quando foi necessário produzir uma mão de obra especializada ou quando se precisou formar mais profissionais para se pressionar a média salarial daqueles que estavam trabalhando. E como canta Cazuza: E assim tornamos brasileiros/Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro/Transformam um país inteiro num puteiro/Pois assim se ganha mais dinheiro. O que precisa mudar não são as “músicas para se ver”, e sim as condições de sobrevivência do brasileiro que na falta de uma vida confortável, de tempo para refletir sobre seus problemas vai procurar conforto no consumo de mercadorias que vendem o prazer, o prazer efêmero, mas ainda sim, o prazer, um alívio para seu dia-dia sofrível, e assim, tudo se encaixa, pois quem não tem tempo para refletir sobre sua própria condição humana, será mais fácil pensar que a música como a arte é em vão ou apenas um entretenimento. Só mudando a formação do brasileiro é que se produzirão músicas de melhor qualidade. Pois, tanto as condições materiais de existência como as relações culturais formam uma estrutura que se inter-relaciona e se determinam mutuamente e que, sendo assim, não pode ser vistas desconexas. As formas e os conteúdos de determinada música depende do contexto social ao qual ela foi criada. É por isso que nas noites de abril eu ligo meu som e começo a sonhar com um dia melhor ouvindo músicas que falam dos problemas existenciais pelos quais passamos. E aí penso nas possibilidades concretas que ainda temos para mudar o mundo, pois, embora, esses dois ícones da música brasileira representassem o inconformismo de uma geração que foi considerada perdida, há nas músicas de Renato Russo frases que dizem: Quando tudo está perdido sempre existe um caminho/Quando tudo está perdido sempre existe uma luz. Precisamos recuperar a esperança perdida em confronto com as adversidades do nosso dia-dia, pois o que define nós enquanto pessoa criadora do nosso meio social é a esperança que temos na construção de um futuro melhor, e não é ignorando e desprezando os nossos problemas, por mais insignificante que possam parecer, como é o caso da música brasileira (que de forma alguma é insignificante), que conseguiremos mudar essa situação. Devemos reativar a esperança, pois naqueles anos que se diziam perdidos, tínhamos a consciência de que estavam nos roubando nossa esperança e, é exatamente por isso, que aquela geração não foi uma geração perdida, e é por esse exemplo que devemos, atualmente, lutar contra essa política que sempre quis inviabilizar a ação dos jovens que também são excluídos.

[1] Originalmente publicado no Jornal Acadêmico do Curso de História: O Terrorista em 1999.
[2] Jim Moreaty alter ego de Neil Cassidy, personagem do Romance On The Road de Jack Kerouac, constitui-se um dos maiores clássicos da literatura beat.