sábado, 28 de março de 2009

Crônicas do Futebol III



O “Diamante Negro” não é mais Aquele


Hoje acordei de ressaca e para repor a glicose, como um bom chocólatra, comecei a mordiscar um delicioso “diamante negro”, foi quando dei por mim e pensei: poucos são os que sabem da história desse nome e do homem que inspirou tal denominação.


Havia um tempo em que o racismo no futebol era abertamente declarado e a maioria dos times de futebol não aceitava negros. O Vasco foi um dos primeiros times a fazer essa “concessão” e, embora, essa postura seja supervalorizada, o mérito do clube cruz-maltino é pequeno, pois na verdade a aceitação dos negros no futebol foi uma imposição pelo talento de cada um deles. O jogador negro, para ser admitido nos times, tinha que ser muito melhor que seus concorrentes, pois a cor infelizmente era critério de desempate.


As coisas começaram a mudar quando Leônidas apareceu no São Cristovão do Rio de Janeiro, à época um time tradicional, e depois de passagens por Peñarol, Vasco, Botafogo e, finalmente, Flamengo onde se consagrou como o maior jogador de seu tempo, o racismo no futebol brasileiro começou a se disfarçar nos formatos atuais de preconceito, quase imperceptíveis.


Leônidas sucedeu Friedenreich como maior ídolo brasileiro até então. Foi artilheiro da Copa de 1938 na França, onde o Brasil pela primeira vez conseguiu uma posição de destaque em mundiais, perdendo na semifinal para Itália sem a presença de Leônidas que estava contundido, embora sua ausência tenha sido recheada por falácias que difamaram o principal craque daquele mundial.

Uma dessas, Benito Mussolini teria pagado para que Leônidas não participasse daquela partida. A marcação do Pênalti cometido por Domingo da Guia, o maior zagueiro brasileiro da época, alguns dizem de todos os tempos, em um lance sem bola corroborou para insinuações desse tipo, pois a marcação de penalti naquela condição colocava a partida sob suspeitas e acusações, as quais foram rechaçadas por Leônidas que foi indenizado pela justiça contra seus caluniadores.


Leônidas ficou conhecido por sua agilidade e habilidade, foi, senão o inventor de uma das jogadas mais plásticas do futebol, por certo, o seu maior executor, da então chamada bicicleta. Foi admirado em todo mundo, até mesmo no exterior, principalmente, na França onde foi apelidado de homem borracha e no Brasil ficou conhecido como “diamante negro”. Foi o maior jogador até a aparição de Pelé no final dos anos 50, alguns dizem que teria sido maior que o rei se houvesse televisão para documentar seus lances memoráveis e se a Segunda Guerra Mundial não tivesse inviabilizado as Copas do Mundo de 1942 e 1946, onde juntamente com Di Stéfano era, com certeza, o maior craque do Universo.


Suposições e exageros a parte, Leônidas fez parte de um dos maiores times de futebol dos anos 40, ganhador de 5 títulos paulistas naquela década, quando já era, pela imprensa esportiva, considerado um craque em decadência, ora vejam!?. Nesse período ele foi comprado pelo São Paulo por uma fortuna e como um verdadeiro ídolo midiático foi recebido por mais de 10 mil pessoas na Estação da Luz.


Contradizendo seus críticos mais ferrenhos continuou sendo o melhor jogador do país, fazendo seus gols e jogadas fantásticas como o gol de bicicleta que fez contra o Juventus, imortalizada por fotografia e pela réplica no museu do São Paulo no Morumbi.


No auge de sua fama cedeu seu apelido, que virara uma legenda, uma grande marca, para a então brasileira fábrica de chocolates Lacta, dizem que por meros 2 contos de réis, única quantia que recebeu em toda a vida da empresa. É, até hoje, considerado um dos maiores ídolos do São Paulo, clube que sempre o reverenciou mesmo quando já não era mais jogador de futebol, infelizmente, fato raro no futebol brasileiro, onde ídolos da envergadura de Leônidas, quase sempre, são relegados ao esquecimento.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A Vida é uma Cilada III


A Caixa de Pandora


Camargo quando abriu sua caixa postal, no dia seguinte, nem levou em conta o fato inusitado de receber um adiantamento que, por si só, já pagava o caso, tamanha a crise financeira pela qual passava. Nem sequer desconfiou da forma como o caso foi lhe transmitido. Afinal, os tempos mudaram. Não havia mais escritórios rotos e mal-cheirosos ou becos escuros, agora era através da internet, do celular que os casos, impessoalmente, eram passados. Divertiu-se Camargo ao pensar isso.


Pena que seria a última descontração do longo dia que só estava começando. Pois, logo que viu que no lugar de um envelope ou de uma pasta, como de costume, havia uma caixa e que esta tinha um peso muito superior a que alguns papéis e fotos teriam, o sinal de alerta acendera na cabeça de Camargo.


Alguns passos rua acima, onde ficava o Correio, quando então, parou na banca de jornal e comprou uma Folha para ler a coluna social, o susto que levou, bambeou suas pernas ao ponto de quase cair ao chão. Na manchete estava: “Paulo Almeida Prado, industrial assassinado misteriosamente”.


Ao abrir na página da notícia, seu susto virou desespero ao ver sua cliente na foto, aos prantos chorando pela morte do marido sexagenário.


- Sexagenário? Pensou alto Camargo.


Ao chegar a sua espelunca, nem mal sentou naquilo que um dia foi um sofá, abriu o pacote e o que viu foi a confirmação de uma enorme enrascada em que se metera. Na caixa se encontrava uma arma, possivelmente, usada na noite anterior, pois estava cheirando a pólvora. E abaixo da arma, estava um bilhete impresso escrito em computador: “Não lhe cause sofrimento, seja breve e não deixe pistas. Será muito bem recompensado.”


Enquanto pensava nos últimos lances de sua medíocre vida, forçando a mente para colocar um pouco de ordem no turbilhão de pensamentos que o perturbava, quando então conseguiu focar os detalhes do seu encontro no dia anterior... Visualizando em pensamento a tal Juliana com o celular à mesa, não havia trocado uma palavra se quer com ela,...


“Bum, bum, bum”. Nesse momento, o pensamento de Camargo é interrompido pelo barulho de sua porta chutada.


- Abra a porta Camargo e não resista, temos um mandado... “a porta cai”
Policiais armados logo imobilizam Camargo.


- Que fria você se meteu, heim?


- Qual a acusação?


- Você não sabe? Você está sendo acusado de assassinar Paulo Almeida Prado!


- Revistem o quarto todo!


- Nem precisa chefe, olha só o que tem nessa caixa!

terça-feira, 17 de março de 2009

A Vida é uma Cilada II


O Caso Típico


Quando chegou ao lugar marcado, já fazia algum tempo que Camargo tomara um banho em água fria e a sua aparência quase conseguia disfarçar suas rotineiras investidas noturnas aos piores puteiros da cidade. É incrível o crédito policial que ainda detinha nessas espeluncas, justamente por fingir, quando ainda era delegado, que nada demais rolava nesses locais de prazeres baratos.Nesse momento, ao seu lado sentava-se um homem de terno preto alto e forte que disse:


- Eu vim em nome de Dona Juliana, a mulher que me pediu para contratar seus serviços ontem por telefone, ela está ali naquela mesa em frente, com o celular na mão, está vendo? Seja discreto, por favor.


- Sim, estou.


À mesa indicada estava uma suntuosa loira que, mesmo para o ambiente que não era nem um pouco modesto, se destacava entre os que ali estavam, principalmente, em comparação ao desleixo clássico de Camargo. Ela tentava ser discreta, embora, com um rosto harmonioso, preenchidos por delicados lábios carnudos e com um corpo escultural, isso fosse quase impossível.


- Por que tanta precaução, eu sou um profissional.


- Por favor, não se ofenda, a Dona Juliana é uma pessoa conhecida, freqüentemente está nas colunas sociais.


Camargo, como é de praxe, demonstrou que o caso era delicado e que devido a discrição máxima exigida pela cliente, seus serviços custariam um pouco mais.


- Tudo bem, dinheiro não é problema.


E quando Camargo falou o preço e ele aceitou de primeira, causou um terrível arrependimento no detetive que, pensara, devia ter cobrado mais.


- Você tem celular, detetive?


- Sim, por quê?


- Vou passar o número para a Sra. Juliana, assim, ela negociará pessoalmente contigo.


- Mas, ela está logo ali...


- Lembre-se, você vai ganhar pela discrição.


O homem alto de terno escuro deixa o balcão, passa por Juliana e discretamente deixa o guardanapo com número do celular de Camargo sobre a mesa. Quem não tivesse vendo, como Camargo via, não perceberia nada.


Logo depois o celular de Camargo toca o sinal de mensagem de texto que dizia:


- “Quero que investigue Paulo m u irm e sócio na empresa acho que ele está me traindo”. A mensagem, apesar de alguns erros de português, era inteligível, pensava ao ler, Camargo.


Na mensagem seguinte: “Deixarei o dinheiro e tudo que precisa na caixa postal indicada no seu anúncio de jornal”. “Tome cuidado, tudo deve ser tratado com a mais alta discrição, ok?”


“Ok!”, tecla Camargo respondendo às mensagens que recebera.


Logo depois, Juliana levanta-se e sai com a máxima sutileza que sua beleza estonteante poderia permitir. O cara alto, possivelmente, o chofer, já não se encontrava no requintado bar da Consolação.


O caso era aparentemente simples, meditava Camargo, sorvendo um caríssimo pingado, ele preferiria uma dose de qualquer coisa, mas seu dinheiro só lhe deixava a opção do café com leite. Tudo indicava que o marido de sua cliente, Juliana, que fora, por certo, obrigada pela família do noivo a retirar seu sobrenome de solteira, casara com um playboy que fizera dela apenas mais uma de suas “máquinas” que compunham sua coleção, como uma Ferrari, uma Masserati e assim, por diante. Iludira a moça na flor da idade, como um sedutor fingindo ser o “príncipe encantado” de seus sonhos juvenis. Agora, deixava aquela beldade empoeirar, enquanto ficava mais tarde no “escritório” e em “reuniões” até madrugadas a fora, sem dar a menor satisfação a sua mulher. Era o típico caso da mulher apaixonada traída pelo marido rico.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A Vida é uma Cilada I



Lembranças, Mágoas e Medos


Era quase meio-dia e o cheiro fétido da fábrica de lingüiça, que caracterizava o lado negro daquela cidade hostil, ainda entrava nas narinas sem pedir licença. Sinal de que Camargo ainda não estava bêbado. Por isso, encostado ao balcão do Iraci’s Bar, uma espelunca com nome de bar de filme hollywoodiano tipo “d”, estava ele, o homem arruinado e fracassado em todas as circunstâncias de sua medíocre vida.


- Mais uma vodka!


- Aqui está!


- Glu glu glu... Ahhhrrrgg!


Talvez a infelicidade de Camargo devia-se unicamente a sua personalidade autodestrutiva, a seu comportamento blasé e a seu agudo pessimismo em relação a tudo, o que lhe dava um ar gélido, mal-humorado e tedioso. Isso, sem dúvida, contribuiu para o fim de seu relacionamento com Sara, sua ex-esposa.


Porém, nada incomodava mais Camargo, do que a lembrança dessa perda estar agora presente, se revelando com algum valor e lhe mostrando que de fato foi uma perda e que ele realmente é um fracassado que não serve nem para perceber o que realmente importa para a sua vida.


Por outro lado, sua resignação à derrota o forçava a inércia que, em termos práticos, o levou ao álcool e ao aumento progressivo de suas já características e constantes bebedeiras homéricas.


O álcool da vodca barata já afetava seu cérebro quando lhe veio o seguinte pensamento: (sem respeito a qualquer ordem cronológica, aliás, o que veio antes?) Sua ruína profissional ou o fim do seu casamento? A ordem dos fracassos não altera o resultado, pois eles se amontoam uns sobre os outros e a desordem os confunde aumentando o peso que cada um tem, na soma que se acumula sobre seus ombros em forma de culpa.


E a culpa, na vida de Camargo, tomava forma na imagem de socos e pontapés desferidos sobre um pedófilo que abusava de um garoto em plena Avenida Paulista numa noite fria e úmida da Capital. Tomava forma na raiva e na injustiça que sentiu quando foi acusado de abuso de poder contra o gerente de um banco multinacional por ter lhe espancado simplesmente por dar esmola a um menino de rua. Desde então Camargo trabalha por conta própria.


Mas, apesar de tanta mágoa, o que o levou até aquela espelunca de bar onde se encontrava, não foram lembranças, mas o medo provocado por uma caixa que ele pegou há algumas horas atrás, em virtude de um caso, que agora, soava muito esquisito. Assim, a poucos passos de seu cafofo, decidiu tomar umas e outras para se encorajar a abrir aquela caixa, pois algo lhe dizia que dali, como na mitológica caixa de pandora, sairia todos os males que atingiria sua vida a partir daquele momento.


Antes disso, naquele mesmo dia, adormecido ao sofá de seu horripilante quarto alugado ao lado da estação do Belenzinho. Depois de sorver o último gole de conhaque na noite anterior e apagar estatelado, Camargo acordara assustado pensando ser o mini-terremoto provocado pelo metrô que sempre passava quando tentava dormir. Mas, quando recobrou a consciência percebeu que era apenas o telefone tocando pela primeira vez desde que se estabeleceu ali.


- Alô?


Responde uma voz masculina:
- ah, oi, estou ligando para falar sobre o anúncio de investigador particular, você está disponível?


- Ah, sim, claro, estou. Qual é o caso?


- Estou representando uma pessoa, é um caso que exige muita discrição, devemos conversar em particular.


- Claro, quando e onde?


- Deixa eu ver, no Donni’s Bar, que tal? Conhece?


- Donni’s Bar, não. Qual é o endereço?


- Fica na Consolação perto da...


Depois de anotar o endereço, Camargo pensou que deveria ter demonstrado menos ansiedade e interesse, isso comprometeria os honorários. Mas como estava vivendo de favores e da “pendura” da Mercearia do Seu Rui, que já estava impaciente com os atrasos e com a falta de perspectiva de pagamentos, e ao ouvir a voz que acabara de requisitar seus serviços, não conseguiu se controlar, deixando a verdadeira impressão de quem precisava desesperadamente de dinheiro.

sábado, 14 de março de 2009

Crônicas do Futebol II

Pita, um jogador torcedor

Se todo brasileiro que se preze sonha algum dia em ser jogador de futebol, eu, que não fujo a regra, sonhava em ser o Pita do São Paulo, jogador ágil, habilidoso e inteligente, além é claro, de ser tímido, como eu.


Enquanto os meus colegas, quando jogávamos em nossos “contras” e peladas periódicas, diziam a cada lance que eram Careca, Zico, Sócrates, Maradona, Platini, Paolo Rossi, Matheus, Miller, Taffarel, eu; simplesmente, era o Pita. Para mim, ele era o melhor, o mais clássico e o mais interessante jogador do futebol brasileiro dos anos 80.


Muitos seriam os motivos que me levaram a incorporar o Pita em nossas peladas. A timidez do jogador nas entrevistas, as raríssimas chances que teve na Seleção, suas grandes jogadas e gols... Lembro, porém, de alguns lances e momentos inesquecíveis. O golaço, é óbvio, do Pita contra o Palmeiras em 1985, naquele jogo que terminou 4 a 4, no qual ele foi o melhor jogador em campo.
A raspadela de cabeça na final do Brasileiro de 1986 que deu a chance a Careca de empatar a partida no segundo tempo da prorrogação, jogo ao qual o São Paulo ganhou nos pênaltis.


Outros tantos jogos em que Pita foi o maestro, o jogador que quando a partida estava complicada era acionado e requisitado pelos companheiros ou visado pelos adversários.


Mas, o que eu mais lembro é de um jogo pela Copa União de 1987, jogava Santos e Cruzeiro no Pacaembu, pelo regulamento, o São Paulo, depois de uma sonora goleada no Internacional de Porto Alegre, torcia para que o Santos, que não tinha mais chance, apenas empatasse o jogo contra o Cruzeiro.


Quando, de repente, a câmera focaliza um torcedor com a bandeira do São Paulo na arquibancada, a imagem se aproximou e... quem? Pita, torcendo pelo seu time do coração e, ao mesmo tempo, para o time que o revelou para o futebol, o Santos.


Se não fosse pela péssima arbitragem de José Roberto Right que validou um gol ilegal do Cruzeiro aos 46 minutos do 2º tempo, seria uma lembrança feliz, o São Paulo teria ido a semi-final daquela fatídica Copa União, e o Flamengo, que era realmente um timaço, teria, talvez, maior dificuldade e vencer aquele Brasileiro.


Entretanto, mesmo com um final triste, a imagem de Pita, que devoto e humildemente, como um mero torcedor abraçava a bandeira de seu time na Arquibancada do Pacaembu, permanece límpida e clara na minha memória.