sábado, 23 de maio de 2009

Editorial Carta Capital (em virtude de seu aniversário de quinze anos) Por Mino Carta

Como remar contra a corrente
(22/05/2009 16:18:28)
Mino Carta

Ponto e linha. Claro, objetivo. Pingos nos is. Preto no branco. A nova sobriedade. Back to basics. Direto, confiável. Mais qualidade, menos “flash”. Humor sutil e sofisticado.
O texto é de autoria de Mariana Ochs ao estabelecer os fundamentos do projeto gráfico que CartaCapital põe em prática a partir desta edição. Mariana, diretora de arte respeitada até na Madison Avenue, é velha conhecida dos nossos leitores. Cuidou da fisionomia da revista por três vezes e agora realizamos a sua quarta e preciosa intervenção. Mariana é boa intérprete do princípio dos gregos antigos pelo qual ética e estética são sinônimos. Os esclarecimentos acimaprovam a sintonia com o ideal helênico.
Esta edição é especial e atípica, por ser comemorativa de 15 anos de vida de CartaCapital a começar pela concepção. A qual se deu nestes mesmos dias de 1994, quando quatro jornalistas reuniram-se para inventar seu próprio emprego. Alhures estava difícil. Bob Fernandes, Nelson Letaif, Wagner Carelli e o acima assinado. Quanto ao novo projeto de Mariana, adapta-se à especificidade da edição, mas se mostrará mais claramente, em todos os seus alcances, a partir do próximo número. De linha, digamos assim.
Volto ao quarteto e à enésima aventura. Meu sobrinho Andrea, saudosa figura que se foi cedo demais, comandava a Editora Carta Editorial, fundada pelo pai, Luis Carta, dezoito anos antes. Ausente meu irmão, chamado pela Condé Nast a fundar a Vogue España em Madri, Andrea pilotava a editora e pretendia lançar uma nova publicação, de Economia e Negócios. Procurou-me com o afeto de sempre, respondi: “Sem falsa modéstia, isso eu não sei fazer”.
Luis ligou-me da Espanha, torcia para que eu, desempregado, topasse a parada. Expliquei: “Saberia fazer, creio eu, uma publicação sobre o poder, onde quer que se manifeste, na política, na economia, nos negócios, na cultura, em quaisquer gramados”. A ideia foi aceita. Chamei companheiros de outras jornadas e quinze anos atrás traçamos o plano de uma revista necessariamente mensal por causa dos recursos modestos. Houve hesitações apenas em relação ao seu nome. Alguém sugeriu Carta, eu recusei. Receava que soasse como exigência minha. Andrea queria Capital. Ficou como ficou.
Meados de agosto de 1994, ela foi às bancas. Em março de 1996 tornou-se quinzenal, solidamente amparada no primeiro projeto gráfico de Mariana Ochs. O plano era mais ambicioso quanto à periodicidade. A realização levou, porém, mais de cinco anos. A semanal nasceu na penúltima semana de agosto de 2001, mais uma vez programada graficamente por Mariana. Inicia-se aqui a separação de Carta Editorial e sua substituição pela Editora Confiança. Em seguida à eleição do ex-metalúrgico, em 2002, chovem as calúnias contra uma publicação que ousa remar contra a corrente. Revista chapa-branca, panfleto partidário.
Preto no branco, recomenda Mariana. Temos é uma mídia de pensamento único, leves nuanças não bastam para encobrir a senha geral. CartaCapital empenha-se em exercer o jornalismo em que acredita, baseado na fidelidade canina à verdade factual, na aplicação diuturna do espírito crítico, na fiscalização desabrida do poder. Não se expõe a sardinha à brasa de ninguém com o intuito de favorecer este ou aquele. Respeite-se o império dos fatos, nunca poluídos pela opinião. CartaCapital jamais esconde o fato, não nega, contudo, a sua opinião, e aferra-se a ela.
É quanto basta para inquietar. Às vezes me pego a imaginar o que se daria se fosse brasileira a The Economist, a semanal de maior prestígio no mundo. Ela distribui no Reino Unido pouco mais de 200 mil exemplares, tadinha. Comparem com os números de Veja. Sempre acontece que o planeta se curve diante do Brasil. Pois é, o que não se aquietou nestes quinze anos é a arrogância da minoria, seu exibicionismo provinciano contraposto ao medo pânico de perder os privilégios. Ou, simplesmente, de vê-los ameaçados. Os nossos 15 anos bastaram, no entanto, para convencer The Economist a fechar conosco uma magnífica parceria, que nos habilita a publicar seus textos em perfeita concomitância, como ocorreu com o número de fim de ano, realizado a quatro mãos.
Estética e ética. Opinião exposta sem meios-termos. Ainda exemplos. Na edição nº 30 de agosto de 1996 CartaCapital cavava sua trincheira contra o neoliberalismo em pleno ataque. Estava certa, ficou provado doze anos depois. De Bush, a semanal desde a penúltima semana de agosto traçou o perfil implacável, necessário, porém, no nosso entendimento, logo após a implosão das Torres Gêmeas, setembro de 2001.
Em 2002, antes do pleito presidencial, tomou partido a favor da candidatura Lula, por tê-la como a melhor. Prática comum do jornalismo dos países mais avançados, apontada por aqui, pela mídia da falsa isenção, como deslize moral imperdoável. Incrível, não nos arrependemos. E em 2006, às vésperas do segundo turno da reeleição, denunciamos as mazelas midiáticas urdidas para deter a avançada lulista, graças a uma reportagem de Raimundo Pereira, que certamente contribuiu para despertar algumas consciências.
Nesta edição evocamos nosso tempo de vida. Elegemos personagens e situação representativas do período para trafegar por este trecho de tempo e contá-lo aos nossos leitores. Não pretendemos a abrangência absoluta, a cobertura total. Acreditamos, de todo modo, ter iluminado diversos instantes deste passado recente. Pelo caminho, não descuramos de recorrer ao humor, como Mariana Ochs propõe. A vida, de resto, consagra todos os dias, hora a hora, a simbiose implacável entre a tragédia e a comédia, sem olvidar a farsa.
A ironia é arma afiada contra quem a desconhece. Ainda assim, Raymundo Faoro, mestre de todos nós, cuidava de me precaver: não exagere por esta senda, a maioria pensa que você fala sério. Pois é, às vezes a gente exagera.

domingo, 17 de maio de 2009

Crônicas da Educação III


Orgulho e Preconceito

Ao chegar à sala da vice-direção, a funcionária o aborda:

- Venâncio?

- Sim?

- Esta Sra. deseja falar com você?

- Olá bom dia, em que posso ser útil?

- Bom dia! O Meu filho estuda aqui e ultimamente ele vem sofrendo com preconceito.

- Nossa!, isso é grave, quem é seu filho e a partir de quando ele vem sendo hostilizado preconceituosamente?

- Já tem bastante tempo, não é só aqui não, mas como aqui é uma escola e eu espero que o Sr não compartilhe disso...

- Com certeza, não mesmo... continue...

- Pois é, eu vim aqui para que o Sr. tome providências a respeito.

- Que tipo de preconceito? Racial?

- Não! Embora ele seja negro o Francisnetto nunca teve esse problema, graças a Deus.

- Então qual é o tipo de preconceito e quem são os autores?

- Meu filho vem sendo chamado e tratado como gay! E eu te digo...

- Venâncio!

- Sr Venâncio eu te digo: meu filho não é bicha, nós somos religiosos e em nossa família ninguém é anormal.

- Senhora, acalme-se, Matilde, busque um copo com água para esta senhora, por favor!

- Tome, beba e agora se acalme, por favor. Vamos tentar resolver esse problema. Isso, acalme-se, muito bem.

- A Sra. acha que ser gay é um problema?

- É claro que é, isso é coisa do capeta!

- Olha, vou dar minha opinião sobre o caso, é apenas uma opinião particular. Se seu filho vem sendo hostilizado e constrangido moralmente, dependendo do contexto isso é muito grave e cabe até processo judicial quando bem fundamentado. E sob esse aspecto a Sra. pode ter certeza que a Direção da Escola vai apoiá-la em todos os sentidos.

- No entanto, eu discordo da Sra. quando diz que ser homossexual é um defeito, uma anormalidade. Todos aqui na Escola e na sociedade como um todo devem ser tratados com respeito e dignidade, independente se for preto ou branco, homem ou gay, corintiano ou palmeirense.

- Não sei se seu filho é gay, e isso só interessa a ele e a quem ele quiser contar. A orientação sexual de qualquer indivíduo é singular, embora seja um processo social. Veja, cada um, em respeito às leis, tem o direito de ser magro, gordo, bonito, feio, homem, gay e por aí vai.

- Agora, eu vou te fazer uma pergunta pessoal, e a Sra. responde se quiser. A Sra. acha que seu filho é gay? Se acha, isso te incomoda?

Aos prantos, a mãe de Francisnetto responde:

- Não sei... snif, aaacho que sim, snif, snif ó meu Deus porque isso comigo?, o que fiz de errado? porque essa desgraça se abateu sobre mim?

- Acalme-se minha senhora, por favor, isso não é uma maldição, isso cabe a ele, só a ele, é singular, não sofra com isso. Até onde eu sei ele é um menino educado, carinhoso, honesto; estas sim são qualidades imprescindíveis ao ser humano.

- Mas, o que os outros vão falar, o Sr. fala assim porque não é contigo, né?

- Não, minha senhora, é do fundo do coração, se minha filha se tornar um homossexual eu não vou lamentar, o importante é ela fazer o bem para si e para outros. Acalme-se, por favor, não chore mais.

- Os meus irmãos de fé, eu percebo, eles olham torto para Francisnetto...

- Acalme-se, beba mais água, sim?, por favor, isso, isso se acalme.

E inopinadamente ela se levanta:

- Olha aqui, já vi que o Sr. não vai resolver o meu problema, eu perdi meu tempo vindo aqui, esse assunto eu vou resolver lá em casa, essa sem-vergonhice do Francisnetto, ele me paga, a hora que ele chegar em casa vai ver só...

- Não faça isso, converse com ele, mas com calma, seja compreensiva, não faça nada impen...

E antes que Venâncio terminasse sua frase, a porta da sala bate fazendo um estrondo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Crônicas da Educação II

O Fim... de Turno

Estava eu, singelo professor, saindo da sala de aula no 4º horário a caminho de outra para completar meu turno, enquanto pensava nos problemas cotidianos: alunos com déficit de atenção, problemas familiares, carência econômica e emocional, meu salário que não dava para pagar as contas, a revista que eu queria assinar, mas teria que adiar novamente, o pagamento do aluguel atrasado, etc. Quando de repente, ao passar em frente da vice-direção, uma conversa me alcança:

- Você é o vice-diretor?

- Sim, sou eu, bom dia!

- Só se for para você, porque eu deixei um monte de serviço em casa e meus filhos pequenos sozinhos para vir aqui.

- Qual o problema?

- Eu é que sei... Simplesmente me chamaram, meu filho disse que eu teria que comparecer na escola.

- Certo, quem a chamou?

- Não sei.

- A Sra. recebeu um bilhete, um comunicado?

- Sim, mas deixei em casa.

- Entendo...

- A Sra. leu o bilhete?

- Claro que eu li!

- Quem a convocou? Qual a pedagoga?

- Não sei, como posso saber?

- Estava no bilhete que a Sra. leu!

- Não me lembro, e agora?

- Tudo bem, temos três pedagogas, cada uma com 7 turmas, diga-me apenas o ano (série) em que seu filho estuda?

- ah... Não sei... Acho que é 7ª ou 8ª...

- Tudo bem, me fale a data de nascimento dele que eu o procuro no sistema.

- Data de nascimento, ah... Deve ser 3 ou 5 de maio; não, não, acho que é abril...

Como a turma do 5º horário já me esperava à porta, não pude ouvir o final do diálogo entre o vice-diretor e a mãe do aluno... Foi melhor assim!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Crônicas da Educação I

Um Ônibus Quebrado

Estava eu no ônibus pensando em nada, quando uma conversa me invadiu:

- Nossa, mas esses alunos de hoje são tão burros, não gostam de ler, não sabem e não querem escrever e quando tiram notas baixas, aí vem os pais reclamarem e a culpa recai sobre nós, a culpa é do professor.

- Então, a gente tem que ensinar até a sentar, só querem saber de internet, site de relacionamento, televisão e videogame. Ainda bem que nem de computador eu gosto.

Quando de repente o ônibus pára, faz-se silêncio, o motorista desce, olha o motor e desbriado volta e diz ao cobrador:

- Zé!?

- Fala?

- Liga para empresa, chama o reboque esse aqui já era!

É quando um dos interlocutores volta a falar:

- Era só o que faltava, vou chegar atrasado na outra escola e o diretor lá não quer nem saber, manda falta!

- Pois é, esse é o Brasil, e depois vem político dizer que quer melhorar a educação, os professores nem trabalhando três turnos têm dinheiro para comprar carro.

- Então... Ei veja!

Fala para o outro, mostrando a placa com o nome da rua onde o ônibus quebrou.

- O quê?

- Olha ali na placa, brasileiro não tem nem criatividade para colocar nome nas ruas, vê se aquilo é nome: Gustavi Flauberte.

- E eu não sei, são um bando de ignorante, também olha só quem é presidente.

- Mas, mudando de assunto, se viu ontem no Big Brother, quem foi para o paredão?

Nesse momento, meu olhar capta uma cena inusitada, logo a frente um jovem alheio àquela conversa lê “1984” de George Orwell.

Que trágica e desconfortável coincidência, para um professor como eu!

O Eu sem o Outro: O paradoxo de nossa sociedade



Em nossa sociedade atual temos medo de viver em autonomia. A liberdade não é mais desejada, e sim sentida como perigosa. A participação política é um fardo, uma ocupação cansativa que onera o já oneroso cotidiano do trabalho. As pessoas se fecham dentro de si mesmas, se recolhem à segurança de suas vidas privadas e privativas, ao recanto da intimidade. O outro se tornou um incômodo, um excesso que não se pode mais perder tempo com ele.

Pensar no outro é perder tempo com a própria vida, com seus próprios problemas pessoais. O altruísmo é um luxo, nos contentamos apenas em lamentar as mortes, as desgraças e infortúnios alheios que aparece aos montes na televisão e nos meios populares de imprensa. Isso é um sintoma do pouco valor que damos aos fatos alheios a nossa vidinha, pois se nos afetassem realmente, jamais conseguiríamos dormir em paz depois de assistir ao telejornal.

Ao contrário, trata-se de um anestésico que ao mesmo tempo em que nos dá a falsa impressão, aos outros e a nós mesmos, de que nos importamos com o além de mim e de que os outros se importariam comigo, também nos passa a idéia de que sentimos muito, mas não podemos fazer nada, pois nossas obrigações individuais nos tiram todo o tempo que teríamos para pensar e ajudar o outro efetivamente.

Existe em nossa contemporaneidade uma cisão entre o eu e outro, componentes do indivíduo na modernidade clássica. Vivemos o indivíduo-eu e é óbvio que isso nos impossibilita de vivermos em sociedade e ao mesmo tempo que tentamos recusá-la, fugir dessa sociedade que negamos, da necessidade do outro, da complementação do eu, refugiando em si mesmo, reivindicamos internamente, inconscientemente a alteridade do outro aquela mesma que nós mesmos negamos. Transferimos a nossa responsabilidade para outro, para o governo, para o patrão, etc. É, em suma, um beco sem saída.

Não queremos romper com a nossa rotina torturante e talvez nem podemos, pois essa mesma rotina aprisiona a imaginação para além dela, de nós mesmos. Como no mito de Ulisses que tentava libertar seus companheiros do feitiço que os transformaram em porcos e quando os mesmos ficaram sabendo que ele tinha o antídoto, fugiram todos se recusando a serem libertos do estado animal em que estavam.
Atualmente, nos recusamos a sair da caverna, pois a luz nos dá medo, nos assusta. As trevas, ao contrário do que os filmes de terror propagam, nos dá segurança e calma. Sem a luz para nos mostrar o que nos assusta não podemos nos assustar. É como na casa do terror de qualquer parque de diversão, sem a luz não podemos ver as caveiras, os vampiros é só com a luz que podemos gritar de medo. Se não podemos enxergar, logo não podemos decidir, nem opinar e nem andarmos por conta própria. A desresponsabilização é um porto seguro que embora não nos traga aventuras também não nos traz riscos. Preferimos nos submeter aos erros cotidianos de vidas sem sentido a termos a responsabilidade de impormos a nós o nosso próprio sentido.

O aluno com medo de aprender se esconde em sua ignorância. É como se a vergonha de cair da bicicleta fosse tão terrível a ponto de preferir nem tentar aprender a andar de bicicleta. Por isso, o videogame é o brinquedo da nossa época, porque só socializamos o jogo quando já o dominamos, não há a vergonha dos erros, pois não se compartilha o jogo antes de aprendê-lo na solidão. A interação, se é que podemos chamar dessa forma, a relação entre menino e a máquina é passiva, sem comentários, sem críticas alheias. Os jovens de hoje não estão preparados para crítica, toda contrariedade é tida como ofensa ou maledicência, por isso, mais do que antes se refugiam em hábitos fabricados pela mídia ou pelos produtores de comportamentos do momento. Nada é mais seguro do que fazer o que todos fazem.

É por isso também que a customização é uma marca de nosso tempo, ao mesmo tempo, em que imitamos os produtores de comportamento adaptamos a nossa individualidade, aquilo que é só nosso, ou que achamos que seja, pois a customização também se massifica, pois é, por outro lado, a retroalimentação do mercado, o aproveitamento de seus dejetos para novos fins, é a multiplicação dos pães das mercadorias, é a reprodução infinita dos mesmos por meio da mudança de detalhes que pouco os diferenciam, um corte aqui outro acolá, um descosturado na coxa outro no joelho e assim a mesmice e a uniformidade é reproduzida como se não fosse o mesmo e nem o uniformemente igual.
A beleza, hoje em dia, está na ignorância, no não-saber.
A liberdade é poder fazer igual aos outros.
A paz é não ser importunado por problemas alheios.