quarta-feira, 10 de junho de 2009

O Terror “Cult” do Iluminado Stanley Kubrick



O “Iluminado” de Stanley Kubrick é um daqueles filmes em que somos, a cada cena, manipulados a sentir temor, suspense, surpresa e dúvida, com tal volúpia, que é bom estarmos sempre com o controle na mão para que possamos parar o filme e pensarmos a respeito.


Se no clássico “Dom Casmurro” de Machado de Assis, a dúvida é sobre se Capitu traiu ou não seu marido, no filme de Kubrick, a questão reside em saber se os acontecimentos são sobrenaturais ou psicológicos, da imaginação de Jack, o pai escritor, e de seu filho Danny.


Na cena que Jack escapa misteriosamente da câmara fria onde sua mulher o prendeu preventivamente depois de ser atacada por ele, parece-nos que finalmente o diretor optou pela interpretação sobrenatural, mas, em uma das últimas cenas do filme, a câmera começa a se mover lentamente para o painel de fotos de hóspedes do hotel e numa das fotos podemos ver Jack ao lado do garçom supostamente imaginado por ele.


Jack Torrance então estava no hotel quando ocorreram os assassinatos das filhas gêmeas e da mulher do funcionário?


Será que a cena em que Jack imagina estar abraçado a uma mulher nua e é flagrado pelas gêmeas não seria uma lembrança, um trauma não superado e, sendo assim, o crime teria sido cometido por Jack para que as filhas não tivessem a chance de contar ao pai? Talvez...


Assista ao filme e tire suas próprias conclusões!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Brancaleone: O brilhante dom Quixote de Monicelli



Há algum tempo, um amigo me indicara um filme com a seguinte recomendação: “assista Brancaleone, é uma comédia sobre a Idade Média!”. Lembro que ao ouvir tal frase me dirigi imediatamente para a locadora mais próxima. Fiquei encantado com o filme e não temo em dizer que é, não só, a melhor comédia, como o melhor filme sobre a Idade Média que assisti.


Lá você encontra todos os principais elementos do fim do feudalismo. O filme conta a história de um cavaleiro medieval pobre, Brancaleone, que procura ganhar um torneio e casar-se com a princesa, até aí um clichê legítimo. Mas, a maneira como é narrada, pelo brilhante Monicelli, e as várias idas e vindas da trama é o que faz a diferença.


A película começa com uma invasão bárbara a um feudo que é salvo por um cavaleiro solitário, que ferido, é atacado por alguns sobreviventes que ele salvou. Assim, quando se encontrava à beira da morte, roubam-lhe a armadura, a espada e um misterioso pergaminho. Na cena seguinte os assaltantes levam os despojos do crime para vendê-los a um mercador judeu, que quando lê o manuscrito, percebe a encrenca em que ambos se meteram, tratava-se da concessão de um feudo ao cavaleiro portador do manuscrito que, naquele momento, se encontrava morto.

Tais personagens então partem em busca de um cavaleiro que possa tomar o feudo de Alencastro, é aí que encontrarão Brancaleone que deu vexame no torneio devido a não conseguir dominar seu cavalo. Monicelli ainda vai acrescentar outros elementos no filme: um cavaleiro de Bizâncio que irá duelar com Brancaleone pelo direito de passagem, uma das melhores cenas do filme; um monge que arrebanha voluntários para lutar na terra santa; um castelo abandonado cheio de vítimas da Peste Negra; as invasões árabes às vilas litorâneas do Mediterrâneo e muito mais.


Tudo isso regido por Brancaleone que personifica dom Quixote de Cervantes, o honrado e atrapalhado cavaleiro medieval que, na literatura, marca a transição entre Idade Média e modernidade, como também é uma das intenções de Monicelli. A continuação da história, ou melhor, do filme, ninguém pode perder, principalmente, quem gosta de história e de dar umas boas gargalhadas em alto nível.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Rastros de Ódio: o bandido-e-mocinho com requinte



Vi recentemente o filme “Rastros de Ódio” (The Searchers) de John Ford e vou aqui escrever sobre alguns pontos que considero positivo e outros que nem tanto. Primeiramente, é um filme que mostra uns Estados Unidos pouco unidos, uma terra de ninguém ou de vários donos que tentava se formar como Nação. Era o período imediatamente posterior a guerra de secessão vencida pelos Yankees, o que permite ao diretor uma história repleta de ressentimentos, como a mal digerida derrota dos confederados do sul tão cruamente retratada pelo seco John Wayne, que ainda por cima, revela o típico racismo sulista desta vez não pelos negros, habituais alvos, mas contra os índios.


É quase insuportável aturar a conduta politicamente incorreta da personagem principal e o estereótipo criado pelo diretor de que o índio é ignorante, mal e incivilizado, enquanto o branco, embora, também seja mal e ignorante, tenha, contudo, sempre um motivo para agir assim: a terra hostil que valentemente, como pioneiro e empreendedor (características forjadas da nacionalidade estadunidense) desbrava e vive, outro motivo é vingança, pois o mocinho ele não ataca, vinga, ele não agride, apenas revida o mal sofrido. Nessa perspectiva é inegável a herança grifitthiana de John Ford.


O filme, enfim, vale a pena pela habilidade narrativa do diretor e a grande fotografia que mostra com rigor a beleza selvagem do Texas e do Novo México, quando ainda (período da história do filme) não tinha sido tomado dos mexicanos.

domingo, 31 de maio de 2009

1492 – A Conquista do Paraíso: um épico de Ridley Scott



A Conquista do Paraíso de Ridley Scott é um dos filmes que merece ser visto por vários motivos, para aqueles que gostam de conhecer a História da América é, então, imprescindível. A começar pelo elenco estrelado por Gerard Depardieu, em incrível desempenho no papel de Colombo e Sigourney Weaver, esta como a então rainha Isabel da recém unificada Espanha.


Entre outros atrativos, há fatos históricos fundamentais para começarmos compreender as raízes culturais dos povos americanos: o primeiro já citado é o da Unificação da Espanha em 1492 que acontece justamente a partir de outro fato importante; o da expulsão dos mouros que por séculos viviam no sul da Europa, sobre este fato, a cena da substituição da “meia lua”, símbolo muçulmano, pela cruz, é uma síntese emblemática; há também a luta da ciência, em parte representado pela personagem de Colombo, contra a religião, que se opõe a viagem para não perder sua autoridade, já revelando um início de decadência que irá se agravar com a Reforma.


A Igreja Católica tenta, assim, com base nos livros sagrados, rebaixar as idéias que dão sustentação a viagem de Colombo, não propriamente por discordar delas, pois já era notório entre os intelectuais, em grande parte, formados pela Igreja, que a terra poderia ser de fato redonda, mas o que estava em jogo, era o domínio do saber, que deixaria de estar sob o monopólio da Igreja e passaria também para as mãos de exploradores e cientistas que deteriam a autoridade sobre um assunto que era, até então, exclusividade do poder Religioso.


Nessa perspectiva, o filme ressalta em uma cena de tirar o fôlego literalmente, o poder da Igreja Católica na Espanha e mostra a força política da Inquisição fazendo mais uma vítima, isso claramente evidencia os riscos a que Colombo estava submetido. Por outro lado e a despeito de todas as forças contrárias encabeçada pela Igreja Católica e por parte da Nobreza, os mercadores, personagens importantes historicamente, entram em cena para “patrocinar” sob os auspícios e as garantias do Estado espanhol, representado no filme pela Rainha Isabel, a “grande loucura” de Colombo, que não era lá, a bem da verdade, tão insana assim. Pois numa cena entre o mercador e o líder espiritual, fica clara a mutua dependência entre Estado, iniciativa privada e a Igreja e que, Estado e mercadores não tinham nada a perder, caso a viagem de Colombo não desse certo; por outro lado, se obtivesse sucesso, teria tudo a ganhar, inclusive, como bem sabemos hoje, a hegemonia econômica no século XVI conferindo a Espanha o status de Estado mais rico e próspero da Europa e porque não do mundo, graças aos lucros auferidos com a Conquista (e não descoberta) da América.


A viagem em busca do paraíso é uma epopéia a parte no filme, desde a habilidade de Colombo com os tripulantes evitando um motim até o aviso de terra à vista, passando pelos usos dos instrumentos marítimos, as doenças (escorbuto), o racionamento de comida e culminando ao encontro com os nativos e os rituais de posse feitos pela nobreza espanhola.


A partir daí, cada cena é desenvolvida a partir do eurocentrismo das personagens, a sua recusa deliberada em aprender com os nativos, o seu total desrespeito com a cultura ameríndia, tudo isso, evidentemente, culmina com o fracasso pessoal (em vida) de Colombo e com inviabilidade inicial da colonização espanhola que só vai acontecer com a chegada de Cortez já em meados do século XVI.


Bem para o final do filme, descobrimos que o filho caçula de Colombo, aquele que ele mostra, com uma laranja, a razão de o barco desaparecer no horizonte, outra cena emblemática, é o narrador do filme. Ele expõe as injustiças que seu pai sofreu no final da vida, a glória que Américo Vespúcio recebeu no lugar de seu pai, pois por mérito a América deveria se chamar Colômbia. Por fim, a trilha sonora do filme feita por Vangelis só vem estampar com a música, a marca dos grandes épicos.

sábado, 30 de maio de 2009

Pulp Fiction: inconseqüências e acasos – Tiros na hipocrisia



Eu me recuso a ver nos filmes de Tarantino apenas um passatempo violento e banal. Para mim suas cenas de violência são muito mais que isso, assim como seus filmes são muito mais que violência. Em Pulp Fiction, meu preferido, matar é uma profissão, como enganar é uma tática economicamente rentável, seja na compra de resultados de luta de boxe, no repasse dos lucros das drogas, etc.


Pulp Fiction é um desvelamento das hipocrisias da vida; talvez a visão cética que mostra com crueza a impossibilidade de relacionamentos sinceros e duradouros. É o desmascaramentos dos caracteres sociais e individuais. Não é nada muito sério, todos os argumentos são diluídos nos acasos predominantes da vida.


É como num conto policial, as motivações se perdem na trama, as ambições tornam-se sem relevância, nada vale muito à pena. Resolver o caso ou não, importa pouco no final. Entre bons e maus inexistem diferenças fundamentais e quando há distinções, é sobre atos dentro dos próprios sujeitos, são as escolhas e esquecimentos cotidianos, sem muito ou nenhuma explicação, que conduzem a trama e a vida, no final das contas. É como uma revista (pulp fiction) de contos policiais lida em um vaso sanitário enquanto defeca.


Quentin Tarantino faz de uma simples “cagada” uma pausa para leitura; de uma simples ida ao banheiro, uma “viagem”, não apenas um retoque na maquiagem, mas uma pausa necessária para refletir sobre seus atos, de resto, completamente inconseqüentes.