terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Comentários Singelos sobre As Cartas de Bakunin.

Bakunin nos mostra que tanto Marx quanto Mazzini confundem uniformidade com unidade: "Estes doutrinários e estes autoritários, Mazzini tanto quanto Marx, confundem sempre a uniformidade com a unidade, a unidade formal dogmática e governamental com a unidade viva e real, que só Pode resultar do mais livre desenvolvimento de todas as individualidades e de todas as coletividades e da aliança federativa e absolutamente livre, na base de seus próprios interesses e de suas próprias necessidades, das associações operárias nas comunas, e, para além das comunas, comunas nas regiões, regiões nas nações, e nações na grande e fraternal União internacional, humana, organizada federativamente somente pela liberdade com base no trabalho solidário de todos e da mais completa igualdade econômica e social".
(CARTA AOS INTERNACIONAIS DE BOLONHA, Dezembro de 1871. Instituto Internacional de História Social de Amsterdã).

Bakunin pede demissão da Federação Jurássica e da Internacional, devido não principalmente as infâmias dos marxistas, mas por se achar um velho burguês que só poderia contribuir para a revolução social como propagandista teórico, o que seria pouco útil, pois para ele o que estava faltando naquele momento ao mundo eram fatos e ações: "O tempo não está mais para idéias, e sim para fatos e para atos. O que mais importa, hoje, é a organização das forças do proletariado. Mas esta organização deve ser a obra do próprio proletariado. Se eu fosse jovem, eu me transportaria para um meio operário, e, compartilhando a vida laboriosa de meus irmãos, participaria igualmente com eles do grande trabalho dessa organização necessária.Mas minha idade e minha saúde não me permitem fazê-lo. Elas me pedem, ao contrário, a solidão e o repouso. Cada esforço, uma viagem a mais ou a menos, torna-se um caso muito sério para mim. Moralmente sinto-me ainda bastante forte, mas fisicamente canso-me rapidamente, não sinto mais as forças necessárias à luta. Eu não poderia ser, no campo do proletariado, mais do que um estorvo, não uma ajuda".

Nas últimas cartas de Bakunin predominam um grande pessimismo e daí que sua análise da conjuntura de fim de século XIX é de um realismo premonitório, pois, entre outros pontos, destaca a força reacionária do bismarkismo pangermânico e sua grande força policial contra os revolucionários, restando apenas a propaganda heróica, contra a concentração financeira em Estados Modernos que, segundo Bakunin, "devem se entredestruir e se entredevorar, cedo ou tarde. Mas que perspectiva!". É sem dúvida espantosa sua clarividência, pois, a História a seguir, ao contrário dele, nós a conhecemos bem!
In: Bakunin por Bakunin, site:
acessado em dez/07.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Guerra ou Fuga - a modernidade reinventada III

3. Revolução ou Linhas de Fuga

Muitos autores tentaram demarcar a origem da pós-modernidade, muitos apontaram para o fim da Segunda Guerra Mundial e outros tantos para a Crise de 1973 e a emergência de novas técnicas de domínio com o neoliberalismo. Mesmo considerando a importância de tais marcos, melhor do que dizer o que é a pós-modernidade é descrever como a emergência de novas estratégias de controle social foi possível e como tais estratégias puderam ser vistas como sendo novas ou como sendo posterior a algo que não existe mais ou que pelos menos tenha mudado tão consideravelmente ao ponto de suas semelhanças com o anterior existente terem sido superadas pelas suas diferenças.
O grande esquecimento dos perseguidores por origens foi o espanto, isso mesmo, a crítica pós-moderna se ramificou no úmido solo da consternação. Brotou como mato, também na seca caatinga da desilusão. A pós-modernidade só pode se entendida em sua profundidade a partir do maio de 1968.
Nesse tempo, nesse lugar estão a chave da pós-modernidade. Ele marca a bifurcação que nos trouxe aqui. Parafraseando um grande romancista inglês... [1] esse foi o tempo do sonho e do pesadelo, da certeza e das incertezas, da revolução e da fuga, da coragem e do medo, da normalidade e da esquizofrenia (talvez mais normal que a normalidade).
Foi o momento e a ocasião para o desenvolvimento de n teorias que davam conta do que estava acontecendo em sua totalidade e não entendiam nada, por tão ousada pretensão. Foi também a hora e o lugar das indignações anti-acadêmicas da academia que confundiam sem explicar e, por isso, talvez explicavam melhor o que acontecia. As revoltas mais insanas e mais racionais (também de certa forma insanas) aconteceram ali. O ânimo e o desânimo andaram lado a lado. Teóricos e antiteóricos se uniram na confusão de estudantes e trabalhadores, burguesia e proletariado no mesmo protesto sob os olhares consternados de partidos e sindicatos, que estavam tanto ou mais assustados que os patrões.
Maio de 1968 findou com a exaustão dos velhos baluartes e dos novos que já nasceram abortados. A partir dali nada mais restaria intacto, nem mesmo o mais seguro dos solos, a mais estática das naturezas conseguiria esconder mais seu dinamismo. A realidade ou alucinação não cabia mais em nada, a psicanálise e a sociologia tornaram-se ferramentas obsoletas. Não havia mais meio, qualquer ponto poderia ser o início e o fim. O conhecimento não evoluía como o iluminismo e o marxismo imaginavam...
Deleuze e sua concepção de filosofia, que se insurgiu contra onipotência do humanismo francês nos anos 60, principalmente, em oposição à sua simbiose com o marxismo feito por Sartre e Merleau-Ponty, foi um dos destaques das chamadas antiteorias pós-modernas. Herdeiro da crítica foucaultiana à concepção de sujeito fenomenológico, talvez nenhuma obra simbolize mais a multiplicidade do maio de 1968 do que o Anti-Édipo de Guattari e Deleuze.
A produção maquínica de conceitos da filosofia deleuzeana significou, ao mesmo tempo, a esperança e o pessimismo da pós-modernidade que transbordara com abundância naquele mês de 1968. Os anos 60 foram emblemáticos, tanto positiva quanto negativamente, para vários ramos de atividade humana e não foi diferente com relação às ditas ciência humanas.
As utopias modernas carregavam um clima de desilusão, a exemplo da decantada revolução que seria feita pelos operários, elas foram se tornando obsoletas, assim como seus enunciados do ponto de vista do saber não eram mais válidos diante da realidade múltipla e esquizofrênica do mundo que evidentemente já não podia ser apenas denominado de moderno. As técnicas disciplinares vigente, na modernidade não desapareceram no pós-guerra, mas foram se reconfigurando em dispositivos de controle social cada vez mais dinâmico que exigiam novas ferramentas de saber para compreendê-las.
O marxismo, grande baluarte da esquerda no mundo inteiro tornara-se um fascismo de esquerda na prática, o liberalismo não passava mais confiança depois da Crise de 1929, os partidos comunistas nos países capitalistas industrializados estavam paralisados no mundo do século XIX, disputando um jogo com as regras de um mundo que não existia mais, contra um capitalismo imperialista que não correspondia à nova reordenação econômica e que muito menos compreendia as novas possibilidades de sublevação nem via as brechas que o sistema deixava e quando percebia, ignorava-as por entenderem com recaídas reformistas.
Deleuze foi importante para ressaltar as falhas estratégicas dos discursos de esquerda, as impossibilidades de tomada de poder pela revolução, mas também foi relevante para uma reorientação da luta, da criação de novas regras para jogar o jogo do poder, para a insurreição, para os levantes, para as linhas de fuga da sociedade de controle.
Já que não se podia destruir nem o capitalismo nem o Estado[2], pelo menos tendo como base as velhas utopias e as posições defensivas em que se encontravam as forças revoltosas na sociedade de controle, era necessário criar uma nova máquina de guerra contra a burocracia tecnicista. Se não era mais possível afetar o sistema mortalmente, pelo menos, deveríamos encontrar as brechas e atravessá-lo. Contra a sociedade de controle, Deleuze propôs a máquina de guerra nômade. Contra as identidades criadas e impostas pelos dispositivos de controle, ele propôs a desterritorialização nômade. Contra o vício filosófico da lógica clássica ele criou a análise por diferenciação sem parâmetros de comparação a priori. [3]
[1] Cf. DIKENS, Charles. Duas Cidades.
[2] Para uma análise rápida das variadas reações da esquerda hoje à hegemonia do capitalismo global. Cf. ZIZEK, Slavoj. Resistir é Capitular. Revista Piauí 16, 2 janeiro 2008. A esquerda de hoje reage de maneira bastante variada à hegemonia do capitalismo global e ao seu complemento político, a democracia liberal. Pode, por exemplo, aceitar essa hegemonia, mas continuar a lutar por reformas dentro das suas regras (a social-democracia da Terceira Via). Ou pode aceitar que essa hegemonia não deixará de existir, mas ainda assim preconizar uma resistência a ela a partir dos seus “interstícios”. Ou aceitar a futilidade de toda luta, já que a hegemonia é tão abrangente que não há nada que se possa fazer, exceto esperar pela irrupção da “violência divina” – uma versão revolucionária do “só Deus pode nos salvar”, de Heidegger. Ou reconhecer a futilidade temporária da luta. Após o triunfo do capitalismo global não se renova, é defender o que ainda resta do Welfare State, confrontando os ocupantes do poder com reivindicações que eles não têm como atender. E, fora isso, nos refugiarmos nos estudos culturais, nos quais é possível prosseguir silenciosamente o trabalho de crítica. Ou enfatizar que o problema é mais profundo, e que o capitalismo global é, em última instância, um efeito dos princípios subjacentes da tecnologia, ou da “razão instrumental”. Ou postular que é possível minar o capitalismo global e o pode do Estado não por meio de um ataque direto, mas transferindo o foco da luta para as práticas cotidianas, com as quais se pode “construir um mundo novo”. Desse modo, as fundações do poder do capital e do Estado ficarão cada vez mais abaladas e, em algum momento, o Estado acabará\ desabando (o exemplo dessa visão é o movimento zapatista, no México). Ou enveredar pelo caminho “pós-moderno”, transferindo a ênfase da luta anticapitalista para as múltiplas formas de disputa político-ideológica pela hegemonia, enfatizando a importância da rearticulação do discurso. Ou apostar que é possível repetir, no nível pós-moderno, o gesto marxista clássico de incorporar a “negação” do capitalismo: com a ascensão contemporânea do “trabalho cognitivo”, a contradição entre a produção social e as relações capitalistas tornou-se mais aguda do que nunca, se4ndo possível pela primeira vez a “democracia absoluta” (essa seria a posição de Michael Hardt e Antonio Negri).

[3] Cf. DELEUZE, G. & GUATTARI, F. Mil Platôs – Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 5.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Guerra ou Fuga – A Modernidade Reinventada II

2. Identidades móveis, fluídas... Posicionamentos do sujeito

Uma das marcas da crítica pós-moderna é o ataque à eficácia do conceito de identidade no mundo globalizado de hoje. Alguns autores como Hardt e Negri, tentaram apreender nossa realidade diferenciando o período imperialista dessa nova conjuntura por eles determinada: Império. Eles procuraram androgeniamente articular metas-teorias, principalmente, um marxismo revisado com antiteorias pós-modernas. O resultado foi uma obra híbrida e única que misturou Foucault, Deleuze e Marx sem anulá-los mutuamente. [1]
Uma das perspectivas abordadas pelos autores é a constante desterritorialização. Assim, cada pessoa em sua especificidade diferenciada torna-se incessantemente descaracterizadas, desterritorializadas e, com isso, estaria constantemente buscando novas identificações, máscaras de sociabilidade em sociedades cada vez mais indiferenciadas pelo consumo de massa e (des)raizadas por ocasião de rupturas incessantes nos hábitos e costumes, que nem chegam a se caracterizarem com tais e já acabam como modas da estação que duram cada vez menos devido ao ritmo veloz e esquizofrênico do sempre “novo” cada vez mais supérfluo e descartável.
Neste contexto, o conceito de identidade perde sua função, pois a condição de possibilidade para sua existência é suprimida e subjugada pelo processo de desterritorialização que predomina na sociedade regida pelo império.
A sociedade disciplinar típica das negociações bélicas imperialistas que marcavam e demarcavam territórios numa incessante busca por novos mercados, irradiando o poder do centro para as periferias subjugadas, impondo a culturas às técnicas disciplinares adequadas ao desenvolvimento do Estado liberal que se resguardava enquanto tal, paradoxalmente, por meio da monopolização das riquezas alheias sob o disfarce do livre câmbio entre as potências.
No pós-guerra, com a emergência de dois pólos de poderes, a conjuntura internacional propiciou novas possibilidades com o desgaste mútuo das hegemonias agravada pela crise econômica de 1973, que decretou o fim do Welfare State que tinha como condição de possibilidade a exploração imperialista que vinha degringolando desde o fim da Segunda Guerra Mundial e teve com a Guerra do Vietnã e derrota principalmente moral dos Estados Unidos, o último alento para o capital centralizador que até então predominava.
Com a crise e com o fim das condições de continuidade hegemônicas enquanto Estados nacionais clássicos, o capital e seus agentes foram se adequando e criando novas condições de hegemonia desterritorializando as economias nacionais, com a base na revolução das tecnologias de informação, nas técnicas flexíveis de produção atrelada online ao consumo, juntamente como desemprego em massa que se tornando estrutural e somado a terceirização e as técnicas toyotistas, fizeram das antigas periferias desterritorializadas, os novíssimos mercados do capital volátil e global.
Nesse processo de desnacionalização do capital que buscou os menores custos de produção redirecionando seus territórios produtores, trazendo desemprego e crise para os antigos pólos industriais, as hierarquias tornaram-se instáveis, grandes multinacionais como a GM líder do mercado automobilístico durante décadas foi recentemente superada por empresas asiáticas que se configuraram melhor as táticas novas de mercado e as impuseram, se aproveitando das altas taxas de desemprego provocadas, em parte, pela substituição tecnológica da força de trabalho, do sucateamento da seguridade e previdência social, antigos baluartes do Estado de Bem Estar Social.
Em suma, esse novo panorama seguiu regras para conter o déficit do Estado e aumentar o acúmulo de capital que favorecia a criação de oligopólios, trustes e cartéis conectando os tentáculos da lucratividade no domínio de fatias de mercado e não mais apenas na produção, isto é, exclusivamente na exploração da força de trabalho, relativamente, cada vez mais reduzida no ramo industrial.
No plano individual a insegurança torna-se uma constante “tudo que é sólido se desmancha no ar”, a velha máxima de Marx, dotada de inspiração renovada, aguça a visão da modernidade que na interpretação de Bauman é formada de uma “textura” líquida. As coisas nos escapam à mão, tudo se (des)faz instantaneamente inclusive nossas convicções mais profundas, a tensão cotidiana é a regra enquanto “máquinas desejantes” buscamos sempre algo que não sabemos, queremos e não sabemos o que queremos, desejamos, desejamos realizações nunca realizáveis, pois na medida das contingentes realizações, elas desaparecem por serem descartáveis. [2]

[1] Cf. HARDT, M. & NEGRI, A. Império.
[2] Cf. BAUMAN, Z. Modernidade Líquida.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Guerra ou Fuga - A Modernidade Reinventada


A “máquina de guerra nômade” conquista sem ser notada e se move antes do mapa ser retificado. Quanto ao futuro, apenas o autônomo pode planejar a autonomia, organizar-se para ela, criá-la. É uma ação conduzida por esforço próprio. O primeiro passo se assemelha um satori – a constatação de que a TAZ começa com um simples ato de percepção.
Hakim Bey[1]


1. O Pós da Modernidade
Em que se diferenciam as críticas modernas e pós-modernas? Qual a justificação do pós na modernidade. Há ainda espaço na ciência social para a crítica. Muito do que foi escrito até aqui principalmente oriunda de uma reação marxista às antiteorias pós-modernas era carregado de um espírito pouco benevolente.
Tais críticas, por princípio, se baseavam no fato simples e claro, pelo menos para eles, de que a modernidade teria sido inaugurada, dentre outros fatores, pelo advento do capitalismo, como o modo de produção continuava o mesmo, segundo eles, ainda estaríamos em plena modernidade e, portanto, a maioria das definições pós-modernas era simples constatação de mudanças dentro do capitalismo na modernidade. Assim, alguns se centravam na crítica do sistema de trabalho, não sem razão, pois alguns críticos ditos pós-modernos previam, brevemente, um mundo sem trabalho. Evidentemente, havia exageros nestas constatações, já que tendiam a ver uma mudança de conjuntura como sendo estrutural. Nesse caso, o esvaziamento das indústrias e o crescimento do terceiro setor, mais as novas técnicas de produção e regime de trabalho, que foram responsáveis pela falência dos sindicatos e de núcleos de resistência antes tradicionais dos trabalhadores, já não eram mais eficazes na era da acumulação flexível. Mas isso não significava um provável fim do trabalho e sim o fim de um tipo acumulação baseada diretamente na exploração da força de trabalho. Sendo assim, não era o fim do capitalismo, mas, uma outra maneira de acumulação capitalista.
No entanto, o ponto forte dessa reação marxista era justamente a fraqueza de seus adversários. Os alvos de suas críticas eram apenas as partes visíveis do iceberg. A crítica pós-moderna, a que realmente justificava seu prefixo, soube capturar muito bem sua época, conseguiu ser realmente contemporânea de si mesma.
E por essa perspectiva, podemos ver que uma das grandes contribuições dos pós-modernos foi a crítica à noção de identidade aos a priori(s) e as unidades pré-concebidas, pré-estabelecidas. Estas se constituíram em verdadeiras demolições que deixaram em ruínas as ditas metas-teorias que buscavam apreender o real em seu todo, homogeneizando as realidades múltiplas das “diferentes diversidades” que almejavam abarcar como totalidade.
Quase sempre, para isso, o método e abordagem eram identificáveis com o objeto, o mais assustador disso é que não se tratava de uma relação de troca entre teoria e prática, mas uma adaptação, uma identificação forçada entre uma e outra que, em casos menos graves, buscavam uma apreensão progressiva da realidade que por acumulação de conhecimento seria responsável pela síntese cada vez mais próxima da realidade ou a própria realidade cada vez mais exata, e por isso, com mais possibilidade de intervenção no destino da humanidade.
Tanto iluministas quanto marxistas eram coniventes a esse arcabouço interpretativo e compartilhavam do mito do conhecimento acumulativo. À parte, todo o niilismo que germinou em meio à demolição desconstrucionista do pós-modernismo, tais críticas foram bastante eficazes para nos provocar questões que nem ao menos pensávamos em formular.

[1] BEY, Hakim. TAZ: Zona Autônoma Temporária, p. 19. Para se verificar o contágio da filosofia deleuzeana, mesmo que involuntário ou inconscientemente, para além das táticas de desaparecimento da TAZ, restrito aos limites dos ataques lingüísticos e de sabotagem das informações, cf. Revista Fórum, 58, janeiro, ano 7, 2008: “A tática de guerrilha permite às Farc controlar um território imenso da selva colombiana. Os acampamentos, por exemplo, são sempre transitórios. Raramente ficam armados num mesmo local por mais de quatro meses”.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Resenha: Bakunin - Deus e o Estado

Esta obra é um escrito de circunstância, como muitos de Bakunin ao longo de sua vida atribulada. Nem por isso deixa de ser uma obra fundamental para história do socialismo mundial e, mais especificamente, para o anarquismo. Como um relato, talvez mais visando à oratória, cuja arte era mestre, do que um destino final de um livro, ele é um fragmento e termina abruptamente dando-nos um “gostinho de quero mais”.
O tema do livro é um dos mais recorrentes na vida deste revolucionário libertário que abdicou de toda a sua fortuna e aristocracia, do seio da qual saiu, para passar grande parte de sua vida atrás das barricadas juntos aos operários lutando contra o Estado burguês e a religião. Assim, no livro Bakunin procura demonstrar a relação intrínseca entre Estado e religião representada por Deus e começa:
"Três elementos ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual: 1º a animalidade humana; 2º o pensamento; 3º a revolta. À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; a segunda, a ciência; à terceira, a liberdade" [1].
A partir desses três elementos Bakunin irá “destruir” as justificativas que sustentam a idéia de Deus e do Estado. Do primeiro, “a animalidade humana” ele vai se apoiar para exigir uma história científica do desenvolvimento da humanidade a partir do evolucionismo, “racionalmente, [admite] a transição progressiva e real do mundo denominado inorgânico ao mundo orgânico...”. “O pensamento” que culmina com a ciência moderna é o momento histórico que permite aos homens refletirem sobre si mesmos e descobrirem que o poder emana dos próprios homens e não de um ser divino mais elevado que eles e que, assim, se estão sendo explorados não é para viver um futuro melhor em uma outra vida, um paraíso, ou seja lá o nome que se quer dar ao resultado de uma representação ideológica do poder, portanto, e aí vem o terceiro ponto a que se refere Bakunin, a revolta além de ser um “instinto humano” porque, segundo ele, é a reação natural a todo ser, mesmos os animais, que sofrem algum tipo de violência. Para efetivar a condução dessa revolta contra o Estado burguês constitui o sentido do seu discurso.
Em todo o texto, Bakunin argumentando a partir da ciência, de um materialismo proudhoniano: “... os fatos têm primazia sobre as idéias; sim o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral política e social da humanidade é um reflexo de sua história econômica” [2], procura combater os idealistas que se utilizam de uma metafísica (para além da matéria) para legitimar as injustiças da exploração estatal e industrial, retro-alimentada e tendo como cúmplice a religião que pela idéia de Deus impõe a hierarquia “natural” de reis “divinizados” e letrados com a posse do saber transformada em poder que, por isso, torna-se opressor.
Ainda no início de seu texto, Bakunin faz uma síntese de seus pontos problematizadores: “O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento”. [3] Nesse sentido, a ciência jamais pode ser usada para impor a opressão, pois, “Disso resulta que ciência tem por missão única iluminar a vida, e não governa-la”. [4]
E assim,
"Sobre esta natureza fundam-se os direitos incontestáveis e a grande missão da ciência, mas também sua impotência vital e mesmo sua ação malfazeja, todas as vezes que, por seus representantes oficiais, nomeados, ela arroga-se o direito de governar a vida. (...) Numa palavra a ciência é a bússola da vida, mas não a vida. (...)" [5]
E para lembrar e não mistificá-la: “... a ciência nada mais é do que um produto material de um órgão material, o cérebro”. E continua para evitar que se faça um mau uso da própria arma que aponta para o Estado burguês encoberto pela ilusória religião:
"A vida é fugidia e passageira, mas também palpitante de realidade e individualidade, de sensibilidade, sofrimentos, alegrias, aspirações, necessidades e paixões. É somente ela que, espontaneamente, cria as coisas e os seres reais. A ciência nada cria, ela constata e reconhece somente as criações da vida". [6]
Dessa forma, seu texto fora construído, embora, contra idealistas, ainda como um bom hegeliano, percorrendo uma espiral crescente que sempre retorna aos princípios norteadores para desenvolvê-los com mais afinco, contrapondo-os às teses que julga mais desenvolvidas, para, a seguir, anti-teticamente, negá-las e “destruí-las” com argumentos também mais desenvolvidos e eficazes.
Nesta discreta resenha dou reconhecido destaque para o que é uma das atualidades de Bakunin: sua oposição a uma ciência dogmática.
[1] BAKUNIN. Deus e o Estado., p. 13.
[2] Ibidem, idem, p. 14.
[3] Idem, p. 17.
[4] Idem, p. 62.
[5] Idem, p. 61-2.
[6] Idem, p. 61.