segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Resenha: Bakunin - Deus e o Estado

Esta obra é um escrito de circunstância, como muitos de Bakunin ao longo de sua vida atribulada. Nem por isso deixa de ser uma obra fundamental para história do socialismo mundial e, mais especificamente, para o anarquismo. Como um relato, talvez mais visando à oratória, cuja arte era mestre, do que um destino final de um livro, ele é um fragmento e termina abruptamente dando-nos um “gostinho de quero mais”.
O tema do livro é um dos mais recorrentes na vida deste revolucionário libertário que abdicou de toda a sua fortuna e aristocracia, do seio da qual saiu, para passar grande parte de sua vida atrás das barricadas juntos aos operários lutando contra o Estado burguês e a religião. Assim, no livro Bakunin procura demonstrar a relação intrínseca entre Estado e religião representada por Deus e começa:
"Três elementos ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual: 1º a animalidade humana; 2º o pensamento; 3º a revolta. À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; a segunda, a ciência; à terceira, a liberdade" [1].
A partir desses três elementos Bakunin irá “destruir” as justificativas que sustentam a idéia de Deus e do Estado. Do primeiro, “a animalidade humana” ele vai se apoiar para exigir uma história científica do desenvolvimento da humanidade a partir do evolucionismo, “racionalmente, [admite] a transição progressiva e real do mundo denominado inorgânico ao mundo orgânico...”. “O pensamento” que culmina com a ciência moderna é o momento histórico que permite aos homens refletirem sobre si mesmos e descobrirem que o poder emana dos próprios homens e não de um ser divino mais elevado que eles e que, assim, se estão sendo explorados não é para viver um futuro melhor em uma outra vida, um paraíso, ou seja lá o nome que se quer dar ao resultado de uma representação ideológica do poder, portanto, e aí vem o terceiro ponto a que se refere Bakunin, a revolta além de ser um “instinto humano” porque, segundo ele, é a reação natural a todo ser, mesmos os animais, que sofrem algum tipo de violência. Para efetivar a condução dessa revolta contra o Estado burguês constitui o sentido do seu discurso.
Em todo o texto, Bakunin argumentando a partir da ciência, de um materialismo proudhoniano: “... os fatos têm primazia sobre as idéias; sim o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral política e social da humanidade é um reflexo de sua história econômica” [2], procura combater os idealistas que se utilizam de uma metafísica (para além da matéria) para legitimar as injustiças da exploração estatal e industrial, retro-alimentada e tendo como cúmplice a religião que pela idéia de Deus impõe a hierarquia “natural” de reis “divinizados” e letrados com a posse do saber transformada em poder que, por isso, torna-se opressor.
Ainda no início de seu texto, Bakunin faz uma síntese de seus pontos problematizadores: “O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento”. [3] Nesse sentido, a ciência jamais pode ser usada para impor a opressão, pois, “Disso resulta que ciência tem por missão única iluminar a vida, e não governa-la”. [4]
E assim,
"Sobre esta natureza fundam-se os direitos incontestáveis e a grande missão da ciência, mas também sua impotência vital e mesmo sua ação malfazeja, todas as vezes que, por seus representantes oficiais, nomeados, ela arroga-se o direito de governar a vida. (...) Numa palavra a ciência é a bússola da vida, mas não a vida. (...)" [5]
E para lembrar e não mistificá-la: “... a ciência nada mais é do que um produto material de um órgão material, o cérebro”. E continua para evitar que se faça um mau uso da própria arma que aponta para o Estado burguês encoberto pela ilusória religião:
"A vida é fugidia e passageira, mas também palpitante de realidade e individualidade, de sensibilidade, sofrimentos, alegrias, aspirações, necessidades e paixões. É somente ela que, espontaneamente, cria as coisas e os seres reais. A ciência nada cria, ela constata e reconhece somente as criações da vida". [6]
Dessa forma, seu texto fora construído, embora, contra idealistas, ainda como um bom hegeliano, percorrendo uma espiral crescente que sempre retorna aos princípios norteadores para desenvolvê-los com mais afinco, contrapondo-os às teses que julga mais desenvolvidas, para, a seguir, anti-teticamente, negá-las e “destruí-las” com argumentos também mais desenvolvidos e eficazes.
Nesta discreta resenha dou reconhecido destaque para o que é uma das atualidades de Bakunin: sua oposição a uma ciência dogmática.
[1] BAKUNIN. Deus e o Estado., p. 13.
[2] Ibidem, idem, p. 14.
[3] Idem, p. 17.
[4] Idem, p. 62.
[5] Idem, p. 61-2.
[6] Idem, p. 61.

sábado, 27 de outubro de 2007

Artigo: Economia Moral versus Liberalismo - um comentário crítico acerca do texto de E. P. Thompson

No texto: “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”, que compõe um dos capítulos do livro Costumes em Comum, E. P. Thompson desenvolve algumas hipóteses inspiradas em Marx. Nesse sentido, o livro tem uma ligação estreita com a Formação da Classe Operária Inglesa e com as Particularidades dos Ingleses, nestes trabalhos Thompson visa com suas críticas combater alguns pilares da ortodoxia marxista.
O principal era o que estabelecia uma correspondência direta entre infra-estrutura e superestrutura, cuja principal conseqüência para os estudos históricos era o reducionismo que via uma relação direta entre desenvolvimento industrial e consciência de classe. Noutra perspectiva, Thompson verifica que a consciência de classe não depende da formação de um partido, do desenvolvimento tecnológico e muito menos da ideologia comunista para conduzir esta luta de classes. Inversamente, é na luta de classes que se configura a consciência da luta e da classe e esta se dá no transcurso histórico de luta e não apriori ou de fora para dentro por intermédio de um partido ou de uma vanguarda revolucionária.
Esta primeira crítica combate a idéia de movimentos operários, aos quais eram considerados utópicos com um “nível de consciência inferior”, nestas análises reducionistas eram encaixados todas as revoltas pré-industrial, os socialistas ditos utópicos pré-1848 e mesmos os anarquistas. Tais movimentos eram preconceituosamente denominados turbas. Contra isso, Thompson inverte a perspectiva de que a classe operária é fruto do desenvolvimento industrial, pelo contrário, o que se verifica na Inglaterra do século XVIII, objeto histórico de Thompson neste texto, é que a classe operária está em formação desde antes da Revolução Industrial e que os operários de fábrica vítimas históricas dos cercamentos que os impuseram à venda da força de trabalho como única forma de sobrevivência são herdeiros da cultura popular que lutava contra as imposições do laissez-faire nascente que estava destruindo uma economia moral. Esta noção de Thompson conceitua as práticas culturais antigas que regulamentava os costumes, inclusive as relações de troca, evitando os açambarcamentos e possíveis usuras dos comerciantes. Entre outras coisas, aquilo que impedia moralmente os fazendeiros de venderem suas colheitas para intermediários, obrigando-os a irem vender seus produtos no mercado para que o preço não aumentasse com a inclusão de atravessadores nas transações comerciais.
Neste texto Thompson nos mostra que o estabelecimento do liberalismo se deu através de lutas e em confronto com uma prática cultural existente que
“... tinha como fundamento uma visão consistente tradicional das normas e obrigações sociais, das funções econômicas peculiares a vários grupos na comunidade, as quais, consideradas em conjunto, podemos dizer que constituem a economia moral dos pobres. Os desrespeitos a esses pressupostos morais, tanto quanto a privação real, era o motivo habitual para a ação direta”. [1]
Dessa forma, o que Thompson denomina de economia moral eram as práticas costumeiras de uma cultura que impunha que: “Os agricultores deviam trazer os cereais a granel para a praça do mercado local; não deviam vendê-lo enquanto ainda estivesse no campo, nem deviam retê-lo na esperança da elevação dos preços”. Tais costumes nos parecem hoje em dia absurdos, pois estamos tão inseridos e habituados com os imperativos liberais, que esses fatos se apresentam com uma tonalidade exótica. E aí está um grande problema, pois alguns historiadores em vez de investigar como se deu a transposição de uma economia moral para o liberalismo, já tomam este como natural, como uma organização inerente da sociedade. Havia um controle nos mercados que impedia os abastados de comprar antes dos pobres e a supervisão dos mercados também era uma proteção ao consumidor. Nesse sentido, as revoltas não eram meramente motins espontâneos gerados por épocas de más colheitas e fome e sim calcados numa cultura consensual que fora aos poucos sendo destruída pelas práticas mercantis liberais, mas não sem resistência e conflito advindo das revoltas das classes subalternas.
As práticas liberais foram sendo impostas gradativamente e, com isso, o mercado cada vez mais foi ficando menos transparente, pois os fazendeiros moralmente obrigados a venderem suas colheitas no mercado, burlavam os costumes e as vendiam para os intermediários, no entanto, para manterem as aparências iam assim mesmo ao mercado, e quando os consumidores chegavam diziam-lhes: “já acabou”. Outra prática que estava entrando em vigor contra a economia moral era o da recusa dos fazendeiros venderem em pouca quantidade, pois muitos já estavam vendendo toda a sua colheita antecipadamente para comerciantes.
Aos poucos também o governo que, baseado no direito consuetudinário que tendia a regulamentar as velhas práticas que estavam sendo burladas por comerciantes, fazendeiros e moleiros, começava a ser cada vez mais ambíguo em suas normas, pois a ideologia liberal já estava alcançando um status científico que garantia que o próprio mercado regularia a oferta e a procura e que em tempos de más colheitas, os altos preços garantiriam o racionamento dos gêneros evitando a fome, o que teoricamente seria muito bom para o governo. O mito da auto-regulação do mercado estava se tornando hegemônica.
Entretanto, o autor é consciente de que a economia moral a qual se baseavam as revoltas contra a carestia, a fome, o açambarcamento e os sujeitos históricos que impunham estas situações aos populares como mercadores, fazendeiros da gentry e moleiros
agiam segundo um modelo teórico consistente, esse era [porém] uma reconstrução seletiva do paternalismo, extraindo dele todas as características que mais favoreciam os pobres e que ofereciam uma possibilidade de cereais mais baratos.
Assim Thompson a seguir escreve:
Pois um aspecto a economia moral da multidão rompia decisivamente com a dos paternalistas. A ética popular sancionava a ação direta coletiva, o que era categoricamente reprovado pelos valores da ordem que sustentavam o modelo paternalista.[2]
Thompson nos mostra que os preceitos do liberalismo não poderiam ser comprovados empiricamente nas práticas comerciais do século XVIII na Inglaterra e para desmitificar o que, na verdade, se constituía como uma ideologia liberal da auto-regulação do mercado, ele escreveu:
Não deveria ser necessário argumentar que o modelo de uma economia natural e auto-reguladora, funcionando providencialmente para o bem de todos, é tão supersticioso quanto as noções que sustentavam o modelo paternalista – embora, curiosamente, seja uma superstição que alguns historiadores econômicos têm sido os últimos a abandonar. Em alguns aspectos, o modelo de Smith se adaptava mais acuradamente às realidades do século XVIII do que o modelo paternalista; e, em simetria e alcance de construção intelectual, era superior. Mas não se deve deixar de perceber o ar ilusório de validação empírica que o modelo contém. Enquanto o primeiro apela a uma norma moral – ao que devem ser as obrigações recíprocas dos homens -, o segundo parece dizer: “é assim que as coisas funcionam, ou funcionariam se o Estado não interferisse”. Entretanto, quando se consideram essas seções de A riqueza das nações, elas impressionam menos como um ensaio de investigação empírica do que como um excelente ensaio de lógica que se autovalida.[3]

Thompson assim é consciente de que a tradição paternalista também é ilusória na medida em que tais costumes se baseavam numa moralidade tradicionalista e demonstravam o medo pelo “novo” além de ser embutido de superstições de todo o tipo. Por outro lado, o liberalismo aparentemente obra do intelecto humano e de sua ciência mais desenvolvida, na realidade do século XVIII não poderia ser mais comprovado do que o paternalismo. A sua lógica, nesse sentido era uma construção ideológica que procurava romper com os costumes vigentes, até então, em benefício de uma classe ou de grupos que, com elas, ascendiam socialmente.
Quando consideramos a organização real do comércio de cereais do século XVIII, não temos à mão a verificação empírica de nenhum dos dois modelos [nem o do protecionismo da economia moral nem o do liberalismo]. Tem-se feito pouca investigação detalhada acerca do mercado; não há nenhum estudo importante sobre a figura-chave do moleiro. Até a primeira letra do alfabeto de Smith – o pressuposto de que os preços altos eram uma forma eficaz de racionamento – continua a não ser mais do que uma afirmação. É notório que a demanda de cereais ou de pão é altamente inelástica. Quando o pão custa caro, os pobres (como lembraram certa vez a uma observadora das altas esferas) não comem bolo. Da perspectiva de alguns observadores, quando os preços subiam, os trabalhadores talvez comessem a mesma quantidade de pão, mas cortavam outros itens nos seus orçamentos; talvez até comessem mais pão para compensar a perda de outros itens. De um xelim, num ano normal, seis pence seriam gastos com pão, seis pence com ‘carne inferior e muitos produtos da horta’; mas num ano de preços altos, todo o xelim seria gasto com pão. [4]
Tais documentos nos remetem ao problema de se considerar como lei natural as relações de mercado de oferta e procura, estas “leis” só são apreensíveis e inteligíveis no interior de uma sociedade, levando-se em conta as práticas culturais e os costumes dessa mesma sociedade. O caso do aumento do trigo concomitante com o aumento do consumo do pão, ao contrário, do que a “lei de mercado” afirmava, é emblemático porque nos permite evidenciar que os hábitos alimentares e os costumes da sociedade não estão à mercê das intempéries da natureza ou da ganância dos mercadores que escondiam o estoque de trigo quando o preço estivesse em baixa para vender em alta em um momento melhor, muito pelo contrário, estas práticas também são determinantes no contexto histórico.
Por outro lado, o que se percebe é que por trás da ideologia liberal defensora do livre-câmbio que garante um ambiente propício ao que pode lucrar mais sobre os que podem menos, é que há o predomínio marginal do monopólio entre os comerciantes que, detentores únicos de certas mercadorias essenciais, passam a controlar o preço dos produtos de primeira necessidade no mercado.
Assim, o liberalismo escamoteia o que seria o seu contrário, o monopólio. E torna-se além de uma ideologia também uma utopia, pois na prática ele não existe ou quando existe é um momento transitório, imposto por discurso ideológico, que transfere um mercado controlado pelo consenso moral de uma cultura há muito vigente para o controle de indivíduos que se enriquecem monopolizando o comércio dos gêneros essenciais à sobrevivência da população, como nos mostra a pesquisa histórica de Thompson.
E para além destes documentos o que todo defensor do liberalismo sonha é com o monopólio do mercado e a eliminação de seus concorrentes. Em um plano mais geral podemos constatar a luta dos países chamados emergentes na OMC contra os subsídios fiscais dos países ricos que sobretarifam os produtos primários importados que aportam em seus mercados consumidores. Os mesmos países ricos que impedem a concorrência de igual para igual entre os produtos primários são os mesmos que impõem o livre-mercado aos países “emergentes” para que seus produtos tecnológicos mais avançados entrem sem sobretaxa nos mercados alheios.
Portanto, o liberalismo é uma fachada que disfarça a luta intensiva pela instituição do monopólio pelo maior tempo possível. Em tempos imperialistas em que a tecnologia vai aos poucos eliminando a força de trabalho, que foi no capitalismo industrial a fonte privilegiada de lucro que se dava na produção, a criação de valor passa a ser obtida em outra esfera: no controle do mercado consumidor, por meio de leis protecionistas, de imposição tecnológica, enfim, pelo controle do mercado por parte das transnacionais. Mas este controle não ocorre à margem dos governos e sim por eles, através dos Estados e não sem a gerência deles, pelo contrário, quase tudo acontece via governo, ora escusamente ora por lei, obviamente submetido aos ditames das grandes empresas, os grandes patrocinadores das eleições. Em suma o dia que o liberalismo existir de fato e não apenas como ideologia que é um outro nível de realidade, nunca mais se gastará tanto nas eleições, e o governo será, se existir, apenas um chefe de Estado de luxo tal qual a monarquia inglesa. É por vias legais e governamentais que as regras de mercado, supostamente auto-regulado, se concretizam. Assim, o Estado tão rejeitado pelos papas do neoliberalismo é o canal privilegiado por onde passa os ditames de mercado e por onde são legitimadas suas práticas. É por isso que o neoliberal é um defensor da democracia, pois por meio dela se legitima práticas antidemocráticas e em vez de combater tais práticas, troca-se os governos e mantém o regime que as legitima, pois na democracia o culpado é sempre o povo que escolheu errado, que deu “azar” nas cartas que escolheu para jogar num jogo que as cartas já são marcadas e as regras já estão dadas e que, portanto, dentro delas, jamais se mudará o jogo. Precisaríamos virar a mesa e impor um outro jogo em que as regras seriam ditadas por nós.
[1] THOMPSON. “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. In: Costumes em Comum, p. 152.
[2] THOMPSON. “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. In: Costumes em Comum, p. 167.
[3] Ibdem, p.162.
[4] Ibidem, pp. 162-3.

domingo, 21 de outubro de 2007

Artigo: Entre o Mito do Partidarismo e o Niilismo do Abstencionismo

Estamos vivendo hoje a pior decepção da esquerda brasileira. Decepção porque o declínio das idéias e práticas da esquerda no Brasil se deve unicamente as estratégias e alianças mal-sucedidas, sem falar nos inúmeros fatos que nos envergonham na história recente do PT.
Sabemos que a fundação do PT trazia uma nova esperança para a política de esquerda no Brasil, porque abria um novo espaço de luta na política brasileira onde os trabalhadores nunca tiveram chances reais: a via eleitoral.
Nesse sentido, o PT surgiu sob o influxo do insucesso do “castrismo” brasileiro, da desarticulação das esquerdas pela repressão bem sucedida imposta pelas forças contra-revolucionárias que tomaram o poder e, claro, de uma base sólida formada pelo operariado do ABC.
A estratégia eleitoral do PT, diferentemente, das incursões mal logradas de antes, tinha justificativas bastante coerentes que eram a abertura política, a luta por eleições diretas e, como foi dito, a falência da estratégia de guerrilha em um país continental como o Brasil.
Em finais do século XIX, socialistas brasileiros já defendiam a via eleitoral, mas contra eles havia uma série de ocasiões que inviabilizavam tal organização. A primeira e mais geral era a característica do liberalismo autoritário brasileiro que na época republicana impossibilitou uma adesão mais frutífera a candidatura de representantes operários, entre outros fatores, pela pouquíssima e quase nula representação partidária no Brasil que, em média na Primeira República, o número de eleitores girou abaixo de 5%, menor do que os anos do Segundo Reinado antes da reforma eleitoral de 1881.
Este foi um dos motivos que fez do anarquismo uma força entre os operários brasileiros, pois a ação direta era uma estratégia muito mais eficaz e convincente que conseguia assim uma maior adesão, dando aos anarquistas a hegemonia da organização operária em praticamente toda a Primeira República, sofrendo uma gradativa perda de influência a partir da repercussão do sucesso da Revolução Russa no Brasil, que teve o apoio quase que unânime dos anarquistas e acabou por favorecer a fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922, com a participação de ex-libertários como Astrojildo Pereira.
Embora, a fundação do PCB tenha sido um momento marcante na história do operariado brasileiro, ele esteve longe de garantir uma participação popular importante na política brasileira, porque, entre outras causas, o contexto político no Brasil era marcado pelo coronelismo e pelo voto de cabresto. O Brasil ainda era um país de economia agrária e apesar da preocupação do PCB com os camponeses, a sua organização centralizada e restrita aos grandes centros urbanos impossibilitava a mobilização do campesinato que se distribuía separada e irregularmente pelos Oito milhões de km2 do território brasileiro.
Diante de tais dificuldades o que restou foi a aliança a uma pequena burguesia que pouco ou nada sabia das práticas e ideais socialistas.
Por outro lado, logo que o Partido Comunista conseguia algumas vitórias singelas nas urnas como a eleição de alguns deputados, os governantes brasileiros, com o pretexto de defesa da soberania nacional e acusando o PCB de ser uma organização estrangeira comandada por Moscou, tratava de cassar os mandatos dos candidatos comunistas e de colocar o Partido na clandestinidade.
A partir de 1964, com o golpe contra-revolucionário, as esquerdas foram desestruturadas pela repressão violenta e foi obrigada a se entrincheirarem-se na luta armada dos vários grupos guerrilheiros que se formaram no Brasil, marcados mais pelo desespero e heroísmo do que pela possibilidade prática de tomar o poder no Brasil.
Com o morticínio e a derrota imposta pela Ditadura a estes grupos e com o crescimento industrial do ABC, espontaneamente foram surgindo uma organização de base que possibilitou a criação de sindicatos fortes e a fundação do PT, assim, como a Central Única dos Trabalhadores que reunia os sindicatos combativos que eram a base do Partido dos Trabalhadores.
Foi assim que a partir dos anos 80, a esperança das idéias e práticas de esquerda no Brasil voltou a estar representada na estratégia eleitoral de um Partido. E 1989 talvez tenha sido o episódio mais intenso e dramático que poderia ter mudado os rumos do Brasil, num momento único em que a direita brasileira pulverizada em vários partidos e imbuída pela ambição das facções de tomarem para si o bolo inteiro do poder permitiu a ascensão de um até então desconhecido ao segundo turno para enfrentar o representante único de toda a esquerda Brasileira: Lula.
Foi nos acréscimos do segundo tempo que a direita percebendo seu erro, se aliou ao ilustre desconhecido e utilizando de todos os meios legais e ilegais conseguiram retomar as rédeas do jogo e dar a vitória a Fernando Collor. Daí para frente nas outras eleições, o Lula de 89 foi sofrendo mudanças e adequações até chegar ao Lula comestível e aceitável pela direita brasileira de 2002.
O ano de 2002 representa ao mesmo tempo a eleição de um ícone da esquerda brasileira e a maior derrota desta mesma esquerda, porque, por outro lado, representa também a suprema hegemonia da direita que consegue manter a sua diretriz econômica e política em um governo dito de esquerda. Em outras palavras, a esquerda representa a direita no poder porque foi assimilada pela direita e utilizada por ela para conseguir a legitimidade política que os governos FHC haviam perdido.
Mais uma vez em nossa história, a organização partidária revela uma desconfortante ilusão, pois sua fácil assimilação pela direita revela aquilo que os anarquistas cansavam de alertar em seus congressos e mais tarde com a fundação do Partido Comunista foram execrados por isso, a idéia de que os trabalhadores jamais podem ser representados por uma regra do sistema que os exclui, que os explora. É urgente a necessidade de inventarmos um novo jogo para lutar pelo poder. As eleições apenas encenam romanticamente a violência cotidiana imposta aos oprimidos. A eleição nesse sentido é a teatralização da opressão sob o disfarce da representação partidária.
Em suma, um mito que precisa ser desmitificado para que possamos fazer frente ao poder que nos oprime de todos os lugares não estando em nenhum lugar em específico. Estamos lutando contra o inimigo com as próprias armas que ele criou. Toda a vitória que conseguirmos não passa de um fingimento que ele nos impõe. As armas que eles nos dão, é óbvio, não podem atingi-los. Essas armas são as eleições pseudodemocráticas. Votar é um auto-engano e como cantava o poeta, Renato Russo: “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”.
Estamos entre o niilismo da defesa do abstencionismo eleitoral e a ilusão do partidarismo como possibilidade de representação dos interesses populares. Nem um, nem outro nos serve, devemos buscar nova alternativa urgentemente.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Artigo: O porquê de eu preferir os punks aos hippies. E o que Marx tem a ver com isso!*




Anos 60. Era de Aquário, no horizonte irradiavam perspectivas de mudanças. O rock não era só música, eram socos desferidos no sistema. Nunca a juventude fora tão engajada. As drogas tinham outros sentidos, um deles era o de buscar novos horizontes, novas percepções, criar um mundo novo com paz, amor e liberdade. Era o tempo em que se levássemos tapas, dávamos beijos. Era nossa maneira eficaz de combater a violência, a guerra que imperava num sistema em que as mercadorias valiam mais do que os seres que as produziam. Por isso fazíamos nossas próprias roupas e nos alimentávamos de comidas naturais. Contra a guerra, na época a do Vietnã, íamos para as ruas dizendo faça amor não faça guerra. Um dia, no entanto, uma das nossas mais eloqüentes vozes disse: o sonho acabou. E a guerra continuou. Os festivais passaram a ser pagos, o sistema passou a assimilar os protestos e devolvê-lo em forma de mercadorias. O rock, as roupas já não tinham o mesmo sentido, perdera a integridade. Nossos ícones, os que não morreram de overdose e de desilusão, viraram grandes empresários, celebridades do show business. O colorido revolucionário se findara. O lema paz e amor, já não dava mais certo, não tinha o mesmo impacto...

Com a crise do petróleo, a queda da máscara do bem estar social, com as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, o escândalo de Nixon, a continuação da guerra do Vietnã..., formaram-se nuvens negras que cobriu todo o globo terrestre, esses foram os anos 70. Dos subúrbios abandonados surgiram ratos e baratas que passaram a causar estranheza e asco aos olhos dos habitantes limpos e chiques, acostumados ao chá das cinco ou a passearem de veleiro pela orla da praia. – Quem são essas pessoas esquisitas? – perguntavam. Ao contrário de roupas largas e coloridas, cabelos grandes e gestos pacíficos; usavam trajes negros com pontas de pregos e cadeados pendurados no pescoço, não discursavam e seus gestos eram agressivos, os cabelos pontiagudos pareciam quererem espetar o céu, um gentleman não poderia vê-los sem vomitar. Eles eram o lixo, punks, o resto da riqueza de poucos que começara a transbordar, eles não cantavam, eles berravam, eles não dançavam, eles lutavam. E o velhinho chamado capitalismo ficara tonto sem saber o que fazer, não dava para assimilá-los e depois vendê-los, por natureza, eles eram impermutáveis. Eles não pediam paz, eles queriam guerra, não pediam bom senso ao sistema, ele queriam destruí-lo e não tinham sonho, eles pisavam em chão de concreto e viam a realidade, no future era o que diziam, e diziam de uma maneira muito especial que era impossível não ouvir...

Nos tempos de Bin Laden, no vácuo deixado pelo Word Trade Center, a mensagem dos punks continuam mais do que atual, diria, imprescindível. Punks de Genova e de Seatle, os inimigos nº 1 do G8. E por quê?

Atualmente, os olhos de qualquer pessoa lúcida se encontram fatigados de ver tanta imbecilidade e falsas comoções. Passamos todo o século XX vendo desgraças atrás de desgraças: Duas Guerras Mundiais, Guerra Fria, Guerra do Vietnã, Guerra do Golfo, da Bósnia, só para ficarmos em algumas das guerras declaradas, sem falarmos do morticínio africano, dos países abaixo da linha de miséria, vítimas de um sistema desigual e excludente que separa cada vez mais os extremos. Parece que nos acostumamos com as mortes dos miseráveis, não obstante, quando quem morre são os donos do poder, aí sim nossa comoção tem que ser evidenciada, torna-se até uma norma de etiqueta, extremamente necessária e recorrente.

Nesse momento aparecem os shows beneficentes, os apelos indignados e exortações em prol da paz, tudo isso enoja qualquer possuidor de um estômago ético. Clamores pela paz? Mas se das nossas relações sociais só advém ódio, intolerância, ignorância, fundamentalismos, tanto ocidental, quanto oriental, pedir paz é demagogia barata. Os executivos que morreram (eu sei não foram só executivos, havia também trabalhadores) no atentado merecem comoção sim, mas não mais que as criancinhas africanas que morrem de desnutrição há décadas.

Podem dizer: não há explicação para pessoas que se matam para matar outras pessoas. Será que não? Será que morrer de uma só vez acreditando ou não que tal fim leva a vida eterna não é mais sedutor do que morrer de fome vendo a miséria de seu povo? É preciso evitar os julgamentos apressados, aliás, se não tivemos a experiência da miséria, da degradação humana, estado esse em que é impossível ser ético, dever-se-ia evitar os julgamentos, os discursos morais; quem nunca passou fome, ou viu seu filho morrer à míngua sem nada poder fazer não deve pensar que é um absurdo morrer com uma bomba amarrada ao corpo.

Não estou defendendo os grupos fundamentalistas, longe de mim, mas também não posso digerir essa demagogia podre proliferada pela CNN. Não cabem mais canções pacíficas e bandeiras brancas cobrindo os bombardeios a um povo sem perspectivas, não se pode esconder que o terror começou no dia seguinte do atentado ao Word Trade Center, o terror vem do ocidente, não do oriente. E o brado que devemos proclamar não é melodioso e nem suave, é agonizante e estridente.

É por isso que eu prefiro os Punks aos Hippies.

Evidente que cada um cumpriu seu papel histórico e foi a resposta política mais eficaz em seus tempos, no entanto, a conjuntura atual merece um enfrentamento na mesma proporção, a estratégia tem que ser também a guerra, guerra ao verdadeiro mal que nos corrompe... O momento pede punhos fechados e não a paz ideológica.

E o que Marx tem que ver com isso?

Não é preciso ser um gênio para descobrir que o verdadeiro interesse dos EUA não é caçar os responsáveis pelo atentado do Word Trade Center, Bin Laden e Cia., aliás, isso ainda nem foi provado. Basta sabermos que os patrocinadores da campanha pseudo vitoriosa de Bush (pois quem ganhou por larga vantagem foi Gore), foi a Indústria Bélica estadunidense, somado a isto, acrescentemos a crise de superprodução mundial (recessão), e teremos bons motivos para crermos que a invasão ao Afeganistão e, a seguir ao Iraque, além de ser a ocupação de territórios geopolíticos estratégicos, trata-se de um reaquecimento da economia mundial. O atentado terrorista, nesse sentido, foi apenas um álibi, um fator legitimador para o que veio a seguir. Resta apenas esclarecer se tal atentado foi obra realmente da Al-Qaeda o que, sinceramente, chego a sentir arrepios de dúvida, pois é tão favorável ao imperialismo estadunidense que não seria improvável um acordo tácito entre Bush e Osama. Lembra-se do Rambo III? Foi a CIA que treinou Bin Laden.

Numa economia capitalista em crise orgânica, no caso recessão, que se trata de mercadorias em excesso no mercado. A pergunta a ser feita é: por que e como ocorre o excesso? Por que produziríamos mercadorias sabendo-se que não há consumidores para elas? Primeiro, nem sempre podemos saber, pois a economia segue as leis de mercado e não a necessidade real dos consumidores, aliás, necessidade deixou de ser, há muito tempo um indicador de consumo. É a produção que cria o consumo e quase sempre o consumido não é necessário. E a produção não é pensada racionalmente, como disse acima, é regida pelas leis de mercado que seguem uma única regra: a do lucro.

O lucro, por sua vez, tem que ser sempre aplicado na produção ou no mercado especulativo, mas tem que ser aplicado, tem que virar capital. Como sabemos, graças ao vovô Marx, o lucro advém da força de trabalho, assim com o progressivo avanço tecnológico, as máquinas, cada vez mais, ocupam o lugar do homem na produção, mas não é possível extrair mais-valia das máquinas, se pagam por elas o real valor, conseqüentemente, quanto menos trabalho humano na produção, mais desemprego, mais miséria, menos consumidores, mais mercadorias e menor a taxa de lucro. O lucro advém do trabalho humano explorado, as máquinas não podem ser exploradas, se pagam por elas exatamente o que elas produzem, consequentemente, a exclusão aumenta em igual proporção em que as mercadorias se acumulam. É uma contradição inerente do sistema capitalista que gera a falência das empresas pequenas e médias que perdem na corrida tecnológica para os grandes oligopólios e são compradas por estes que, passam, assim a conseguir o lucro na comercialização de produtos exclusivos (monopólio) ou através de acordo firmado entre as grandes multinacionais (cartéis). Garante-se, desse modo, uma margem alta de lucro (diferentemente da taxa de lucro que decresce). Tal perspectiva debilita ainda mais o poder de compra do consumidor limitando ainda mais o mercado até chegar à superprodução.

Nessa etapa há duas escolhas preponderantes: ou se efetiva uma transformação social e econômica radical, mudando os rumos da economia, da perspectiva do lucro, para o das necessidades efetivas ou se faz uma destruição do excesso das mercadorias, destruindo-as da maneira mais lucrativa, eliminando o excedente, injetando sangue novo (e inocente) no mercado com a guerra. Perdoe-me o trocadilho, mas foi inevitável, ao contrário da guerra que seria sempre evitável em uma economia que visasse o bem estar de todos, que fosse racional. Todavia, em uma estrutura social onde impera o lucro e a irracionalidade do mercado, as guerras serão sempre válvulas de escape da crise, conseqüência necessária para a manutenção de um sistema irracional e injusto, dir-se-ia o maior terror que pode haver, um terror camuflado de bandeiras brancas e lenços úmidos visto por milhões de pessoas nos veículos de comunicação, vide CNN, BBC e Globo.

É nessa perspectiva que defendo as ações anarquizantes dos punks. As atitudes que não são niilistas e que provém de uma juventude consciente de seu papel atual na sociedade, uma parcela da sociedade que ainda não foi contaminada pelas desilusões das gerações passadas, e talvez consista no único combustível desse novo milênio capaz de reacender a chama revolucionária há muito extinguida. Não bastam reformas parlamentares, trocar candidatos de direita pelos pseudoesquerdistas, é só vermos o caso inglês. É preciso destruir as estruturas carcomidas desse mundo e construir um novo. E para galgarmos esse novo horizonte, os gestos de paz e amor terão poucos resultados satisfatórios, é preciso cerrar os punhos e entendermos que a introjeção do lema faça você mesmo é mais eficaz do que esperarmos as próximas eleições ou a justiça de um mundo alicerçado em injustiças.


* Publicado on line originalmente no espaço para artigos do site da Caros Amigos no final de 2001, logo após e ainda sob o impacto do Atentado do 11 de setembro. Posteriormente também (15/09/2007) publicado no blog: http://www.clioedionisio.blogspot.com/

domingo, 14 de outubro de 2007

Conto: O Vômito do Ser


O Vômito do Ser

01: 30.
A noite engolia a cidade enxugando o resto de luz artificial que pingava dos postes. Passo por passo o caminho de braços abertos convidava Daniel para seu destino. Mas será que há um destino? Será que, mesmo sem Daniel saber, seus passos já estavam escritos? Sua mente cansada se esforçava por manter o raciocínio, mas logo preocupações mais iminentes como a de não cair no meio da rua lhe exauria o esforço. O que ele sabia era que tinha que tomar uma decisão. De um lado para o outro ele tentava vislumbrar o que havia a frente, mas a noite pouco a pouco, intermitentemente, sorvia as luzes raras que cobria o céu.
Envolto na indecisão, lembrava-se de um dia em que as coisas pareciam mais fáceis. Onde em um quintal brincava esquecido com seus amigos imagináveis. Ele sempre era o centro das atenções, sempre ditava as regras. E agora tudo lhe parecia diferente, estranho, sem controle. Nem seus próprios pés ele comandava. Nesse instante ele pensava em Deus. Um Deus que para ele já teve várias faces, que lhe abandonou quando mais precisava. Depois desse dia, se lembrava como se fosse hoje, ele também abandonara Deus. Deixara de ir às aulas de catecismo para jogar bola.
Sob as negras folhas de uma árvore, Daniel pára, e se percebe, nesse instante, um sorriso minguante em seus lábios trêmulos. Em sua memória aterrissou a lembrança do golaço que fizera e do abraço de seus companheiros comemorando aquele momento, um dos raros instantes de sua vida em que tudo parecia estar bem. Mas era só um gol, tudo bem, um gol bonito, mas apenas um gol. Um dos grandes problemas do ser humano... Ele não sabia, não tinha a menor idéia dos problemas do ser humano, ele sabia de seus problemas e apenas isso, ele sabia que um dos seus grandes problemas era condensar as expectativas de sua vida num momento bom, mesmo que este fosse supérfluo, enganando-se em pensar que tal momento poderia obliterar suas frustrações. Não se podia camuflar as desilusões, os fracassos pessoais. Melhor seria se não fizéssemos planos, se não sonhássemos, assim não haveria frustrações e desempregados estariam os psicanalistas. Mas seríamos humanos se assim fosse?
O sorriso que brotava de seu rosto, era a recordação de que poderia ter sido um grande jogador. Será? Sua mente caprichosa e desafiadora, mesmo lenta colocava mais lenha na fogueira de seus sentimentos. O chão parecia mais duro ao engolir em seco essa indagação, essa contestação. Sua mente, para equilibrar suas as ações, movida pelos últimos resquícios de orgulho próprio, propugnava: se não fosse aquela contusão teria sido um grande jogador, e hoje estaria na seleção. Mas que contusão, que medo de jogar e de machucar de novo, não havia contusão nenhuma. Era apenas uma autodefesa do seu espírito frente a mais um fracasso. Faltaram-lhe coragem, decisão e discernimento. O medo do novo, da visita que chegara e que lhe perscrutava com olhar curioso. A timidez em lhe dar com o inédito equilibrava a ânsia por companhia. Estava cada vez mais próximo da solidão, e isso o consolava, pois a solidão não o deixara só, lhe abraçava calorosamente como se tivesse mil braços. A solidão lhe aquecia e jamais o havia abandonado.
Os caminhos da sua vida se davam pela indecisão que o impedira de agir no passado, deixando se levar pelo vento como uma pipa que rebentara o barbante e ficara perdida flutuando esperando o momento de cair. A dúvida que o consumia, também era responsável por estar parado ali, embaixo da árvore, a qual suas folhas eram como cabelos negros que prostrava em seus ombros combalidos, não da luta, mas do arrependimento de ter fugido à luta.
Os mesmos cabelos negros que no decorrer de seus 14 anos, fazia-no freqüentar as festinhas no intuito de ganhar o direito de um beijo de despedida, o pagamento ao rapaz por levar a menina em casa. A prematura sujeição feminina ao homem, transparência de um mundo machista e paternalista, que forja mulheres que só se reconhecem enquanto tais, pelo que consegue com os homens. Em troca recebem pela sua sensualidade, a solicitude de um macho que fora naquele momento conquistado. Aos poucos, ele remontava os fragmentos de sua vida dando-lhes um formato enleado e esdrúxulo, motivado pelas circunstâncias extremas que experimentava naquele momento. Assim, na lembrança do gol também tinha os abraços de seus amigos, e mais do que isso, o que sentira de diferente daqueles abraços. Era estranho até então não havia lhe ocorrido tal manifestação de carinho, a não ser de sua mãe. Daniel não tinha pai, apenas mãe. O que sentira fora algo novo, não sabia explicar, faltava-lhe experiência para poder discernir sobre aquilo quando lhe ocorrera. Foi a primeira vez que outro ser humano, excetuando sua mãe, lhe abraçara daquele jeito. E fora um homem, e isso lhe fizera bem, se sentiu protegido. A partir daí, tudo ficara mais complicado. Ele não podia sentir aquilo, os costumes ditavam as regras e aquilo que sentira não era certo, ele aprendera. E por isso, arranjou uma namorada, o que fez com que esquecesse, pelo menos aparentemente, e isso lhe foi suficiente para o manter enganado até o dia em que descobriu que o ser humano não tinha sexo. Apenas uma marca biológica que não era determinante, e era facilmente suprimida pelo desejo. Até mesmo no escuro da rua onde Daniel se encontrava agora, seu olhar ainda mostrava o temor de que houvesse alguém para ouvir seus pensamentos, o mundo como um todo ainda não estava preparado para absorvê-los.
Alguns metros para frente, com passos trêmulos e indecisos ele se voltara para trás e percebera que os cabelos da árvore que dava um tom mais negro ainda à rua, não estava mais sobre seus ombros tal qual a lembrança de seu primeiro beijo que também fugira de sua mente. Primeiro ou aquele que seu espírito quisera que o fosse, porque agora se lembrava. Em verdade, o primeiro fora com alguém que lhe causava repulsa hoje em dia. Alguém que lhe ferira. A mente filtrara, portanto, o que seria incômodo no futuro, o que lhe doía ao pensar. A mente tem também essa utilidade. Perplexo com mais essa descoberta, ou melhor, com a revelação daquele outro ou outra que constituía seu ser, ele, não sem esforço, mas recompensado pelo alívio de não ter mais que sustentar seu peso, assentara-se. Entre seus pés e o paralelepípedo escorria o esgoto da chuva.
Nesse instante, fizera um esforço para se lembrar de quando chovera, não conseguira, então desistiu. Lembrou-se, no entanto, do esgoto, não daquele que molhava levemente o calcanhar de seu tênis, mas o de outro mais distante há uns quinze anos atrás quando ainda morava em uma favela em Belo Horizonte. Toda manhã ao acordar ficava brincando de jogar pedrinhas na fétida vala por onde passava aquela água barrenta, cheia de V separava a rua do seu minúsculo quintal. A madeira podre dos barracos a sua volta deixava a sua humilde casa de tijolos sem reboco com ar de superioridade sobre as demais que, eram, em grande parte, constituídas de madeira podre. Ele crescera numa favela.
Quando ainda criança não se importava, mas agora tinha uma vergonha terrível. Talvez fosse porque ainda não estava contaminado pelos valores sociais que fazem com que aqueles que não têm passam a desejar e admirar aqueles que têm. E também porque agora não morava mais em uma favela. Ainda um dia desses se lembrara que desligara a televisão porque só estava passando programas de fofoca, estava louco para saber do último adultério, mas se conteve. Mudando o rumo do seu pensamento que ainda se ligava por uma linha fina à idéia anterior que já quase havia se esquecido, pensou: se não fosse a televisão já teria ocorrido a revolução. Com as mãos em forma de concha subiu-as até a testa puxando levemente seus longos cabelos lisos para trás, lembrou-se num átimo de segundo que teria que cortar o cabelo, mas logo voltando ao que pensava, sorriu ao recordar do tempo em que era anarquista, de sua luta, de gabinete é verdade, pois era misantropo, era o único do minúsculo grupo de seguidores de Bakunin que nunca participava de nenhuma passeata. Num dia estava preparando os cartazes de protesto contra a articulação dos estudantes que estava sob o controle do partido comunista; quando, de repente os companheiros chegam, cheirando a sangue coalhado, cuspindo palavrões, uns aos berros, outros chorando miúdo como crianças por falta de colo. Nesse dia, decidira sair da facção, não se lembrava agora, se por escolha própria, por sentimento de culpa de não ter apanhado da polícia também como seus amigos ou se fora, na verdade, expulso. Sorrindo desgraçadamente lembrou-se: fora expulso.
Em sua cabeça ainda havia uma mão comprimindo seu cérebro, não sentia nada em seu corpo, apenas seu estômago que parecia um mar em revolta, e o que havia nele era como barquinhos frágeis à deriva preste a submergir, mas contrariando a metáfora, os barquinhos frágeis, ou melhor, sua última refeição emergiu de seu estômago como se tivesse gravado a queda de uma cachoeira e agora estivesse voltando à fita e vendo a cachoeira subir até transbordar para fora da boca.
O vômito pintara de creme a água que passava molhando seus calcanhares. Foi um alívio. Lembrara agora o porquê de estar ali naquela rua desconhecida, qual uma flor que balança ao vento e aos poucos vai perdendo suas pétalas, seu encanto. Estava fugindo, fugindo de tudo. Tentava a todo o tempo dar um sentido para sua vida, queria ser jogador de futebol, falhara. Queria ser vocalista de uma banda de rock, falhara. Queria ser jornalista, falhara. Queria ser economista, falhara. Queria estar junto a quem mais gostara na vida, a pessoa que tinha o beijo mais delicioso que já provara, mas, mais uma vez desperdiçara a chance. Paulo Coelho estava errado, o próprio sabe que está, mas afinal de contas foi mentindo que saiu do buraco, então é compreensivo, além do mais, a mentira o fez vender muitos livros, quase um milagre se tratando de Brasil. Mas aquela balela de dizer que é só acreditar em seu sonho, ter força de vontade e perseverança que o mundo conspirará a seu favor não enganava mais Daniel. Sentira na pele os percalços pelos quais teve que passar na vida e sabia do preço que tinha que pagar para continuar vivendo sem sonhos, e sem sonhos sabia que nesse mundo não era possível todos se darem bem. A pobreza até certo ponto é o alimento dos ricos. E se sentia comido, completamente degustado, mas rejeitado e cuspido em seguida. Ele fora cuspido, como um caroço de uma fruta, essa era a conclusão que chegara. Fora cuspido. E muitos são todos os dias também, cuspidos.
Estava agora ali sem saber ao certo onde estava. Seu vômito desaparecera na corrente d’água que já era nitidamente mais fraca, não foi apenas comida que lançara, vomitara também sua vida.
E agora ela descia com o esgoto da rua se espalhando por entre os outros detritos. Para onde sua vida estaria indo?
O desespero na ausência de lucidez subira por todo seu corpo dominando seu pensamento, que estava agora refém de seus medos. Seus estatelados olhos antecipavam sua ação. Cambaleante, mas incrivelmente rápido Daniel se pusera de pé e saíra correndo atrás de sua vida. Chegando à próxima esquina concluiu que só poderia ter descido rua abaixo tal qual o esgoto que por ali também seguia.
Não podia mais distinguir entre a sua vida e o esgoto fétido que por ali escorregava. Daniel então apavorado pela iminência de perder-se da vida, corria, corria desesperado ele corria. Já se enxergava a esquina à diante, quando já cansado e transpirando a álcool diminuíra o ritmo. Nesse instante, uma sinfonia vagneriana feita de luzes e sons, alcançou os acordes mais altos, finalizando com o estrondo de seu corpo ao chão.
O som alto de um carro pára rente a Daniel, dos bancos dianteiros descem pés cambaleantes e indecisos. Daniel ouve em forma de ruídos ininteligíveis vozes nervosas discutindo o que fazer, o dono dos pés mais trêmulos entra no carro seguido dos demais. No som do carro a música daquela noite em que transava no chão do seu quarto, com quem é, hoje, a dona de seus segredos mais íntimos e que seria conforme os sussurros no ouvido e as promessas daquela noite a mãe de Joshua e Jennefer, que ainda não havia nascidos, mas já tinham nomes, nomes que é só o que restava para Daniel nesta noite, que descobrira que a mãe de seus filhos casara com outro, antes mesmo de seus filhos nascerem. A mãe de seus filhos... Mas também a mãe de seus sonhos, sonhos que foram sonhados juntos e que não fazem mais sentido em sua solidão.
Qual o sentido que a vida pode ter quando os sonhos não se tornam realidades? O homem é aquilo que sonhou ser. Para continuar sonhando, para continuar vivendo, entretanto, é necessário que os sonhos se realizem, é imprescindível acreditar no ato de sonhar. A vida também é feita de sonhos, sobretudo, é feita da crença de que eles um dia vão se realizar. O que acontece então quando não mais se acredita nos sonhos? Quando não mais existem caminhos a escolher? Quando nada mais importa... E quando nada mais importa é o sinal de que nada mais existe. Tal pensamento germinava na mente cansada de Daniel e desaparecia no mesmo instante, e os poucos segundos de reflexão era uma mistura de razão, emoção, dor e solidão que batida no liquidificador dava origem a uma cornucópia de enigmas. Porém, a lembrança dela não lhe saía do pensamento, era uma imagem que se destacava perante a bagunça de sua mente.
A sua consciência como num último suspiro tentou-lhe consolar, então pensou: no mundo atual é melhor não ter filhos mesmo. Foi uma tentativa em vão, porque mesmo enaltecendo o que não tinha tanta importância tentava lhe ocultar o verdadeiro trauma: a culpa por ela não estar mais ao seu lado, a falta imprescindível que ela fazia naquele momento de dor, em que deslizava por um escorregador de lâminas caindo num poço de álcool. Foi esse itinerário de racionalidade que descobriu: a mente é consciente até em sua inconsciência. Ela revela apenas o que quer, quando quer, conscientemente, fingindo inconsciência. Como um bêbado que não assume o que fez com o pretexto de que esteve alcoolizado. E Daniel sabia muito bem disso.
Mas, foi então que descobrira com o som dos pneus rangendos que se sobrepunha sobre a canção que fertilizou sua memória lhe proporcionando, tal qual a um jato de gozo, a recordação daquela noite: “With or without you, With or without you...” Com ele ou sem ele não importava mais, nada mais importava, ele estava ali estirado no chão dobrado feito um guardanapo que se limpa o nariz sujo de sangue e depois se joga fora. Ele estava ali jogado fora.
Bravamente correra atrás de sua vida, mas não a alcançara. E a bravura nesta corrida existencial não era recompensada. Aflito pensava onde poderia estar ela uma hora dessas. Talvez e o mais provável é que estaria nas galerias junto ao esgoto fétido, junto às dejeções de onde não mais podia separá-la. Nessa galeria de um marrom pútrido, Daniel dançava com ela, a pessoa que mais amou, e nunca foste corajoso de confessar, nem para si mesmo, o quanto amava aquela mulher. A sua própria vida...
Agora, entanto, não importava, já não estava mais jogado à rua, sua vida não estava mais perdida no esgoto, o osso de sua perna não rasgava mais sua pele frágil. Ele só ouvia a boa voz do Irlandês, e ao som da música dançava flertando com o amor, que nunca conhecera, mas o desejava ardentemente.
Embriagado e entorpecido, não sentia dor, não sentia nada, e já era quase o nada. Apenas pensava, delirava ao som da sua memória que ia, como se atendendo ao seu último pedido, pescando as recordações boas. Quando, de repente, a sua volta se aproximaram pés curiosos e olhos que se fecharam e recuaram horrorizados que estavam pelo o mau gosto da estética surreal que viam. Daniel então, exausto, num instante em que abrir os olhos lhe custava muito, acordou. As bolas de seus olhos espantadas percorreram o horizonte, não estava mais dançando, a dor voltara, percorria todo o seu corpo, o desespero também voltara, sua vida estava indo embora esgoto abaixo e já não tinha forças para correr atrás dela. Alguém então sensível a sua afobação se aproximou e lhe pediu calma dizendo-lhe que estava chegando o socorro.
Daniel com grande esforço sentindo já os ossos perfurarem seu pulmão dizia, esganiçadamente: “a minha vida, eu quero a minha vida, eu quero a minha vida de volta”.
As pessoas a sua volta não entenderam o sentido daquelas últimas palavras e acharam que era só o desespero de alguém que sabia que iria morrer. Daniel, no entanto, já estava morto há muito tempo. Aquilo que ocorrera nos últimos minutos com Daniel fora apenas a descoberta de que já estava morto desde o dia em que não sabia mais para onde ir. Havia se perdido de sua vida. Ela o deixara. Ele não mais a sentia. O que havia agora era só o ritual de praxe do ser que deixara de existir. Ele não mais existia. Foi-se encontrar com o nada. Não havia mais nada, apenas o nada.
O nada, eis tudo...
01: 47.