sábado, 21 de maio de 2011
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Sobre a humildade cretina e a sapiência ingênua
Começo pela segunda: há pessoas que se notabilizam por parecer aos demais que os cercam, seja num boteco, numa aula de faculdade ou numa padaria, terem domínios sobre todos os conhecimentos possíveis e imagináveis.
Falam com desenvoltura sobre tudo e todos, receitam remédios, indicam livros, opinam sobre o pôr do sol, as ondas do mar, o índice de inflação, o PIB, etc.
Alguns destes, quando perdemos nosso precioso tempo a observá-los, nos parecem simples diletantes promovendo seus conhecimentos superficiais e rasteiros.
Aí é que vemos a falta que faz programas do tipo Show do Milhão, lugares privilegiados dos pernósticos solitários que se sentem deslocados ou mesmo rejeitados pela sociedade “inculta”.
Mas há outros tipos de sabedoria idiota, há aqueles que se esforçam para parecerem úteis e prestativos, cuja presença revelam um grau de sinceridade em suas intervenções, claro que também demonstram ter uma boa dose de ingenuidade, pensando saber mais do que de fato sabem.
Estes últimos, os ingênuos, são perdoáveis, merecem nosso indulto.
Os outros nem tanto, pois negam o que de mais relevante há nas posturas sábias: o silêncio, o calar-se.
Já dizia Paulo Freire que o único pré-requisito para o aprendizado, é confessar-se ignorante, quanto mais profundo é o nosso conhecimento, mais restrito também o é, quanto mais sabemos mais nos conscientizamos de nossa ignorância.
Sócrates, tido como sábio, dizia segundo Platão: “Só sei que nada sei”, muita gente toma esta frase como se significasse um rompante de humildade, nada mais equivocado, pelo contrário.
Com isso, Sócrates queria dizer que ele tinha consciência de que nada ou pouco sabia, e será que os outros teriam esta consciência?, ou seja, os outros sabiam que nada sabiam?
No fundo, o que ele requisitava era um conhecimento prévio de si mesmo diante do mundo, consequentemente, um conhecimento propedêutico para a compreensão do mundo.
Este conhecimento, o da nossa própria ignorância, talvez seja a base para uma postura sábia.
Nietzsche, um opositor empedernido da tradição socrática, disse que Sócrates inventou a maiêutica, a arte do diálogo, do interrogar-se a si e ao outro num confronto de ideias para se alcançar um conhecimento consensual sobre os homens e o mundo, porque realmente nada sabia.
De qualquer forma, podemos supor que Nietzsche estaria de acordo a respeito de que o ato de perguntar, na maioria das vezes, é mais sábio se comparado a atitude de quem a tudo responde, ou a de quem tem sempre resposta para tudo.
Precisamos tentar sair do mero ato de opinar, pois isso nos leva a debates intermináveis e estéries.
E também saber a sábia hora de se calar, enfim, evitar dizer bobagens.
Por outro lado, devemos dedicar mais tempo ao estudo dos fatos, das filosofias e só depois desse primeiro passo rumo ao conhecimento dos outros, das ideias alheias, aí assim, emitir algum juízo posterior minimamente fundamentado.
Rezo todos os dias por mais juízo de fatos e menos juízos de valores.
Não quero com isso afirmar que a separação perfeita entre um tipo e outro seja possível, mas discordar antes de conhecer nos revela no mínimo uma postura arrogante e preconceituosa, nada mais distante da sabedoria.
Seguindo a linha de Nietzsche, chegaremos ao outro extremo: o humilde cretino, que se faz de humilde para parecer uma sapiência que também não tem.
Talvez fosse isso que Nietzsche pensasse sobre Sócrates, talvez.
O humilde cretino, personagem tão corriqueiro nos ambientes de trabalho, lazer e escola é aquele que sempre tenta relativizar as coisas ou se esquivar de questões mais polêmicas.
Estes são terríveis para quaisquer debates, pois, por vezes, tentam conciliar coisas inconciliáveis, confundem confronto de ideias com ofensas, críticas com maledicências e por aí vai.
Como se o ato de contestar ideias fosse uma grande contravenção, uma falta de etiqueta ou no mínimo uma deselegância, geralmente tendem a concordar com tudo, e acabam por isso no outro extremo.
Ou seja, este tipo de pessoa na tentativa de relativizar os conceitos, as consequências, causas e efeitos, procuram se apegar em opiniões supostamente universais, grandes guarda-chuvas que pretendem abarcar todas as outras opiniões, evitando, supostamente assim, o descontentamento das partes.
Eles procuram fazer sínteses completamente ecléticas e descabidas buscando não desagradar os discursantes.
Nesse caso, o debate também não avança, fica nebuloso e contraproducente.
Enfim, em nosso cotidiano, muito frequentemente entramos em contato com uma cornucópia de tipos sociais que vão desde o humilde cretino até o sábio ingênuo e seus infinitos derivados. E quase sempre sentimos um misto de indignação e pena, pois afinal, desejar ardentemente esconder ou disfarçar a nossa imensa ignorância não deixa de ser algo meio patológico.
domingo, 24 de abril de 2011
O que enjoa é o óbvio
Me diga onde fica o óbvio
Diga-me, pois eu irei para o outro lado
Se você gosta do óbvio,
Eu quero gostar de outra coisa
Eu quero outra coisa que ninguém viu
Mesmo que seja aquilo que você gosta
Eu quero gostar de outra coisa naquilo que você gosta
Não me diga para fazer o mesmo
Isso é me torturar, e para essa tortura não tem anistia
Se você quer sair, ir ao mesmo lugar de antes
Tudo bem, mas não venha com a mesma cara
Com as mesmas ideias
Por favor, não cante aquela mesma música
Nem fale que me ama do mesmo jeito
Aliás pare de me amar
Isso enjoa
É angustiante viver com náusea,
Mas prefiro a angústia à estagnação e à estabilidade
Dê-me o mundo de Maquiavel e não o do Leviatã de Hobbes
Eu quero a respiração ofegante do dia-a-dia
E não a monotonia do sono sem sonho, sem pesadelo
Eu sinto náusea por tudo que já gostei demais
Gostei demais,
além da conta,
chega,
não gosto mais,
não quero mais,
não posso mais.
O desagradável não dá enjôo, irrita em princípio,
Mas é chato apenas, e o que é chato a gente ignora, não sente náusea,
A náusea é outra coisa, é ânsia de expurgar o que está dentro, se esvaziar
Assim como é ânsia de outra coisa que não se tem, que só se deseja
O que é demais é que causa náusea
Não sentimos enjôo do que não gostamos e sim do que gostamos em demasia
Por isso quero fugir daquilo que seria o óbvio
Quero evitar o óbvio, a decisão fácil, a mais provável
Me diga onde está o óbvio que eu vou para outro lado
Parece um contrassenso dizer que quer evitar o óbvio, pois isso parece muito óbvio
Até nisso o óbvio me persegue, mas me ajude a ficar alerta
Porque daqui a pouco será outra pessoa a me ajudar a fugir do óbvio,
só para não ficar óbvio
Então me diga para onde foi o óbvio, porque eu vou para o outro lado
terça-feira, 8 de março de 2011
Máximas e clichês
Não fale, não pense
Antes é preciso sentir
- A pior prisão é aquela em que se está preso por vontade
Não chore, não grite
Antes é preciso ver
- Pior que o sofrimento é o medo de sofrer
Não clame, não pare
Antes é preciso andar
- O caminho se faz no caminhar
Atenção, Atenção
Antes de ouvir é preciso escutar
- O silêncio, às vezes, diz mais que o falar
Tanto tempo mais, tantos clichês a mais
Quanto mais ainda terei de ouvir para entender a verdade inconteste
Minha amiga a verdade está na chuva, não no vento
A verdade não está soprando no vento, está pingando na chuva
Gota por gota, tente pegá-la, e você verá que é impossível
A verdade é uma gota que escorre pelos dedos, apenas uma ínfima parte,
De infinitas verdades
Tente pegá-las, tente juntá-las, é impossível, por que tentamos então?
"Se a assepsia total for impossível, façamos o parto na lama"
Nada me faz necessário
Eu sou irrelevante
Nem todos os livros de autoajuda do mundo podem contra esta verdade:
Eu não preciso de você, você não precisa de mim
A única necessidade é a de mantermos-nos vivos, o resto é invenção, é excedente
A vida é gratuita, mesmo sendo ela muito pesada
Nada nos faz necessário, passaríamos despercebidos, passamos despercebidos
Sem essa de querer ser imortal, é uma paixão inútil, isso já foi dito
O humano é ser fugaz, é querer transformar o fugaz em eterno
É uma busca estéril, uma luta inglória pela glória que é vã
O meu e o teu sonho é viver além da vida, é viver além do sonho,
Do sonho de sonhar que vive, a vida de um sonho, o sonho da vida...
O dia em que a paixão deixou de ser inútil
Francisco saiu de casa cedo, estava ansioso, tinha chegado o grande dia. Precisava estar bem vestido, seria uma ocasião especial, não teria mais nenhum desejo para realizar e nenhuma necessidade para satisfazer, quando saiu de casa naquela manhã. Francisco assim pensava.
Comprou do melhor sapato, como nunca se dera ao luxo; o terno era de microfibra, sempre sonhara com um daquele, a camisa para ficar tom sobre tom, tudo bem apropriado. Era realmente um grande dia.
Quando terminou de fazer as compras, Francisco pensou, precisava de um bom banho, mas antes passara no melhor cabeleireiro, deu um trato geral. Francisco era outro homem, quase além de si.
Então, decidiu alugar o melhor quarto do melhor hotel daquela cidade, assim o fez; pegou a chave, subiu, tomou um belo banho na banheira de hidromassagem, vestiu-se, perfumou-se e saiu, chegara o momento.
Entrou no elevador, em vez de descer subiu, finalmente estava subindo, mais uma vez pensou, estava imponderado, chegou ao alto do grande hotel, a cidade se abria em um grande sorriso, o sol estava encoberto, mas por nuvens claras, estava perfeito. Era o grande dia. O grande dia de Francisco.
Francisco abriu seus braços e deixou todos os pensamentos saírem, ficou leve e vazio, tão leve quanto o ar, Francisco então voou, voou, para encontrar o nada, para transcender-se. Francisco tornou-se Deus, não sentia, não desejava, era um Deus. Um verdadeiro Deus.
Na rua abaixo:
Olha, parece o faxineiro do meu prédio, coitado, uma pessoa tão boa, tão gentil, tão educado. Não, acho que não era o faxineiro lá do prédio, apesar do sangue no rosto está muito moreninho.
Hei, esse não é o encanador que foi lá em casa?, o que será que aconteceu?, parecia um homem tão lúcido.
Não, que nada, este é o cara que me deu um cheque sem fundo, não valia nada, bem feito.
Está bem vestido, parece bem importante. Esses ricos têm de tudo, ganha tudo nas mãos e não dão valor, se fosse pobre não fazia isso, é coisa de desocupado.
Hei moça, você que está chorando, você o conhecia?
Parece meu noivo, não é possível, meu Deus... ah...
Calma, calma, pode ser outra pessoa, ele está tão, tão ...
Para trás, dêem espaço, para trás, para trás...
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