quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Nem Tolstói e Beethoven foram capazes de me fazer fugir das “malditas questões” da atualidade




Hoje preparei minuciosamente a minha fuga da realidade.
Primeiro: não li as notícias matinais.
Segundo tirei da instante os dois volumes de Guerra e Paz de Tolstói que estava guardando, com certa ansiedade, confesso, para janeiro, pois, óbvio, pela grandeza da obra em todos os sentidos, demandaria tempo e dedicação que só teria nas férias.
Em vez disso, resolvi lê-la aos poucos.
Em parte, porque a desejo desde os meus tempos de colegial.
Em parte também, para fugir da politicagem cotidiana.
Assim, para não ter com que me distrair quando tivesse degustando Tolstói, escolhi também por motivos óbvios, em terceiro: a 3ª Sinfonia de Beethoven no Spotify.
Tudo ia bem, mas cometi um erro fatal, em vez de ir para obra de cara e ser logo seduzido pelo ritmo narrativo do mestre russo, fui ler seu prefácio em que fazia uma análise da própria obra e da filosofia  da história que ela contém.
Depois disso, poderia, finalmente ter começado a leitura de Guerra e Paz, mas não, outro erro!
Fui ler a crítica espetacular, ao mesmo tempo reverencial e profunda: “O porco-espinho e a raposa” de Isaiah Berlin sobre o épico Guerra e Paz.
Deparei-me então, com a expressão russa citada: “prokiatie voprossi”, e tão depressa fui buscar a nota de rodapé com a sua tradução aproximada, percebi que já não ouvia mais Beethoven e nem pensava nas tramas históricas e lendárias de Tolstói em Guerra e Paz.
Ao contrário ecoava em mim: “malditas questões”, “malditas questões”, “malditas questões”...
Saí do transe, abri o Facebook e o sonho de fugir da realidade se desfez como uma nuvem fugaz.
Malditas questões, maldito Facebook!