quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Versos sentimentais de épocas imemoriais


Ao Abrigo das Estrelas

Há muito tempo eu quis
há tempo eu sonhava
relembrar e ouvi o que diz
completar o que faltava

queria paralisar o tempo
em que estava dentro de ti
congelar aquele momento
para que não tivesse fim

aquele beijo, tantos beijos
momentos que desperdiçamos
impedindo que nosso desejo
resultasse do que amamos

do nosso amor, nossa alegria
que extraviou na diferença
do que queria, que eu não queria
para você na minha ausência

fugi de você, mas não consegui
tentei te evitar e até te esquecer
mas todas às vezes que te vi
o coração me fez tremer

talvez não há como voltar,
talvez, mas eu insisto e sinto
até minto para te encontrar
nem que seja breve e finito

a eternidade longe de ti
não vale um só instante com você
porque você longe de mim,
é como eternamente te perder!

que frágeis versos não encontre em vão
correspondência em seu pensamento
pois como é morada em meu coração
quero que eternize aquele momento

não que nosso amor
em palavras apenas fique
mas que elas preserve nosso calor
até o dia em que num só lugar habite

para a noite ser nossa companheira
e não um mero esconderijo
mas traga, ao invés, um céu de estrelas,
e não sombras de qualquer abrigo.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Artigo Carta Capital

Revisitando o poder da mídia
Venicio de Lima


28 de dezembro de 2010 às 10:17h

Os resultados da pesquisa CNI/Ibope divulgados no dia 16 de dezembro confirmam uma clara tendência dos últimos anos e, ao mesmo tempo, recolocam uma importante questão sobre o poder da grande mídia tradicional. De fato, a aprovação pessoal e a confiança no presidente Lula atingiram novos recordes, 87% e 81%, respectivamente; e a avaliação positiva do governo subiu para 80%, outro recorde [íntegra da pesquisadisponível aqui].

A confirmação dessa tendência ocorre apesar da grande mídia e sua cobertura política do presidente e de seu governo ter sido, ao longo dos dois mandatos, claramente hostil ou, como disse a presidente da ANJ, desempenhando o papel de oposição partidária.

Isso significa que a grande mídia perdeu o seu poder?


Monopólio da informação política

Parece não haver dúvida de que a mídia tradicional não tem mais hoje o poder de “formação de opinião” que teve no passado em relação à imensa maioria da população brasileira. E por que não?

Um texto clássico dos estudos da comunicação, escrito por dois fundadores deste campo, ainda na metade do século passado, afirmava que para os meios de comunicação exercerem influência efetiva sobre os seus públicos é necessário que se cumpram pelo menos uma das seguintes três condições, válidas até hoje: monopolização; canalização ao invés de mudança de valores básicos, e contato pessoal suplementar. Com relação à monopolização afirmam:

“Esta situação se concretiza quando não se manifesta qualquer oposição crítica na esfera dos meios de comunicação no que concerne à difusão de valores, políticas ou imagens públicas. Vale dizer que a monopolização desses meios ocorre na falta de uma contrapropaganda. Neste sentido restrito, essa monopolização pode ser encontrada em diversas circunstâncias. É claro, trata-se de uma característica da estrutura política de uma sociedade autoritária, onde o acesso a esses meios encontra-se totalmente bloqueado aos que se opõem à ideologia oficial” [cf. Paul Lazarsfeld e Robert K. Merton, "Comunicação de massa, gosto popular e ação social organizada" in G. Cohn, org. Comunicação e Indústria Cultural; CEN; 1ª. ed., 1971; pp. 230-253].

Aparentemente, a monopolização do discurso político “mediado” pela grande mídia – em regimes não-autoritários – foi quebrada pelo enorme aumento das fontes de informação, sobretudo com a incrível disseminação e capilaridade social da internet.

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, quando de sua rápida visita ao Brasil, em abril passado, o fundador do diário espanhol El País, Juan Luis Cebrian, afirmava:

“…a internet é um fenômeno de desintermediação. E que futuro aguarda os meios de comunicação, assim como os partidos políticos e os sindicatos, num mundo desintermediado? Do início ao fim da última campanha presidencial americana, circularam pela web algo como 180 milhões de vídeos sobre os candidatos Obama e McCain, mas apenas 20 milhões haviam saído dos partidos Democrata e Republicano. As próprias organizações políticas foram ultrapassadas pela movimentação dos cidadãos. Como ordenar tudo isso? Não sei. (…) …hoje existem 2 bilhões de internautas no mundo, ou seja, um terço da população planetária já tem acesso à rede. Há 200 milhões de páginas web à escolha do navegante. Na rede, você diz o que quer, quando quiser e a quem ouvir, portanto, o acesso à informação aumentou de forma espetacular. Isso é fato [íntegra disponível aqui].

A disseminação da internet – ou seja, a quebra do monopólio informativo da grande mídia – aliada a mudanças importantes em relação à escolaridade e à redistribuição de renda que atingem boa parte da população brasileira, certamente ajudam a compreender os incríveis índices de aprovação de Lula e de seu governo, mesmo enfrentando a “oposição” da grande mídia.


Resta muito poder

Isso não significa, todavia, que a grande mídia tenha perdido todo o seu poder. Ao contrário, ela continua poderosa, por exemplo, na construção da agenda pública e na temerosa substituição de várias funções tradicionais dos partidos políticos, vale dizer, do enfraquecimento deles.

A grande mídia, em particular a mídia impressa (jornais e revistas), ainda continua poderosa como ator político em relação à reduzida parcela da população que se situa na ponta da pirâmide social e exerce influência significativa nas esferas do poder responsáveis pela formulação das políticas públicas, inclusive no setor das comunicações.

O fenômeno Lula, que deixa o poder, como observou um analista, “amado pelo povo e detestado pela mídia”, deve servir, não só para uma reavaliação do papel da mídia de massa tradicional, mas também como horizonte para aqueles que trabalham pela universalização da liberdade de expressão e pela efetivação do direito à comunicação.


Venício A. de Lima
é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Resposta ao Tempo





Resposta ao Tempo



Nana Caymmi


Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos



Batidas na porta da frente

É o tempo

Eu bebo um pouquinho

Prá ter argumento

Mas fico sem jeito

Calado, ele ri

Ele zomba

Do quanto eu chorei

Porque sabe passar

E eu não sei

Num dia azul de verão

Sinto o vento

Há fôlhas no meu coração

É o tempo

Recordo um amor que perdi

Ele ri

Diz que somos iguais

Se eu notei

Pois não sabe ficar

E eu também não sei

E gira em volta de mim

Sussurra que apaga os caminhos

Que amores terminam no escuro

Sozinhos

Respondo que ele aprisiona

Eu liberto

Que ele adormece as paixões

Eu desperto

E o tempo se rói

Com inveja de mim

Me vigia querendo aprender

Como eu morro de amor

Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança

Que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder

Me esquecer

Respondo que ele aprisiona

Eu liberto

Que ele adormece as paixões

Eu desperto

E o tempo se rói

Com inveja de mim

Me vigia querendo aprender

Como eu morro de amor

Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança

Que não soube amadurecer

Eu posso, e ele não vai poder

Me esquecer

No fundo é uma eterna criança

Que não soube amadurecer

Eu posso, ele não vai poder

Me esquecer

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Querer não é Poder!

O poder de Aécio






 Ou querer da Veja?



Mais uma capa que a Veja gostaria de esquecer, das inúmeras capas, entrevistas e notícias que demonstram cabalmente a decadência daquela que um dia foi a maior revista do Brasil.

Todo seu esforço editorial, matemático, estatístico e analítico não foi suficiente para que a suposta força política de Aécio em Minas tivesse algum efeito na eleição de seu algoz José Serra.

Algoz sim, pois está mais ou menos claro que a espionagem sobre Serra articulada pelo ex-jornalista do Estado de Minas, Amaury Junior, tinha o objetivo de proteger Aécio Neves contra supostos arapongas de Serra:

“Em nota, o jornalista negou as acusações e afirmou que "jamais pagaria pela obtenção de dados fiscais sigilosos de qualquer cidadão". Até agora, Ribeiro prestou três depoimentos. No último, em 15 de outubro, ele revelou ao delegado Hugo Uruguai que recebeu a missão de investigar dirigentes tucanos do jornal onde trabalhava, o "Estado de Minas", para proteger o governador mineiro, Aécio Neves, de espionagem ilegal comandada pelo deputado federal Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), a serviço de Serra, num caso típico de fogo amigo”. (Fonte)



E este antagonismo entre os líderes das duas mais fortes tendências do Tucanato, a paulista guerreira e a mineira mais branda, ficou mais claro no discurso ressentido e bélico de Serra após a derrota mal digerida, ainda mais mal digerida pela acachapante derrota em Minas de Serra: Dilma ganhou de Serra por diferença de 17%, muito mais que os 12% em território nacional.

Tanto foi o ressentimento e mágoa que Serra nem ao menos agradeceu o empenho de Aécio à campanha de segundo turno, é bem verdade, que este empenho pode ter ocorrido por interesses obscuros, para que talvez não se vinculasse o nome de Amaury Jr. ao de Aécio contra Serra, mas o fato é que houve empenho, e este foi cerimonialmente ignorado por Serra em seu discurso.

A capa da Veja revela, entre outros pontos, a intenção clara de um meio de comunicação tentar construir uma situação com base em especulações maquiadas como se fosse um fato inconteste: a transferência de voto de Aécio para Serra.

O único fato verdadeiro da reportagem de Aécio é que o mesmo é muito forte em Minas, mas nada levava a crer que esta força de popularidade fosse transferir votos para Serra. Qual o fundamento desta minha afirmação? As eleições de primeiro turno!

Nestas, seu candidato biônico, o Sr. Anastasia, feito às pressas candidato por Aécio, tal qual Dilma por Lula, foi eleito com facilidade no primeiro turno, enquanto Serra também havia perdido pra Dilma de forma decepcionante.

Ou seja, houve transferência de Aécio para Aécio, quer dizer, de Aécio para Anastasia, mas não houve transferência de Aécio para Serra. Por uma razão muito simples: a única coisa que ambos têm em comum é o fato de estarem no mesmo partido, nada mais. São água e óleo, não se combinam. Isso vai ficar cada vez mais claro agora, na disputa interna do PSDB que promete ser dura, principalmente, porque ao contrário do que a maioria esperava, Serra não quer se aposentar.

Para o editorial da Veja resta dizer: querer não é poder!

sábado, 30 de outubro de 2010

Eu sou um só, eu sou só um

Eu sou um só

Eu sou só um

Eu não sou três

Eu não sou dois

Eu não sou um:

O primeiro que quer tudo certo

e cobra tudo certo dos outros

Eu não sou dois:

O segundo que faz tudo errado

e quer tudo errado dos outros

Eu não sou três:

O terceiro que se arrepende de tudo que fez errado

e que perdoa o segundo para que o primeiro consiga aceita-lo

e os três possam novamente conviver juntos, em paz no mesmo corpo

Eu sou um só

Eu sou só um

Um que acerta

Um que erra

Um que perdoa

Talvez...

É por isso que eu não preciso de religião

Eu sou só um

Eu sou um só

Eu não me separo

Talvez...

É por isso que eu não preciso

me reunir,

me religar,

me comungar

Eu não preciso de religião

Eu sou um só

Eu sou só um

Entrevista com Maria da Conceição Tavares

Uma grande entrevista,


Uma grande mulher,

Uma grande revista:

A Carta Capital é uma das poucas revistas brasileiras que é independente sem ser panfletária, que declara seu apoio a Dilma, mas não se vende como isenta tal qual faz a Veja. A Veja que não assume que apóia Serra para se dizer a dona da verdade, para vender sua propaganda tucana como se fosse a realidade dos fatos, fatos estes que nem leva em conta com sua linha editorial de escândalos fabricados, passando por fatos irrefutáveis, o que são meras opiniões (isso na grande maioria das vezes). A prova disso tudo é que a Carta Capital publicará a entrevista de outro grande personagem: Ferreira Gullar, que apóia Serra.


“Lula é um gênio do povo” Publico
29 de outubro de 2010 às 23:52h
Por Alexandra Lucas Coelho*




Amiga de Dilma e Serra, a economista portuguesa Maria da Conceição Tavares, figura nacional no Brasil, vota Dilma. E explica porque acha que Lula é um líder sem par



Maria da Conceição Tavares é daquelas figuras “maiores que a vida”. Aos 80 anos, a fumar ininterruptamente na sua casa do bairro carioca Cosme Velho, tem algo de Indira Gandhi ou Churchill. Voz e riso de trovão, olhar agudo, resposta incisiva. Respeitada em todo o espectro político como economista e pensadora, é uma das grandes conselheiras do PT. Nunca quis ser ministra porque diz tudo o que pensa.



Portuguesa, nascida em Anadia, crescida em Lisboa, filha de um anarquista que alojava refugiados da Guerra Civil de Espanha, veio casada e grávida para o Brasil, aos 21 anos, por causa de Salazar. Desde então, ao longo de 60 anos, formou gerações de economistas e líderes políticos, incluindo Lula.



A senhora deve ser a única pessoa no Brasil que consegue juntar no aniversário dos seus 80 anos….



Os dois candidatos à presidência da República! [ri-se]



… Dilma Rousseff e José Serra.



Mas o clima estava muito bom. Eles nunca se trataram mal, nem nada. Eram pessoas civilizadas, que se tratavam bem. A campanha é que despertou essa trapalhada. A noite [do aniversário, 24 de Abril] correu perfeita. Nem se discutiu política. Foi uma festa.



Eles sempre tiveram boa relação?



Não que sejam amigos pessoais, como eu sou amiga dos dois. Mas sempre tiveram boa relação. O Serra era um sujeito civilizado. Não sei o que deu na cabeça dele agora.



Conhece-o muito bem…



Desde 1968.



… se tivesse de explicar quem é José Serra, o que diria?



Um bom economista. Ambos éramos do PMDB, a frente democrática contra a ditadura. E ele saiu para fundar, com o [Mário] Covas e o Fernando Henrique [Cardoso], o PSDB, uma espécie de ala esquerda. Muita gente não acompanhou isso. Eu, por exemplo, não fui porque não faço muita fé no Fernando Henrique, que sempre foi meio dúbio, trapalhão. O Covas é que era o homem importante. Morreu. E aí… A partir do momento em que Fernando Henrique foi para o poder, o Serra manteve a posição dele como economista contra a política neoliberal.



Porque é que acha o Fernando Henrique “meio dúbio”?



Diz uma coisa para agradar a uns e outra para agradar a outros. Não fazia política, mas era um político na academia. E o Serra não, sempre foi muito “straight”, muito direito.



Confiaria mais no Serra que no Fernando Henrique?



Sem dúvida [ri]. E o primeiro governo [de Fernando Henrique] mostrou isso. Porque aí o Serra foi ministro de Planejamento contra a política neo-liberal do Fernando Henrique. Depois foi um bom ministro da saúde. Não havia nada nele que demonstrasse que ia ter uma mudança assim tão brusca. Mesmo quando foi candidato contra o Lula foi uma campanha normal. Ele sempre respeitou o Lula.



Mas acha que Serra mudou?



Mudou. Por razões de interesse político.



Como é que essa mudança se manifesta?



Na arrogância, na agressão. Ele não era assim.



Mas na segunda volta quem passou ao ataque foi Dilma.



Mas não foi ataque pessoal, xingando ele. Foi atacando o governo anterior [de Fernando Henrique]. E ele não se defendeu.



Depois [a campanha] foi piorando. E agora piorou de vez.



Como vê o incidente em que Serra acusou o PT de ser nazi, ao agredirem-no com um rolo de papel?



Ah, são jovens na rua. Mesmo que sejam pêtistas não tem a ver com o partido em geral. Essa mania de chamar um partido de nazi, acho de maluco, num país democrático como é hoje o Brasil. A gente está extremando o argumento. O Serra está muito agressivo. É verdade que essa deve ser a última oportunidade, mas parece que lhe bateu o desespero.



Mas não acha que Dilma mudou de atitude também, ficou mais agressiva?



Claro. Mas é para responder. Defender a honra dela. Ele diz que ela é mentirosa, que disse isto e depois aquilo. Diz que ela abriga a corrupção, que é dela a culpa da Erenice [Guerra, ex-braço direito de Dilma, acusada de corrupção], que todos os problemas do Brasil são culpa dela. Ela está mais agressiva no tom, inclusive mais assertiva. Mas não está insultando, dizendo que ele é ladrão.



De qualquer maneira, [a campanha] degringolou. Passou a ser um debate agressivo e vazio. Conheceu Dilma nos anos 80, sua aluna na Unicamp. Como a pode apresentar?



É uma moça que sempre fez política, como o Serra. Fez política nos partidos radicais nos anos 70, ficou presa muitos anos, teve um comportamento fantástico na prisão, é uma mulher de muita coragem, de nervo. Ela não se desmorona à toa.



Em 80 veio para Campinas, para o doutoramento. Era brilhante. Brilhantes, eles são os dois.



Serra e Dilma?



É. Ambos são bons economistas. Isso é que irrita. Podiam estar falando de coisas importantes para o Brasil.



Portanto, em termos de economia, não fica preocupada com nenhum dos dois?



Não, não fico. Quero dizer, com o Serra fico, em termos de política. Porque ele virou muito conservador e é frontalmente contra a política externa do Brasil, essa política de autonomia. Ele não é a favor das relações Sul-Sul. Preferia que a gente mantivesse a relação Norte-Sul, mais estreita com os Estados Unidos, o que acho um erro. E ele é muito fiscalista. Tanto, que o que está dizendo é contraditório. É a favor do corte do gasto público, mas diz que vai dar não sei quantos mil de salário mínimo, e para os aposentados. Está fazendo promessas demagógicas, o que não é nada o estilo dele.



Existe a ideia de que a Dilma é uma construção do Lula, alguém que não tem personalidade própria.



Isso é uma bobagem. O que ela não tem é o conhecimento político do Lula. Mas foi ministra de Minas e Energias, um sector pesado, em plena crise de energia eléctrica — herança da política boba do Fernando Henrique —, e foi Chefe da Casa Civil, uma casa política. E está com ele [Lula] todos os dias. Tem aprendido com ele tudo o que há para aprender sobre o Brasil. É evidente que sem ele não teria chance. O Serra já foi candidato a várias coisas, ela não. Então, o facto de ser apoiada pelo Lula ajuda. Não bastava o PT. O PT não tem peso suficiente para fazê-la ganhar. Quem tem é o Lula, uma figura política como nunca ocorreu no país. Para dizer a verdade, pouco ocorreu no mundo.



No vídeo em que apoia à Dilma diz: não sigam a propaganda das grandes empresas, o Brasil tem de fazer as pazes com o povo, não pode ficar só votando para os 10 ou 20 por cento de cima, e a mulher do povo é a Dilma. Acha que existem dois Brasis, essa faixa de cima que é anti-Lula e o Brasil do povo?



Acho. Tranquilamente.



E isso está a manifestar-se de novo nesta eleição?



De novo. Agora, tem a classe média, que vai para cá ou para lá, conforme a conjuntura.



A classe média que ascendeu nos últimos anos?



A que ascendeu foi a média-baixa. A média-alta, não. E essa é que tem muita raiva do Lula e não vai votar na Dilma.



Nessa faixa média alta, o Lula é frequentemente descrito como um ignorante, ou um populista.



Primeiro, não é populista porque é do povo. Populista seria um cara da elite que estivesse manipulando o povo. Ele ascendeu do povo, e foi sendo feito pelo povo.



Depois, ignorante, coisa nenhuma. O Lula sabe mais do Brasil do que ninguém. E sabe mais de economia aplicada, prática, do que ninguém. Já é candidato desde 1989. Então, na primeira derrota fez o Instituto de Cidadania, uma espécie de ONG, e convidava todos os intelectuais. Eu conhecia-o de vista, mas aí passei a ser assessora dele. Eu, uma série de economistas progressistas, filósofos, sociólogos.



Era uma espécie de academia informal?Claro. De maneira que ele fez uma “universidade” que durou de 1989 a 2002.



Como “aluno”, como era?



Ah, brilhante, brilhante. Tem uma memória prodigiosa. E quando havia discussão académica e ele percebia que as questões estavam resvalando, não deixava. Ele vai no gume. Tem um sentido de oportunidade muito afiado, uma mente muito lógica. Isso é que é impressionante. Tem um coração popular, uma emoção popular, mas a cabeça dele é totalmente lógica. É dos homens mais inteligentes que conheci. Se não o mais.



Diria que o Lula é talvez o homem mais inteligente que conheceu?



Sem dúvida. E não apenas politicamente. É uma inteligência nata. É um génio do povo. Nós tivemos um génio do povo. Se não, não teria chegado lá. Você acha que alguém vindo de onde ele veio, com as dificuldades que teve, chega a presidente? Não. Ele é um génio do povo, mesmo, e impressiona qualquer um.



A senhora tem uma frase que é: “O Lula é o maior intelectual orgânico do Brasil.”



Os intelectuais como eu são clássicos. E ele é orgânico. Interpreta e representa organicamente o povo brasileiro.



Não tem nada a ver com um Hugo Chávez?



Não, imagina! O Chávez é de origem militar. Ao Chávez é que se podia chamar populista, embora eu o ache mais uma espécie de caudilho ilustrado.



E o Lula não tem nada de caudilho [líder carismático e autoritário]?



Não, que caudilho! Ele jamais faz apelos carismáticos. Ele fala com o povo, ou com quem quer que seja, de igual para igual. Faz piada, faz humor.



É um deles?



É um deles. Mas também quando se encontra com a classe média é como um de nós. Não tem complexo de inferioridade, nem de superioridade.



Não tem ressentimento, é isso?



De nenhuma espécie. E não gosta que fiquem elogiando ele de mais. É muito lúcido. Como a lucidez é uma característica da inteligência analítica, ele tem uma inteligência analítica poderosa. E como é do povo, eu digo que é orgânico.



A senhora escreveu que ele foi quem mais avançou na “republicanização do Brasil”. No sentido de democratização?



É. Porque está dando voz ao povo. A preocupação dele é tornar cidadãos os que estão à margem. E não com palavras, com factos. Indo até eles, dando-lhes direitos, com a preocupação de que as políticas sociais sejam para incorporação.



O Lula, entre as derrotas, fez várias viagens ao Brasil inteiro, chamadas Caravanas da Cidadania. A palavra que escolhe sempre é cidadania. Por isso digo que é republicanização. O que ele quer é que todos os brasileiros tenham cidadania, possam-se expressar, ter direitos. Quer acabar com os dois Brasis, em resumo. Quer fazer disto uma nação.



Quando chegou ao Brasil, o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro foi importante para si, a ideia de construir uma democracia multiracial nos trópicos. O Brasil está mais perto disso?



Está. Nunca julguei que chegasse. Mas agora acho que a democracia está consolidada no Brasil. A coisa multiracial está avançando, porque os direitos dos negros, dos índios, estão sendo reconhecidos. E os dois Brasis estão terminando. Essa nossa vergonha.



Lula é acusado de tentações autoritárias, de se apoderar da máquina do Estado, de se enfurecer com a imprensa. Há toda esta tensão.



Ele ironiza, ridiculariza, o que é outra coisa, porque é muito do estilo popular, rir dos defeitos do adversário.



Mas não há uma tentação autoritária? Quando se fala do inchaço da máquina do Estado…



Que inchaço da máquina do Estado, coisa nenhuma. Nós desmontámos o Estado do Fernando Henrique, que fez uma política neo-liberal durante oito anos, nunca fez concurso público e deixou que todo o Estado ficasse terciarizado, com gente que trabalhava sem contrato, sem carteira assinada. Isso é que inchaço. O Lula faz concurso público, a terciarização está diminuindo, está aumentando o pessoal com carteira assinada. Enfim, estão-se reconhecendo formalmente os direitos trabalhistas. E isto é autoritarismo?



É possível que em alguns cargos de confiança o Lula tenha errado, mas também o Fernando Henrique errou, botou vários em cargos de confiança que nas privatizações se revelaram pessoas sem escrúpulos. Errar em cargo de confiança acontece em qualquer governo. Agora, no Estado, não, porque o Lula fez concurso. Foi por mérito, não para inchar a máquina.A corrupção foi o problema que prejudicou mais o governo Lula?



Foi o que prejudicou a imagem. Não propriamente dele, que tem 80 por cento de aprovação. Prejudicou os candidatos dele, como está prejudicando Dilma, prejudicou a imagem do governo.



Mas ele tirou, por exemplo, o José Dirceu [protagonista do escândalo Mensalão, em que o PT pagava a deputados uma mesada], de quem era amigo antiquíssimo. Não há nepotismo.



Todos os casos de corrupção declarada, ou objecto de inquérito público, foram demitidos.



Por exemplo, com o Berlusconi, não há dúvida nenhuma de que aquilo é um governo corrupto, porque ele é um corrupto. Agora, ninguém acusou o Lula directamente. Acusaram-no de ter fechado os olhos, mas ele não fechou olho nenhum. Podia ter mantido o José Dirceu, e dizer que era culpa de fulaninho e sicraninho, enfim daqueles que fizeram lá os “mal-feitos”.



Como podia ter mantido a Erenice, não tinha processo contra ela.



Agora, tem pêtistas que não gostaram que o PT não expulsasse esses quadros. Eu fazia parte da tendência chamada refundação. Achava que devíamos dar uma refundada e ter um código de ética mais pesado. O argumento dos outros era que seria injusto expulsar enquanto não ficasse provada a culpa.



Obviamente, não tenho a menor simpatia pelos quadros que foram acusados. Quanto mais não seja por ineficácia política. De um homem da importância de José Dirceu, que foi presidente do partido anos, e deixa o tesoureiro nomeado por ele fazer o que fez, dele é que se pode dizer que como estava preocupado com o poder esqueceu essa parte [ter mão na corrupção]. Ele pode ser acusado disso. O Lula não. Não tinha nada que ver com a máquina do partido. Lançou a Dilma, e depois é que o partido referendou. O Lula sempre teve muita autonomia em relação ao partido. Tanto que o pessoal fala que há o pêtismo e o lulismo.



Acha que há?



Há mesmo. Porque o Lula é maior que o partido. Acha que essa malta pobre que vota nele é pêtista? Coisa nenhuma. São pentecostais, a maior parte não tem partido. Acreditam no Lula. O lulismo é um fenómeno de massas. O pêtismo é um fenómeno orgânico, de um partido de esquerda que foi andando para uma espécie de centro-esquerda, social-democrata, que hoje já não existe na Europa, porque a Europa está decadente.



A Europa está decadente?



Ah, está. Puxa vida. Bota decadência, não é? Até nós.



Até nós?



Nós, portugueses [risos].



Seguimos o exemplo dos outros. O único país que seguiu menos esse exemplo foi a Suécia, que teve um período neo-liberal muito curto. Nós virámos neo-liberais. Não somos social-democratas faz horas. Nem nós, nem a Europa inteira continental. Nem a Inglaterra, nem nada.



O Lula é um social-democrata?



É. Vamos ver: social-democrata é quando você representa organicamente os trabalhadores. Ora, se há social-democrata é o Lula. Jamais foi a favor da luta armada, jamais. Sempre ficava meio chateado entre a discussão dos intelectuais e dos que vinham da igreja. O PT tem três origens: a sindical, que é a dele, a da igreja, católica, e a dos intelectuais revolucionários. Perdiam um tempo danado a discutir e a vontade dele era mandar os padres rezar e os intelectuais para a academia, e não chatearem ele [ri]. Isso ele disse uma vez para mim, rindo: “Você não tem ideia do que era!” Quando eu entrei, [o PT] já estava manso.Nunca quis ser ministra?



Não. Não tenho temperamento para ser executiva. Fui deputada porque me pediram.



O Lula nunca a convidou?

Não. Ele conhece-me, sabe que eu sou pêlo no vento. Eu sou muito mais agressiva do que a Dilma, muito mais. Ela consegue disfarçar a raiva dela, eu não. Quando fico com raiva, fico. Digo na cara das pessoas o que acho. Eu não seria uma boa ministra. Sou uma boa assessora.



Porque diz o que pensa.



Isso. O que é importante. Alguém que não fica puxando o saco do chefe. Eu não puxo saco de ninguém. Várias vezes disse ao Lula coisas com que ele não concordava.



Por exemplo?



Por exemplo, quando ele fez a aliança com o Garotinho [ex-governador do Rio, condenado por corrupção]. Eu não votei.



Já agora, Collor de Melo e Sarney [ex-presidentes envolvidos em escândalos, que também fazem parte da base de apoio de Lula]. Sente-se confortável com estas alianças?



Eu não sigo as instruções. Se a aliança for com alguém que considero indecoroso, não voto.



É o caso de Sarney ou Collor?



Collor, sim. Sarney, nem tanto. O Sarney que conheço é o da transição. Na primeira parte do governo fez o que pôde. Depois, degringolou. E nunca mais foi candidato a nada. Acho injusto confundir o Sarney com o Collor. O Collor é uma coisa desqualificada.



Há quem critique programas como o Bolsa Família como a criação de uma rede de dependência do governo, que pode ter o efeito contrário justamente a essa autonomia dos cidadãos. O que acha disto?



Acho que é mentira. O Lula tirou 28 milhões da pobreza. Esses não são mais dependentes da Bolsa Família, porque a Bolsa Família é para os pobres. Esses 28 milhões entraram no mercado de trabalho, são assalariados, ou têm os seus pequenos negócios. O que o Lula fez foi proteger os pobres, não deixar os caras morrer de fome. Mas uma vez que ficaram acima do salário mínimo, não. Ninguém que ganhe acima do salário mínimo tem Bolsa Família. Pode ter outras.



Como economista, como vê estes programas?



Acho que é o correcto. Ao tirar da pobreza, e meter no mercado de trabalho vinte e tantos milhões, você está consolidando o mercado interno. Por isso é que a crise internacional não nos atingiu duramente. Por isso, e porque o sector externo estava bem. Tínhamos pago a dívida externa.



E Lula investiu no consumo…



É, deu crédito, além de ter dado emprego. Deu muito emprego. Mais do que prometeu. Investiu no mercado interno e deu financiamento para aquisição de bens necessários, tipo geladeira [frigorífico]. As pessoas dizem: “Ah, fica financiando geladeira…” Mas neste país quente querem que não se financie geladeira? E as pessoas comem o quê? Carne podre? Evidentemente que o que ele fez está correcto. Passámos de uma taxa de crédito de 20 e tantos por cento para 40 e tantos. O que é bom. Não é como nos países ricos, que era 120, 130, o que deu na catástrofe que deu [crise de 2008]. Aqui não tem alavancagem do crédito. Não tem incumprimento alto, inclusive, ou seja, não pagar a prestação que deve. Os devedores pagam, e quem mais paga são os pobres, exactamente. Essa é outra ideia, que pobre não paga. É mentira. Quem não paga é a classe média-alta, que usa cartão de crédito, cheque especial, vai-se endividando e endividando. O povo não faz isso. Nem tem cartão de crédito nem cheque especial. Tem banco, isso sim. Foi uma coisa importante.



O Lula não fez só o Bolsa Família. Fez O Luz para Todos, fez a Bancarização, que é você ter direito, mesmo sem carteira de trabalho, a poder ir ao banco e ter crédito. Essas coisas que implicam integrar o cidadão na sociedade.O que é está em jogo nesta eleição, de facto? É uma eleição importante?



É importante. É a continuidade deste esforço em todos os sentidos. Desde a política externa autónoma, que é fundamental. As pessoas não se dão conta, porque aqui ninguém sabe nada de política externa, então a classe média nem fala no assunto.



Uma das críticas maiores ao governo Lula é o facto dele falar no tom em que fala com Chávez, com o regime cubano, com Ahmadinejad.



Isso é tudo uma bobagem, porque tem de falar com todo o mundo. Lula também fala, e é amigo, do presidente dos Estados Unidos. Só que não se submete.



Mas a questão não é falar, é…



É falar sim, porque ele não fez nada que não fosse de acordo com as regras da nossa constituição e as regras internacionais.



A questão que algumas pessoas colocam é se faz sentido um presidente como Lula ir abraçar os irmãos Castro num momento em que estão dissidentes a morrer e a serem mortos.



Faz sentido como faz sentido ir abraçar qualquer um. Então eu pergunto: faz sentido o governo dos Estados Unidos ter sustentado com dinheiro, com apoio da CIA, todos os golpes de Estado da América Latina?! Isso ninguém critica! Aposto que essa gente da classe média nunca falou nos golpes latino-americanos financiados pelos Estados Unidos e pela CIA!



Certo. Mas a pergunta…







Então?! Nós não estamos financiando golpe de Estado! Só estamos indo a governos legítimos. Não estou falando democráticos, estou falando legítimos.



Como alguém que acredita profundamente da democracia não a incomoda…

Não me incomoda nada! O Oriente Médio não tem democracia nenhuma, e não terá tão cedo. Há tanta possibilidade de ter democracia no Irão, no Iraque, naquela república petroleira que sustenta tudo…



A Arábia Saudita. Mas eu não estava a falar do Oriente Médio…



Como não? Uma das críticas maiores foi ele ter falado com o Irão. Como não está falando no Oriente Médio, se foi aí que a imprensa espirrou? O Castro é periódico. Todo o mundo sabe que ele é amigo do Castro de Cuba.



Mas estou a perguntar-lhe a si.



Acho que ele tem todo o direito. Eu também não teria nenhum inconveniente se fosse a Cuba — não tenho nada que fazer lá, de momento, nem tive, no passado — em cumprimentar o velho Castro, imagina, que é uma figura histórica totalmente relevante. Agora de repente o Castro não tem importância nenhuma? Eu teria inconveniente era em cumprimentar o primeiro-ministro da Itália [Berlusconi], esse sim, que é um ladrão.



No caso da Itália, não é só por causa da corrupção. É por causa do neo-fascismo, que Berlusconi promoveu, e de que é aliado. O que está acontecendo na Itália é gravíssimo, voltar o fascismo à Itália como partido legal. Mas se cumprimentasse Castro, provavelmente também lhe diria o que pensa, não?



Sem dúvida nenhuma. Ia dizer: “Sei que agora não é você quem manda, é o Raul, mas porque é que não libera logo esses caras, e pára de ter uma praga em cima de você?” Eu diria. E ele diria: “Porque não, nhim-nhim-nhim, nhim-nhim-nhim, lá os argumentos dele. Digo sempre o que penso. Nos Estados Unidos também dizia, quando estava lá.



A senhora acha que isso não teve custos políticos para Lula?



Custos políticos não teve, porque as pessoas que dizem isso nunca votaram no Lula.



Há pessoas que votaram nele e dizem isso.



Não senhora. Não é pela política externa. Não é verdade. Podem ter-te dito que votaram, mas é mentira. A política externa [de Lula] não é uma crítica da esquerda. Ao contrário. Isso é uma crítica da direita.



Concentrando-nos na América Latina, a minha questão era se faz sentido uma figura como o Lula, justamente pelo que transporta de inspiração, de exemplo…



Faz todo o sentido! Não é uma política de autonomia? É! Cuba está ou não cercada pelo boicote económico americano? Está. Um dos problemas económicos deles é esse.



Justamente. Uma palavra de Lula aí não teria força em relação à repressão política, dos prisioneiros?



O Lula não se vai meter nas decisões de cada país. Vai lá para mostrar simpatia pelo facto de que eles estão sendo cercados. E deve ter falado [na questão dos presos políticos]. Porque ele disse-me que isso foi tocado.

É?



Mas amigavelmente. Não vai agora se meter na política dos outros. Chama-se política de não intervenção. Ninguém se intromete. Se fosse à Itália provavelmente também cumprimentaria o Berlusconi. Só que não foi, graças a Deus. Acho que é um dos poucos países onde não foi. Não deve ter sido por acaso. Foi à Alemanha, a França, e também não deve morrer de amores pela Merkel, ou por aquele francês, que é um autoritário de direita, o Sarkozy. E daí? Por acaso ele critica o Sarkozy em público, ou vai lá peruar sobre os direitos dos franceses? Isso não se usa. Isso não é diplomacia. Eu faria, mas o Lula é um estadista, representa o estado brasileiro.



Outra coisa com que a direita não concorda é a política Sul-Sul, e é o caso do Serra, que hoje é um homem de direita.



Acha que ele é um homem de direita?



Hoje, virou. Porque o partido dele virou a direita possível. Dado que a direita clássica está encolhendo no Brasil, ele foi-se estendendo para a direita. Então o partido dele hoje, no máximo, pode-se chamar de centro-direita. Como, no máximo, o nosso pode ser chamado de centro-esquerda. Você tem o centro dominando o espectro ideológico. Ora vai para a esquerda, em certas eleições. Ora vai para a direita.



MEMÓRIAS DE PORTUGAL



Falemos um pouco do seu percurso antes de vir para o Brasil. O seu pai acolheu refugiados da Guerra Civil de Espanha.



É verdade [ri].



Era anarquista, o meu velho. Nasci em Anadia mas vim com um mês para Lisboa. Então sou alfacinha. Estive em Sacavém, nas Avenidas Novas, perto lá da Igreja de Fátima…



Avenida de Berna.



Isso. Estive em vários lugares.



O seu pai era comerciante.



Era. E essa frase de que me lembro [dos refugiados] era quando estávamos num bairro popular, de maneira que não se notava tanto. Se enfiasse anarquistas em bairro de classe média tinha-se ferrado. O pessoal estava saindo, estavam perdendo a guerra, e Lisboa era um lugar de passagem de todo o pessoal que estava sendo perseguido, judeu, anarquista. E tinha sempre vários segmentos da população que ajudavam. Aí cresci no meio do debate. O meu tio era comunista e o meu pai anarquista. Então, você imagina, no caso da Catalunha, em que a briga entre anarquistas e comunistas foi feroz, como é que se discutia. Cresceu a ver esses refugiados em casa.



Quanto tinha sete, oito anos. Quando terminou a guerra, foram à vida deles. Depois teve a II Guerra Mundial. E aí é que eu cresci, no sentido em que aos 12 anos caiu Paris. Foi uma tristeza geral. Me lembro de nós todos em torno da BBC, ouvindo a notícia, chorando. Depois a fronteira russa, a queda de Leninegrado, que foi uma brutalidade. E finalmente no dia D, a gente começou a se animar. A guerra terminou quando eu tinha 15 anos. E venho para o Brasil em 1954. Vim casada, grávida da minha filha mais velha e matemática.



E veio porquê?



Ah, porque aquilo ali não dava.



Por razões políticas?



Ah, sim. Não havia emprego para gente como nós, por causa da ficha política.



Era comunista?



Não. Dado que tinha um pai anarquista, uma mãe da esquerda católica e um tio comunista, eu era progressista, digamos. Naquela altura até era mais de uma esquerda católica. Tinha amigos comunistas, anarquistas. Aqui, quando cheguei, também tinha trotskistas, mas isso não me lembro em Portugal. Aqui tinha muito intelectual ilustre que era trotskista. Tinha vários salões intelectuais: o dos comunistas, o dos trotskistas, e o da esquerda católica. E eu frequentava os três, para variar. Era muito estimulante.



Apesar de que, como morreu logo o Vargas, ficou um período meio brabo. Até me lembro de pensar: “Puxa, onde eu vim amarrar o meu cavalo. Fui em busca de democracia e pego um golpe pela cara.” Mas depois melhorou. E com JK [Juscelino Kubitschek] ficou aquela alegria. Aí, me naturalizei brasileira e fui fazer o curso de Economia. Já tinha 27 anos.



Depois atravessou toda a ditadura brasileira.



Menos um período de cinco anos, em que estive no Chile. Porque aqui estava muito difícil.



Não se cruzou com Serra [que esteve exilado no Chile]?



Claro que cruzei.



Então é lá que se encontram.



Claro. E foi lá que escrevemos o nosso artigo contra o “milagre económico” [brasileiro]. Depois eu voltei em 1973, fiz concurso para Campinas, e fiquei na ponte aérea Rio-Campinas. Dava parte das aulas lá e parte cá. Ajudei a formar o mestrado de Campinas, o doutoramento. Entrei pesado na vida académica. Foi bom ter feito matemática, porque o meu catedrático não tinha nenhuma noção de matemática. E foi assim que ele me indicou para auxiliar, depois fiz os concursos todos.



Houve um momento em que passou a sentir-se brasileira? Um clique?



Houve. O JK [Juscelino Kubitschek]. Trabalhei no Plano de Metas dele. Era uma tamanha alegria que você achava que o país estava indo para a frente. Paradoxalmente, eles não trataram da questão agrária, e também o salário mínimo não foi nenhuma maravilha, a partir de 1958 começou a cair, por causa da inflacção. A inflacção realmente é uma praga. Sou uma das poucas economistas de esquerda que é contra a inflacção. Os economistas de esquerda acham que a inflacção não faz diferença. Faz muita diferença. Para quem? Para os pobres. Para os ricos não faz diferença nenhuma.



Os brasileiros ficaram traumatizados com a inflacção, não é?



Foram décadas. É um país classicamente inflaccionário. Esta é a primeira vez que não. E isso começou, diga-se a verdade, no Fernando Henrique.



O que é que acha que o Brasil lhe deu?



Inicialmente, susto [ri]. Uma pessoa chegar aqui, mata-se o presidente e fica tudo imerso… Susto. E como aqui o pessoal é meio inconsciente, a esquerda, mesmo quando era ilegal, vivia batendo papo nos botequins. E eu dizia [sussurra]:



“Escuta, aqui não tem PIDE?”



“PIDE?”



“Sim, polícia política.”



“Ah, não sei, deve ter, mas a gente está aqui num bar.”



“Ué, mas um bar é uma coisa aberta!”



[risos] Eu ficava espantadíssima. Não tinha aquela clima português em que você olhava para a esquerda e para a direita até para ler um jornal. Então, essa foi a primeira coisa: relaxei mais. Em segundo lugar, a coisa da alegria, de ver uma civilização brotar, o que é muito bacana. Ver música, teatro… Culturalmente era muito rico. Aqui, essa parte, era liberal. Só na ditadura propriamente dita é que censuraram as manifestações culturais.



Na ditadura, fiquei no Brasil de 1964 a 68, quando ainda tinha muita crítica. Em 68 é que eles endureceram. E por sorte eu fui [para o exílio] antes. Aí caiu gente para burro, intervieram nas universidades. Se eu tivesse aqui teria sido expulsa.



Eu tava lá [Chile] e também foi uma alegria.



Conheceu Salvador Allende?



Conheci. Conheci todo o mundo. Até pedi uma licença — porque estava a fazer um doutoramento em Paris — e fui trabalhar com o governo. Eu e o Serra.



Com o governo Allende?



[Acena] Fomos os dois colegas no ministério da Economia. Como tinha de voltar para tomar posse na universidade, voltei em Março de 1973. E o golpe [de Pinochet] foi no Outono. Eu tinha deixado a minha filha e o meu filho, porque pretendia fazer outra licença. Mas aí vi que não dava, porque já tinha havido o diabo, trouxe o menino, e ela que tinha casado com um chileno ficou lá. Aí foi uma coisa muito angustiante. Depois quando ia para um seminário no México, prenderam-me no aeroporto aqui no Brasil e fiquei lá num desses aparelhos de repressão 48 horas. Assustador. Não teve tortura. Ameaça, ficar nua, fotografada de todos os lado, não poder comer, não poder beber, não poder fumar, e aquelas celas isoladas.



Sempre fumou assim sem parar?



Sempre, desde os 14 anos. Fumo dois maços. Claro, em entrevista fico nervosa e fumo mais [ri].



Então o Brasil me deu maturidade e uma experiência de vida rica.



E Portugal para si é o quê?



É remoto. Hoje não tenho mais nenhuma ligação íntima. Tenho uns primos vagos na Anadia. A Maria de Lourdes Pintasilgo, que era minha colega, morreu.



Foi sua colega onde?



No liceu Filipa de Lencastre, e depois No Instituto Superior Técnico, onde entrei com 16 anos. Estive com ela várias vezes, quando ela vinha aqui eu sempre a via. Essa era uma mulher fantástica. A verdade é que nós, as mulheres portuguesas, somos fantásticas. A coisa das Marias portuguesas é um facto. São mais lutadoras que os homens. Eu acho. Desde a Padeira de Aljubarrota para cá.



No tempo do Salazar era uma apagada e vil tristeza. Agora, como eu tinha sido presa aqui na véspera da revolução dos cravos e me disseram que me cortavam a nacionalidade se eu saísse, fiquei com medo e não saí do Brasil [nos dois anos a seguir ao 25 de Abril]. Depois fui, e talvez tenha ido numa das últimas marchas com os cravos, com os capitães e o velho comuna, que acho que já morreu…



Álvaro Cunhal.



O Álvaro já morreu, não já? O velho Cunhal. Descemos a Avenida da Liberdade com os cravos na mão. Foi simpático. Mas não é um país estimulante como o Brasil. O Brasil é um país imenso e muito diversificado. Lá é muito pequenininho.



Amanhã: Entrevista com Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010, apoiante de José Serra: “Lula comprou o voto do povo”.



*Matéria originalmente publicada no site do jornal Público

domingo, 24 de outubro de 2010

A Fabricação do Real

Qualquer tipo de agressão deve ser repudiada!

Sou terminantemente contra qualquer tipo de violência, ainda mais quando é uma violência contra a livre expressão, contra o direito de emitir opinião, contra o direito de discordar. Todos devem ter o direito de se expressar e assumir sua opinião, por mais equivocada que ela possa parecer.

Sou contra todo o tipo de violência, contra violências físicas e também contra as violências virtuais, como por exemplo, a de um jogador de futebol fingir ser agredido, simular falta. Isso é, concordando com Mauro Cezar Pereira em seu blog, tão grave quanto as agressões de fato.

Da mesma forma, fingir ou manipular imagens de uma suposta agressão seja tão ou mais odiosa a uma agressão em si, pois o fato de enganar pessoas é também um tipo de violência, uma violência sórdida, eu diria.

Estou enfastiado com as revelações sobre o vídeo da suposta agressão ao cadidato José Serra, assim como estava enojado com as calúnias e o toma-lá-da-cá que impera nas campanhas de ambos os candidatos, mas a fraude que se mostrou ser o vídeo veiculado no Jornal Nacional, consegue ser infinitamente pior ao clima de baixaria das campanhas (que é na pior das hipóteses um recurso de digressão para fugir dos temas fundamentais e, na melhor, a incapacidade de discutir o necessário), os vídeos abaixos da postagem revelam, acima de tudo, um plano sórdido arquitetado pelas mídias gigantes que controlam e manipulam a informação, mostrando mais uma vez, como aconteceu em 1989 na eleição presidencial e em 1982 na eleição para governador do Rio de Janeiro, que a verdade e o real pouco ou nada importa, ou melhor, que a verdade pode ser uma criação ficcional sem nenhum lastro com a realidade.

Isso muito me assusta, parece que o Grande Irmão da distopia de George Orwell que encarnava um Estado Totalitário passou a habitar os poderes privados que controlam a informação e confundem o real/virtual da vida contemporânea.
Continua as estratégias fascistas das mentiras repetidas (distorcidas, inseridas, editadas...) várias vezes que se tornam verdade, mas agora pulverizadas em ações em prol dos interesses obscuros e obscurantistas sem pontos ou lugares fixos, disfarçados convenientemente pela "neutralidade", "imparcialidade" e "irresponsabilidade" da Grande Imprensa (que há muito deixou de provar o que veicula, para quê? se já se chegou ao estágio do virtual criar o real).


A seguir veja os videos que dão sustentação a notícia veiculada pela Carta Capital:





O outro vídeo que também corrobora a reportagem da Carta Capital, este veiculado no site de Paulo Henrique Amorim: Convesa Afiada.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Manifesto dos Professores Contra Serra

Professores lançam manifesto em defesa da educação pública

Redação Carta Capital


19 de outubro de 2010 às 13:08h

Nomes como Antônio Cândido, Fábio Konder Comparato, Marilena Chauí, Emília Viotti da Costa, Maria Victoria Benevides, Alfredo Bosi e Carlos Nelson Coutinho estão entre os assinantes

Professores universitários, de faculdade públicas e particulares, lançaram um manifesto e ainda estão colhendo assinaturas contra as propostas e os métodos políticos do candidato a presidência da República José Serra. E defendem um sistema educacional que priorize o ensino superior público.

Leia abaixo a íntegra do manifesto:

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política de sucateamento da Rede Pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da Rede Pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores qualificados e a desestimular quem decide se manter na Rede Pública. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a difamação, manipulando dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontra paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.


Antonio Candido, USP
Alfredo Bosi, USP
Fábio Konder Comparato, USP
Joel Birman, UFRJ
Carlos Nelson Coutinho, UFRJ
Otávio Velho, UFRJ
Marilena Chaui, USP
Walnice Nogueira Galvão, USP
Renato Ortiz, Unicamp
Laymert Garcia dos Santos, Unicamp
Dermeval Saviani, Unicamp
Laura de Mello e Souza, USP
Maria Odila L. da Silva Dias
Sergio Miceli, USP
Luiz Costa Lima, Uerj
Flora Sussekind, Unirio
João José Reis, UFBA
Ruy Fausto, USP
Franklin Leopoldo e Silva, USP
João Adolfo Hansen, USP
Eduardo Viveiros de Castro, UFRJ
Emilia Viotti da Costa, USP
Newton Bignotto, UFMG
Wander Melo Miranda, UFMG
Juarez Guimarães, UFMG
Heloisa Fernandes, USP
Maria Victoria de Mesquita Benevides, USP
Glauco Arbix, USP
Vera da Silva Telles, USP
Theotonio dos Santos, UFF
Ronaldo Vainfas, UFF
Gilberto Bercovici, USP
Benjamin Abdalla Jr., USP
Enio Candotti, UFRJ
Angela Leite Lopes, UFRJ
Sidney Chalhoub, Unicamp
Arley R. Moreno, Unicamp
Maria Ligia Coelho Prado,USP
Celso F. Favaretto, USP
José Castilho de Marques Neto, Unesp
Emir Sader, Uerj
Scarlett Marton, USP
José Sérgio F. de Carvalho, USP
José Arbex Jr., PUC-SP
Peter Pal Pelbart, PUC- SP
Viviana Bosi, USP
Irene Cardoso, USP
Wolfgang LeoMaar, UFSCar
João Quartim de Moraes, Unicamp
Léon Kossovitch, USP
Vladimir Safatle, USP
Leda Paulani, USP
Ildeu de Castro Moreira, UFRJ
José Ricardo Ramalho, UFRJ
Ivana Bentes, UFRJ
Cibele Saliba Rizek, USP
Afrânio Catani, USP
Sergio Cardoso, USP
Ricardo Musse, USP
Armando Boito, Unicamp
Enid Yatsuda Frederico, Unicamp
Andréia Galvão, Unicamp
Cynthia Sarti, Unifesp
Luiz Roncari, USP
Flavio Aguiar, USP
Iumna Simon, USP
Luis Fernandes, UFRJ
Marcos Dantas, UFRJ
Laura Tavares, UFRJ
Sérgio de Carvalho, USP
Marcos Silva, USP
Alessandro Octaviani, USP
Ligia Chiappini, Universidade Livre de Berlim
Celso Frederico, USP
José Carlos Bruni, USP
José Jeremias de Oliveira Filho, USP
Sebastião Velasco e Cruz, Unicamp
Liliana Segnini, Unicamp
Maria Lygia Quartim de Moraes, Unicamp
Ladislau Dowbor, PUC-SP
Bernardo Ricupero, USP
Adriano Codato, UFPR
Lygia Pupatto, UEL-PR
Henrique Carneiro, USP
Adélia Bezerra de Meneses, Unicamp
Maria Lúcia Montes, USP
Francisco Rüdiger, UFRS
Luís Augusto Fischer, UFRGS
Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida, PUC-SP
Gil Vicente Reis de Figueiredo, UFSCar
Carlos Ranulfo, UFMG
Paulo Benevides Soares, USP
André Carone, UFScar
Heloisa Buarque de Almeida, USP
Emiliano José, UFBA
Igor Fuser, Faculdade Cásper Líbero

O Despertar das Feras!

A onda de factóides (e alguns fatos é verdade), escândalos encomendados, denúcias pontuais (algumas forjadas), hipocrisia e obscurantismo (a questão do aborto, por exemplo) contra a candidatura de Dilma Roussseff provocou uma reação inimaginável.

Esta onda de boataria e desvio de foco dos diferentes projetos de nação dos dois candidatos (diga-se de passagem, o mais importante de cada uma das campanhas) inserido pelos partidários do PSDB, conseguiu provocar a reação de grandes personalidades, tais como: o cantor e escritor Chico Buarque de Hollanda, o arquiteto Oscar Niemeyer, o escritor Fernando Morais, o teólogo Leonardo Boff, a filósofa Marilena Chauí, os cantores Alceu Valença, Elba Ramalho, Beth Carvalho e Alcione.

Contra a desinformação e a favor da informação 1

Contra a desinformação e a favor da informação! 2

sábado, 16 de outubro de 2010

Artigo da Carta Capital

Repulsa ao sexo



Maria Rita Kehl



15 de outubro de 2010 às 15:55h



Este é o penúltimo texto escrito pela psicanalista antes de ser demitida do jornal O Estado de S. Paulo. Porém, trata de um tema mais atual do que nunca: o aborto



Entre os três candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células–tronco.



Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.



Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.



O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CCNBB, o Ministro Paulo Vannucci precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.



O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século XVII.



ऀA modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isto. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.



A ambigüidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause…), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o Papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.



Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que agüentar as conseqüências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre a Imprensa Nativa e a manipulação jornalística

Guerra suja na campanha eleitoral



Venicio de Lima



14 de outubro de 2010 às 16:53h



Corre solta na internet uma guerra – e, como toda guerra, sem qualquer ética – de manipulação da informação, agora tendo como aliados partidos de oposição e os setores mais retrógrados das igrejas católica e evangélica, incluindo velhas e conhecidas organizações como o Opus Dei e a TFP



As campanhas eleitorais têm servido para revelar, de forma inequívoca, qual a ética empresarial e jornalística que predomina na grande mídia brasileira.



Os episódios recentes relacionados à demissão de conceituada articulista do Estado de S.Paulo, assim como a ação da Folha de S.Paulo, que obteve na Justiça liminar para retirada do ar do blog de humor crítico Falha de S.Paulo, são apenas mais duas evidências recentes de que esses jornalões adotam, empresarialmente e dentro de suas redações, práticas muito diferentes daquelas que alardeiam em público.



Como se sabe, o Estadão é o jornal que afirma diariamente estar sofrendo “censura” judicial, há vários meses.



Tratei do tema neste Observatório quando da demissão do jornalista Felipe Milanez, editor da revista National Geographic Brasil, publicada pela Editora Abril, por ter criticado, via Twitter, a revista Veja (ver “Hipocrisia Geral: Liberdade de expressão para quem?”).



Corre solta também, na internet, uma guerra – e, como toda guerra, sem qualquer ética – de manipulação da informação, agora tendo como aliados partidos de oposição e os setores mais retrógrados das igrejas católica e evangélica, incluindo velhas e conhecidas organizações como o Opus Dei e a TFP.



Ademais, uma série de panfletos anônimos sobre candidatos e partidos, de conteúdo mentiroso e manipulador, tem aparecido e circulado em diferentes pontos do país, aparentemente de forma articulada.



Estamos chegando ao “primeiro mundo”. Repetem-se aqui as estratégias políticas obscuras que já vem sendo utilizadas pelos radicais conservadores ligados – direta ou indiretamente – à extrema direita do Partido Republicano – o “Tea Party” – e também pela chamada “Christian Right”, nos Estados Unidos.



A bandeira da liberdade de expressão equacionada, sem mais, com a liberdade de imprensa, não passa de hipocrisia.



Começou com o PNDH3

A atual onda, que acabou por deslocar o eixo da agenda pública da campanha eleitoral e da propaganda política no rádio e na televisão para uma questão de foro íntimo e religioso, teve seu início na violenta reação ao Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3), capitaneada pela grande mídia. Na época, escrevi:



“O curto período de menos de cinco meses compreendido entre 21 de dezembro de 2009 e 12 de maio de 2010 foi suficiente para que as forças políticas que, de fato, há décadas, exercem influência determinante sobre as decisões do Estado no Brasil, conseguissem que o governo recuasse em todos os pontos de seu interesse contidos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos (Decreto n. 7.037/2009). Refiro-me, por óbvio aos militares, aos ruralistas, à Igreja Católica e, sobretudo, à grande mídia.” ["A grande mídia vence mais uma", 15/5/2010].



São essas forças políticas – com seus paradoxos e contradições – que agora se unem novamente para tentar influir no resultado das eleições presidenciais de 2010, valendo-se da “ética” de que “os fins justificam os meios”.



Lições

A essa altura, já podem ser observadas algumas lições sobre a mídia e suas responsabilidades no processo político de uma democracia representativa liberal como a nossa:



1. Não é apenas a grande mídia que tem o poder de pautar a agenda do debate público. A experiência atual demonstra que, em períodos eleitorais, essa agenda pode ser pautada “de fora” quando há convergência de interesses entre forças políticas dominantes. Elas se utilizam de seus próprios recursos de comunicação (incluindo redes de rádio e televisão), redes sociais (p. ex. Twitter) e correntes de e-mail na internet. A grande mídia, por óbvio, adere e abraça a nova agenda por ser de seu interesse.



2. Fica cada vez mais clara a necessidade do cumprimento do “princípio da complementaridade” entre os sistemas de radiodifusão (artigo 223 da Constituição). Seria extremamente salutar para a democracia brasileira que o sistema público de mídia se consolidasse e funcionasse, de fato, como uma alternativa complementar ao sistema privado.



3. Independente de qual dos candidatos vença o segundo turno das eleições presidenciais, a regulação do setor de comunicações será inescapável. Não dá mais para fingir que o Brasil é a única democracia do planeta onde os grupos de mídia devem prosseguir sem a existência de um marco regulatório.



4. O artigo 19 da Constituição reza:



É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:



I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na formada lei, a colaboração de interesse público.



Apesar de ser, portanto, claro o caráter laico do Estado brasileiro, na vida real estamos longe, muito longe, disso.



5. Estamos também ainda longe, muito longe, do ideal teórico da democracia representativa liberal onde a mídia plural deveria ser a mediadora equilibrada do debate público, representando a diversidade de opiniões existentes no “mercado livre de idéias”. Doce ilusão.



Artigo originalmente publicado no Observatório da Imprensa

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Uma moeda de dois lados diferentes, bastante diferentes!



Neste segundo turno voto na Dilma pelos seguintes motivos:

Aceito as críticas que diz que ela é uma sombra do Lula, que não tem expressão própria, mas aí também reside um argumento favorável: que governo ruim seria capaz de emplacar uma candidata sem expressão? Daí, advém uma conclusão óbvia: Lula é o melhor presidente que o Brasil já teve, em que pese a falta de concorrência ao longo da história, que também é óbvia!

Creio que o melhor candidato para o Brasil era Plínio de Arruda Sampaio, pois o PSOL hoje abriga as cabeças mais inteligentes desse país, acho isso porque poderia, se eleito fosse, radicalizar as políticas sociais, que deveriam ter sido feitas pelo PT, mas não foram, sabemos nós muito bem, devido a "evolução"/ contaminação provocada pelas alianças espúrias feitas pelo partido para conseguir chegar ao poder.

O PT hoje, lamentavelmente, é o resultado (com um sucesso inegável) de um projeto de poder, e não de um projeto político, a qual se deveu a criação do próprio partido que dantes realmente representava os interesses da grande maioria dos brasileiros, e foi abortado pelo próprio PT, em um dos acordos que fez com as ditas alianças para que tivesse o passaporte para chegar ao poder.

Assim hoje, o PT tenta se equilibrar em meio a alianças frágeis e artificiais, almejando conciliar água e óleo, trabalho e capital, Estado forte e Estado liberal.

Pois bem, o que é sem dúvida o grande mal do PT na atual conjuntura, este fato mencionado de conciliar o inconciliável, é também, por incrível e ilógico que possa parecer o motivo que tenho para votar na Dilma.

Explico-me: pois é esta indecisão do PT que ainda garante os avanços sociais do governo Lula, é a base popular e social que ainda se apega heroicamente ao partido e à sua bela história, que pressiona as lideranças. E é isso que garante as melhorias sociais que o governo Lula inaugurou.

Pois o outro lado não tem esta dúvida, entre um Estado forte e um liberal baseado apenas nas leis de mercado e na iniciativa privada, eles ficarão, evidentemente, com a segunda opção.

O que está em jogo, à parte todas as semelhanças entre PSDB e PT hoje, é a adoção integral ou não do neoliberalismo, o PT titubeia, o PSDB não. É esse titubear que me faz votar na Dilma, pois é esta dúvida, é esta indecisão entre seguir sua história e os imperativos de suas alianças espúrias que gera o equilíbrio instável entre capital e trabalho, mas que ainda possibilita, a meu ver, os avanços sociais que o governo Lula garantiu até aqui.

Portanto, é nessa perspectiva que o manifesto que Chico Buarque encabeça, só me faz ter mais confiança nesta avaliação.

Redação Carta Capital

13 de outubro de 2010 às 17:30h

Documento, também apoiado por Leonardo Boff, Emir Sader e Eric Nepomuceno, defende união em torno da candidatura petista

Liderados por Chico Buarque, Leonardo Boff, Emir Sader e Eric Nepomuceno, um grupo de artistas e intelectuais divulga um manifesto em apoio a candidatura de Dilma Rousseff. O documento, que será entregue à candidata em um ato político no dia 18 de outubro, no Rio de Janeiro, defende a união de forças para garantir os avanços na inclusão social, preservação dos bens e serviços da natureza e a nova posição do Brasil no cenário internacional. Leia abaixo o manifesto.

Manifesto de artistas e intelectuais pró Dilma
Nós, que no primeiro turno votamos em distintos candidatos e em diferentes partidos, nos unimos para apoiar Dilma Rousseff. Fazemos isso por sentir que é nosso dever somar forças para garantir os avanços alcançados. Para prosseguirmos juntos na construção de um país capaz de um crescimento econômico que signifique desenvolvimento para todos, que preserve os bens e serviços da natureza, um país socialmente justo, que continue acelerando a inclusão social, que consolide, soberano, sua nova posição no cenário internacional.

Um país que priorize a educação, a cultura, a sustentabilidade, a erradicação da miséria e da desiguladade social. Um país que preserve sua dignidade reconquistada.

Entendemos que essas são condições essenciais para que seja possível atender às necessidades básicas do povo, fortalecer a cidadania, assegurar a cada brasileiro seus direitos fundamentais.

Entendemos que é essencial seguir reconstruindo o Estado, para garantir o desenvolvimento sustentável, com justiça social e projeção de uma política externa soberana e solidária.
Entendemos que, muito mais que uma candidatura, o que está em jogo é o que foi conquistado.

Por tudo isso, declaramos, em conjunto, o apoio a Dilma Rousseff. É hora de unir nossas forças no segundo turno para garantir as conquistas e continuarmos na direção de uma sociedade justa, solidária e soberana.

Leonardo Boff
Chico Buarque
Fernando Morais
Emir Sader
Eric Nepumuceno

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Paula Toller - Sonhos (Peninha)

Quando ouvi "sonhos" pela primeira vez, me senti invadido, parecia que alguém tinha entrado dentro de mim e descoberto meus sentimentos mais íntimos, parecia que estava sendo subtraído, que alguém estava arrancando meus pensamentos mais secretos, tamanha foi a sintonia entre meu estado de espírito e a música que eu ouvia, foi um momento ímpar em que alguém estranho e alheio completamente à minha vida conseguiu traduzir tão perfeitamente o que eu sentia.
A composição de Peninha é responsável por esse momento raro e insofismável. Na voz de Paula Toller, então, parece ainda mais mágica e lípida.


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Samba da Bênção (Vinicius de Moraes & Baden Powell)

Prólogo 

O Samba não é o meu ritmo preferido, confesso que o rock traduz melhor meu espírito, talvez pela época em que usufruí minha adolescência, em que éramos tão anti-nacionalistas, tão desesperançosos, tão críticos de nós mesmos, sem auto-estima, como na música do Ultraje a Rigor, nos sentíamos inúteis. Talvez também não seja nada disso.
Porém, alguns sambas são mágicos, nos tocam a alma, o Samba da Bênção é um destes, como não se emocionar com tais versos: “É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração”, uma verdadeira ode contra a depressão, um dos males deste século, ou então, como não reconhecer nestes versos uma verdade resplandecente: “A vida é a arte do encontro / Embora haja tanto desencontro pela vida”.

Viva o Samba!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A derrota de Heloisa Helena prova que ela estava certa




Sou simpatizante do PSOL, muito por causa da decepção que o PT me trouxe com sua pasteurização para chegar ao poder.

Nas prévias do partido para a eleição presidencial deste ano, é do conhecimento de todos, que houve um racha, e muitos acusaram Heloísa Helena por causa disso, pois ela se manifestou publicamente contra a candidatura de Plínio ao Planalto e defendeu a tese de que o PSOL deveria apoiar a candidatura de Marina Silva pelo PV.

Como se sabe, não foi levada em conta.

Pois bem, embora, valorize a história política de Plínio de Arruda, diga-se de passagem, um dos fundadores do PT, o grande PT da história, e não este da escória, inventada por José Dirceu; não creio que pudesse fazer mais do que fez, pois os conscientemente ativos ainda não tem representação popular, aliás a esquerda brasileira não alcança a grande população, seu discurso radical não é popular.
Ao contrário, a esquerda no Brasil teve que "evoluir" para chegar ao poder, teve que deixar de ser esquerda, nesses tempos em que radicalismo virou sinônimo de terrorismo, quando na verdade ser radical é ir à raiz do problema. É resolver os problemas, em suma.*

Bom, enfim, Heloísa Helena ficou isolada e lutou sozinha em Alagoas, um dos redutos tradicionais da podridão política brasileira, em que num mesmo pleito tem o desprazer de abrigar Renan Calheiros e Fernando Collor, só para ficar nos mais ímpios. Resultado: perdeu! Sofreu a cruel e desonrosa oposição de Lula que apareceu ao lado de seus adversários, foi taxada de radical (um verdadeiro crime, hoje em dia, ora bolas ser radical, para quê?, se temos Renan, Sarney... para nos representar)...

Talvez, se sua tese tivesse vencido teria o apoio de Marina e não seria presa fácil nas mãos das Toupeiras da política.

Lamentável.

E Lula participou dessa covardia, a história pode desmentir, mas essa mancha não será esquecida... pobre do homem que ganhou os céus, mas perdeu sua alma.



O dia em que me tornei uberlandense


Desde 1993 moro em Uberlândia.
Até ontem, 05 de outubro, não tinha ainda me identificado tanto com esta cidade e com as pessoas que vivem aqui.
Nunca fui assistir o Uberlândia no Parque do Sabiá, apesar de ser ainda alienado por futebol.
Confesso também que nunca havia me comovido pelas mesmas coisas que o uberlandense gosta, de modo que até então nunca havia, de fato, me tornado uberlandense.
Mas depois dos resultados das eleições, confesso batendo no peito que eu idolatro está pátria do Triângulo Mineiro: sou uberlandense!
As escolhas de meus compatriotas muito me orgulham: Anastasia não ganhou aqui, Pimental, foi o mais votado para Senador, João Bittar apesar dos Celtas nem passou perto, Baiano coitado, só na Bahia é alguma coisa.
Estou tão feliz, que hoje posso dizer, que alguma coisa acontece dentro de mim, que só quando cruzo a Duque de Caxias com a Cesário Alvim.

E Viva Uberlândia!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Quão bom seria... (link da fonte)


Mini utopias eleitorais



Milton Nogueira



4 de outubro de 2010 às 11:04h


Calma! Calma! Caro leitor, não fique triste com essas eleições, Tiririca e voto de protesto. Há outros modos de eleição que poderiam melhorar o Brasil. Eis alguns:


Diminuir o salário de cada vereador, deputado e senador a um pequenino salário-base. Mas, criar um salário adicional, calculado com base no desempenho para programas sociais. Para estimular o político a trabalhar mais junto às bases eleitorais, o povo. Poderia ser com base no número de votos obtidos.


Disponibilizar a vereadores, deputados e senadores o uso de detetor de verdade (uma espécie de detetor de mentira às avessas), durante discurso no plenário. O político poderia dispensar, mas….


Sortear uma mulher para cada câmara de vereadores, para aumentar presença feminina na política. Quantas vereadoras você tem em sua cidade?


Permitir somente duas reeleições (máximo 12 anos) para vereador e deputado. E uma reeleição para senador (16 anos). Para renovar idéias e evitar a mesmice de políticos nas casas legislativas.


Voto a favor, voto contrario – Cada eleitor votaria a favor de um candidato mas também contra outro que ele não queira. O saldo de cada candidato é que iria para a classificação final.


Caro leitor, você quer Tiririca?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Que todos os países respeitem os direitos humanos!


Pela ampliação da campanha de libertação
(não só da iraniana, mas de todos os que sofrem o mesmo tipo de condenação)

Reforço aqui a campanha em prol da libertação da Iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani condenada a apedrejamento por adultério, mas com uma diferença fundamental em relação a maioria das campanhas veiculadas pela internet, em que boa parte, intenciona apenas constranger o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (não que ele não mereça, me parece ser realmente uma pessoa desprezível, mas porque mais gente também merece) e por tabela (algumas campanhas) querem também constranger Lula*. Há outros governos e governantes que merecem a mesma campanha internacional, pois é fato há séculos que esse tipo de condenação ocorre em vários países islâmicos.

Nesse sentido, o apoio à libertação da iraniana vai com um desafio: por que não ampliamos a campanha para todas as condenações de mesmo tipo que ocorrem em outros países como, por exemplo, na Arábia Saudita? A resposta é simples: por que a Arábia Saudita é aliada histórica dos Estados Unidos, por isso também, se esquecem de que lá é uma ditadura (monaquia absoluta) e nem sequer tem eleições para que haja corrupção eleitoral (supondo realmente que houve corrupção) para se eleger presidentes deploráveis como o iraniano. A mensagem transmitida me parece límpida e clara: "aos aliados tudo, aos inimigos nada".



* Esta tese é fundamentada no seguinte argumento: grande parte da imprensa avaliou como desastrosa a intervenção diplomática para convercer Armadinejad na questão do desarmamento, mas considera que, contraditoriamente, ele poderia ser útil para libertar a iraniana, portanto, parece claro, que a maioria das campanhas objetiva apenas um novo fracasso na assim, já considerada fracassada campanha diplomática do presidente brasileiro.