sábado, 27 de outubro de 2007

Artigo: Economia Moral versus Liberalismo - um comentário crítico acerca do texto de E. P. Thompson

No texto: “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”, que compõe um dos capítulos do livro Costumes em Comum, E. P. Thompson desenvolve algumas hipóteses inspiradas em Marx. Nesse sentido, o livro tem uma ligação estreita com a Formação da Classe Operária Inglesa e com as Particularidades dos Ingleses, nestes trabalhos Thompson visa com suas críticas combater alguns pilares da ortodoxia marxista.
O principal era o que estabelecia uma correspondência direta entre infra-estrutura e superestrutura, cuja principal conseqüência para os estudos históricos era o reducionismo que via uma relação direta entre desenvolvimento industrial e consciência de classe. Noutra perspectiva, Thompson verifica que a consciência de classe não depende da formação de um partido, do desenvolvimento tecnológico e muito menos da ideologia comunista para conduzir esta luta de classes. Inversamente, é na luta de classes que se configura a consciência da luta e da classe e esta se dá no transcurso histórico de luta e não apriori ou de fora para dentro por intermédio de um partido ou de uma vanguarda revolucionária.
Esta primeira crítica combate a idéia de movimentos operários, aos quais eram considerados utópicos com um “nível de consciência inferior”, nestas análises reducionistas eram encaixados todas as revoltas pré-industrial, os socialistas ditos utópicos pré-1848 e mesmos os anarquistas. Tais movimentos eram preconceituosamente denominados turbas. Contra isso, Thompson inverte a perspectiva de que a classe operária é fruto do desenvolvimento industrial, pelo contrário, o que se verifica na Inglaterra do século XVIII, objeto histórico de Thompson neste texto, é que a classe operária está em formação desde antes da Revolução Industrial e que os operários de fábrica vítimas históricas dos cercamentos que os impuseram à venda da força de trabalho como única forma de sobrevivência são herdeiros da cultura popular que lutava contra as imposições do laissez-faire nascente que estava destruindo uma economia moral. Esta noção de Thompson conceitua as práticas culturais antigas que regulamentava os costumes, inclusive as relações de troca, evitando os açambarcamentos e possíveis usuras dos comerciantes. Entre outras coisas, aquilo que impedia moralmente os fazendeiros de venderem suas colheitas para intermediários, obrigando-os a irem vender seus produtos no mercado para que o preço não aumentasse com a inclusão de atravessadores nas transações comerciais.
Neste texto Thompson nos mostra que o estabelecimento do liberalismo se deu através de lutas e em confronto com uma prática cultural existente que
“... tinha como fundamento uma visão consistente tradicional das normas e obrigações sociais, das funções econômicas peculiares a vários grupos na comunidade, as quais, consideradas em conjunto, podemos dizer que constituem a economia moral dos pobres. Os desrespeitos a esses pressupostos morais, tanto quanto a privação real, era o motivo habitual para a ação direta”. [1]
Dessa forma, o que Thompson denomina de economia moral eram as práticas costumeiras de uma cultura que impunha que: “Os agricultores deviam trazer os cereais a granel para a praça do mercado local; não deviam vendê-lo enquanto ainda estivesse no campo, nem deviam retê-lo na esperança da elevação dos preços”. Tais costumes nos parecem hoje em dia absurdos, pois estamos tão inseridos e habituados com os imperativos liberais, que esses fatos se apresentam com uma tonalidade exótica. E aí está um grande problema, pois alguns historiadores em vez de investigar como se deu a transposição de uma economia moral para o liberalismo, já tomam este como natural, como uma organização inerente da sociedade. Havia um controle nos mercados que impedia os abastados de comprar antes dos pobres e a supervisão dos mercados também era uma proteção ao consumidor. Nesse sentido, as revoltas não eram meramente motins espontâneos gerados por épocas de más colheitas e fome e sim calcados numa cultura consensual que fora aos poucos sendo destruída pelas práticas mercantis liberais, mas não sem resistência e conflito advindo das revoltas das classes subalternas.
As práticas liberais foram sendo impostas gradativamente e, com isso, o mercado cada vez mais foi ficando menos transparente, pois os fazendeiros moralmente obrigados a venderem suas colheitas no mercado, burlavam os costumes e as vendiam para os intermediários, no entanto, para manterem as aparências iam assim mesmo ao mercado, e quando os consumidores chegavam diziam-lhes: “já acabou”. Outra prática que estava entrando em vigor contra a economia moral era o da recusa dos fazendeiros venderem em pouca quantidade, pois muitos já estavam vendendo toda a sua colheita antecipadamente para comerciantes.
Aos poucos também o governo que, baseado no direito consuetudinário que tendia a regulamentar as velhas práticas que estavam sendo burladas por comerciantes, fazendeiros e moleiros, começava a ser cada vez mais ambíguo em suas normas, pois a ideologia liberal já estava alcançando um status científico que garantia que o próprio mercado regularia a oferta e a procura e que em tempos de más colheitas, os altos preços garantiriam o racionamento dos gêneros evitando a fome, o que teoricamente seria muito bom para o governo. O mito da auto-regulação do mercado estava se tornando hegemônica.
Entretanto, o autor é consciente de que a economia moral a qual se baseavam as revoltas contra a carestia, a fome, o açambarcamento e os sujeitos históricos que impunham estas situações aos populares como mercadores, fazendeiros da gentry e moleiros
agiam segundo um modelo teórico consistente, esse era [porém] uma reconstrução seletiva do paternalismo, extraindo dele todas as características que mais favoreciam os pobres e que ofereciam uma possibilidade de cereais mais baratos.
Assim Thompson a seguir escreve:
Pois um aspecto a economia moral da multidão rompia decisivamente com a dos paternalistas. A ética popular sancionava a ação direta coletiva, o que era categoricamente reprovado pelos valores da ordem que sustentavam o modelo paternalista.[2]
Thompson nos mostra que os preceitos do liberalismo não poderiam ser comprovados empiricamente nas práticas comerciais do século XVIII na Inglaterra e para desmitificar o que, na verdade, se constituía como uma ideologia liberal da auto-regulação do mercado, ele escreveu:
Não deveria ser necessário argumentar que o modelo de uma economia natural e auto-reguladora, funcionando providencialmente para o bem de todos, é tão supersticioso quanto as noções que sustentavam o modelo paternalista – embora, curiosamente, seja uma superstição que alguns historiadores econômicos têm sido os últimos a abandonar. Em alguns aspectos, o modelo de Smith se adaptava mais acuradamente às realidades do século XVIII do que o modelo paternalista; e, em simetria e alcance de construção intelectual, era superior. Mas não se deve deixar de perceber o ar ilusório de validação empírica que o modelo contém. Enquanto o primeiro apela a uma norma moral – ao que devem ser as obrigações recíprocas dos homens -, o segundo parece dizer: “é assim que as coisas funcionam, ou funcionariam se o Estado não interferisse”. Entretanto, quando se consideram essas seções de A riqueza das nações, elas impressionam menos como um ensaio de investigação empírica do que como um excelente ensaio de lógica que se autovalida.[3]

Thompson assim é consciente de que a tradição paternalista também é ilusória na medida em que tais costumes se baseavam numa moralidade tradicionalista e demonstravam o medo pelo “novo” além de ser embutido de superstições de todo o tipo. Por outro lado, o liberalismo aparentemente obra do intelecto humano e de sua ciência mais desenvolvida, na realidade do século XVIII não poderia ser mais comprovado do que o paternalismo. A sua lógica, nesse sentido era uma construção ideológica que procurava romper com os costumes vigentes, até então, em benefício de uma classe ou de grupos que, com elas, ascendiam socialmente.
Quando consideramos a organização real do comércio de cereais do século XVIII, não temos à mão a verificação empírica de nenhum dos dois modelos [nem o do protecionismo da economia moral nem o do liberalismo]. Tem-se feito pouca investigação detalhada acerca do mercado; não há nenhum estudo importante sobre a figura-chave do moleiro. Até a primeira letra do alfabeto de Smith – o pressuposto de que os preços altos eram uma forma eficaz de racionamento – continua a não ser mais do que uma afirmação. É notório que a demanda de cereais ou de pão é altamente inelástica. Quando o pão custa caro, os pobres (como lembraram certa vez a uma observadora das altas esferas) não comem bolo. Da perspectiva de alguns observadores, quando os preços subiam, os trabalhadores talvez comessem a mesma quantidade de pão, mas cortavam outros itens nos seus orçamentos; talvez até comessem mais pão para compensar a perda de outros itens. De um xelim, num ano normal, seis pence seriam gastos com pão, seis pence com ‘carne inferior e muitos produtos da horta’; mas num ano de preços altos, todo o xelim seria gasto com pão. [4]
Tais documentos nos remetem ao problema de se considerar como lei natural as relações de mercado de oferta e procura, estas “leis” só são apreensíveis e inteligíveis no interior de uma sociedade, levando-se em conta as práticas culturais e os costumes dessa mesma sociedade. O caso do aumento do trigo concomitante com o aumento do consumo do pão, ao contrário, do que a “lei de mercado” afirmava, é emblemático porque nos permite evidenciar que os hábitos alimentares e os costumes da sociedade não estão à mercê das intempéries da natureza ou da ganância dos mercadores que escondiam o estoque de trigo quando o preço estivesse em baixa para vender em alta em um momento melhor, muito pelo contrário, estas práticas também são determinantes no contexto histórico.
Por outro lado, o que se percebe é que por trás da ideologia liberal defensora do livre-câmbio que garante um ambiente propício ao que pode lucrar mais sobre os que podem menos, é que há o predomínio marginal do monopólio entre os comerciantes que, detentores únicos de certas mercadorias essenciais, passam a controlar o preço dos produtos de primeira necessidade no mercado.
Assim, o liberalismo escamoteia o que seria o seu contrário, o monopólio. E torna-se além de uma ideologia também uma utopia, pois na prática ele não existe ou quando existe é um momento transitório, imposto por discurso ideológico, que transfere um mercado controlado pelo consenso moral de uma cultura há muito vigente para o controle de indivíduos que se enriquecem monopolizando o comércio dos gêneros essenciais à sobrevivência da população, como nos mostra a pesquisa histórica de Thompson.
E para além destes documentos o que todo defensor do liberalismo sonha é com o monopólio do mercado e a eliminação de seus concorrentes. Em um plano mais geral podemos constatar a luta dos países chamados emergentes na OMC contra os subsídios fiscais dos países ricos que sobretarifam os produtos primários importados que aportam em seus mercados consumidores. Os mesmos países ricos que impedem a concorrência de igual para igual entre os produtos primários são os mesmos que impõem o livre-mercado aos países “emergentes” para que seus produtos tecnológicos mais avançados entrem sem sobretaxa nos mercados alheios.
Portanto, o liberalismo é uma fachada que disfarça a luta intensiva pela instituição do monopólio pelo maior tempo possível. Em tempos imperialistas em que a tecnologia vai aos poucos eliminando a força de trabalho, que foi no capitalismo industrial a fonte privilegiada de lucro que se dava na produção, a criação de valor passa a ser obtida em outra esfera: no controle do mercado consumidor, por meio de leis protecionistas, de imposição tecnológica, enfim, pelo controle do mercado por parte das transnacionais. Mas este controle não ocorre à margem dos governos e sim por eles, através dos Estados e não sem a gerência deles, pelo contrário, quase tudo acontece via governo, ora escusamente ora por lei, obviamente submetido aos ditames das grandes empresas, os grandes patrocinadores das eleições. Em suma o dia que o liberalismo existir de fato e não apenas como ideologia que é um outro nível de realidade, nunca mais se gastará tanto nas eleições, e o governo será, se existir, apenas um chefe de Estado de luxo tal qual a monarquia inglesa. É por vias legais e governamentais que as regras de mercado, supostamente auto-regulado, se concretizam. Assim, o Estado tão rejeitado pelos papas do neoliberalismo é o canal privilegiado por onde passa os ditames de mercado e por onde são legitimadas suas práticas. É por isso que o neoliberal é um defensor da democracia, pois por meio dela se legitima práticas antidemocráticas e em vez de combater tais práticas, troca-se os governos e mantém o regime que as legitima, pois na democracia o culpado é sempre o povo que escolheu errado, que deu “azar” nas cartas que escolheu para jogar num jogo que as cartas já são marcadas e as regras já estão dadas e que, portanto, dentro delas, jamais se mudará o jogo. Precisaríamos virar a mesa e impor um outro jogo em que as regras seriam ditadas por nós.
[1] THOMPSON. “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. In: Costumes em Comum, p. 152.
[2] THOMPSON. “A Economia Moral da Multidão Inglesa no Século XVIII”. In: Costumes em Comum, p. 167.
[3] Ibdem, p.162.
[4] Ibidem, pp. 162-3.

domingo, 21 de outubro de 2007

Artigo: Entre o Mito do Partidarismo e o Niilismo do Abstencionismo

Estamos vivendo hoje a pior decepção da esquerda brasileira. Decepção porque o declínio das idéias e práticas da esquerda no Brasil se deve unicamente as estratégias e alianças mal-sucedidas, sem falar nos inúmeros fatos que nos envergonham na história recente do PT.
Sabemos que a fundação do PT trazia uma nova esperança para a política de esquerda no Brasil, porque abria um novo espaço de luta na política brasileira onde os trabalhadores nunca tiveram chances reais: a via eleitoral.
Nesse sentido, o PT surgiu sob o influxo do insucesso do “castrismo” brasileiro, da desarticulação das esquerdas pela repressão bem sucedida imposta pelas forças contra-revolucionárias que tomaram o poder e, claro, de uma base sólida formada pelo operariado do ABC.
A estratégia eleitoral do PT, diferentemente, das incursões mal logradas de antes, tinha justificativas bastante coerentes que eram a abertura política, a luta por eleições diretas e, como foi dito, a falência da estratégia de guerrilha em um país continental como o Brasil.
Em finais do século XIX, socialistas brasileiros já defendiam a via eleitoral, mas contra eles havia uma série de ocasiões que inviabilizavam tal organização. A primeira e mais geral era a característica do liberalismo autoritário brasileiro que na época republicana impossibilitou uma adesão mais frutífera a candidatura de representantes operários, entre outros fatores, pela pouquíssima e quase nula representação partidária no Brasil que, em média na Primeira República, o número de eleitores girou abaixo de 5%, menor do que os anos do Segundo Reinado antes da reforma eleitoral de 1881.
Este foi um dos motivos que fez do anarquismo uma força entre os operários brasileiros, pois a ação direta era uma estratégia muito mais eficaz e convincente que conseguia assim uma maior adesão, dando aos anarquistas a hegemonia da organização operária em praticamente toda a Primeira República, sofrendo uma gradativa perda de influência a partir da repercussão do sucesso da Revolução Russa no Brasil, que teve o apoio quase que unânime dos anarquistas e acabou por favorecer a fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922, com a participação de ex-libertários como Astrojildo Pereira.
Embora, a fundação do PCB tenha sido um momento marcante na história do operariado brasileiro, ele esteve longe de garantir uma participação popular importante na política brasileira, porque, entre outras causas, o contexto político no Brasil era marcado pelo coronelismo e pelo voto de cabresto. O Brasil ainda era um país de economia agrária e apesar da preocupação do PCB com os camponeses, a sua organização centralizada e restrita aos grandes centros urbanos impossibilitava a mobilização do campesinato que se distribuía separada e irregularmente pelos Oito milhões de km2 do território brasileiro.
Diante de tais dificuldades o que restou foi a aliança a uma pequena burguesia que pouco ou nada sabia das práticas e ideais socialistas.
Por outro lado, logo que o Partido Comunista conseguia algumas vitórias singelas nas urnas como a eleição de alguns deputados, os governantes brasileiros, com o pretexto de defesa da soberania nacional e acusando o PCB de ser uma organização estrangeira comandada por Moscou, tratava de cassar os mandatos dos candidatos comunistas e de colocar o Partido na clandestinidade.
A partir de 1964, com o golpe contra-revolucionário, as esquerdas foram desestruturadas pela repressão violenta e foi obrigada a se entrincheirarem-se na luta armada dos vários grupos guerrilheiros que se formaram no Brasil, marcados mais pelo desespero e heroísmo do que pela possibilidade prática de tomar o poder no Brasil.
Com o morticínio e a derrota imposta pela Ditadura a estes grupos e com o crescimento industrial do ABC, espontaneamente foram surgindo uma organização de base que possibilitou a criação de sindicatos fortes e a fundação do PT, assim, como a Central Única dos Trabalhadores que reunia os sindicatos combativos que eram a base do Partido dos Trabalhadores.
Foi assim que a partir dos anos 80, a esperança das idéias e práticas de esquerda no Brasil voltou a estar representada na estratégia eleitoral de um Partido. E 1989 talvez tenha sido o episódio mais intenso e dramático que poderia ter mudado os rumos do Brasil, num momento único em que a direita brasileira pulverizada em vários partidos e imbuída pela ambição das facções de tomarem para si o bolo inteiro do poder permitiu a ascensão de um até então desconhecido ao segundo turno para enfrentar o representante único de toda a esquerda Brasileira: Lula.
Foi nos acréscimos do segundo tempo que a direita percebendo seu erro, se aliou ao ilustre desconhecido e utilizando de todos os meios legais e ilegais conseguiram retomar as rédeas do jogo e dar a vitória a Fernando Collor. Daí para frente nas outras eleições, o Lula de 89 foi sofrendo mudanças e adequações até chegar ao Lula comestível e aceitável pela direita brasileira de 2002.
O ano de 2002 representa ao mesmo tempo a eleição de um ícone da esquerda brasileira e a maior derrota desta mesma esquerda, porque, por outro lado, representa também a suprema hegemonia da direita que consegue manter a sua diretriz econômica e política em um governo dito de esquerda. Em outras palavras, a esquerda representa a direita no poder porque foi assimilada pela direita e utilizada por ela para conseguir a legitimidade política que os governos FHC haviam perdido.
Mais uma vez em nossa história, a organização partidária revela uma desconfortante ilusão, pois sua fácil assimilação pela direita revela aquilo que os anarquistas cansavam de alertar em seus congressos e mais tarde com a fundação do Partido Comunista foram execrados por isso, a idéia de que os trabalhadores jamais podem ser representados por uma regra do sistema que os exclui, que os explora. É urgente a necessidade de inventarmos um novo jogo para lutar pelo poder. As eleições apenas encenam romanticamente a violência cotidiana imposta aos oprimidos. A eleição nesse sentido é a teatralização da opressão sob o disfarce da representação partidária.
Em suma, um mito que precisa ser desmitificado para que possamos fazer frente ao poder que nos oprime de todos os lugares não estando em nenhum lugar em específico. Estamos lutando contra o inimigo com as próprias armas que ele criou. Toda a vitória que conseguirmos não passa de um fingimento que ele nos impõe. As armas que eles nos dão, é óbvio, não podem atingi-los. Essas armas são as eleições pseudodemocráticas. Votar é um auto-engano e como cantava o poeta, Renato Russo: “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”.
Estamos entre o niilismo da defesa do abstencionismo eleitoral e a ilusão do partidarismo como possibilidade de representação dos interesses populares. Nem um, nem outro nos serve, devemos buscar nova alternativa urgentemente.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Artigo: O porquê de eu preferir os punks aos rippies. E o que Marx tem a ver com isso!*




Anos 60. Era de Aquário, no horizonte irradiavam perspectivas de mudanças. O rock não era só música, eram socos desferidos no sistema. Nunca a juventude fora tão engajada. As drogas tinham outros sentidos, um deles era o de buscar novos horizontes, novas percepções, criar um mundo novo com paz, amor e liberdade. Era o tempo em que se levássemos tapas, dávamos beijos. Era nossa maneira eficaz de combater a violência, a guerra que imperava num sistema em que as mercadorias valiam mais do que os seres que as produziam. Por isso fazíamos nossas próprias roupas e nos alimentávamos de comidas naturais. Contra a guerra, na época a do Vietnã, íamos para as ruas dizendo faça amor não faça guerra. Um dia, no entanto, uma das nossas mais eloqüentes vozes disse: o sonho acabou. E a guerra continuou. Os festivais passaram a ser pagos, o sistema passou a assimilar os protestos e devolvê-lo em forma de mercadorias. O rock, as roupas já não tinham o mesmo sentido, perdera a integridade. Nossos ícones, os que não morreram de overdose e de desilusão, viraram grandes empresários, celebridades do show business. O colorido revolucionário se findara. O lema paz e amor, já não dava mais certo, não tinha o mesmo impacto...
Com a crise do petróleo, a queda da máscara do bem estar social, com as mortes de Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison, o escândalo de Nixon, a continuação da guerra do Vietnã..., formaram-se nuvens negras que cobriu todo o globo terrestre, esses foram os anos 70. Dos subúrbios abandonados surgiram ratos e baratas que passaram a causar estranheza e asco aos olhos dos habitantes limpos e chiques, acostumados ao chá das cinco ou a passearem de veleiro pela orla da praia. – Quem são essas pessoas esquisitas? – perguntavam. Ao contrário de roupas largas e coloridas, cabelos grandes e gestos pacíficos; usavam trajes negros com pontas de pregos e cadeados pendurados no pescoço, não discursavam e seus gestos eram agressivos, os cabelos pontiagudos pareciam quererem espetar o céu, um gentleman não poderia vê-los sem vomitar. Eles eram o lixo, punks, o resto da riqueza de poucos que começara a transbordar, eles não cantavam, eles berravam, eles não dançavam, eles lutavam. E o velhinho chamado capitalismo ficara tonto sem saber o que fazer, não dava para assimilá-los e depois vendê-los, por natureza, eles eram impermutáveis. Eles não pediam paz, eles queriam guerra, não pediam bom senso ao sistema, ele queriam destruí-lo e não tinham sonho, eles pisavam em chão de concreto e viam a realidade, no future era o que diziam, e diziam de uma maneira muito especial que era impossível não ouvir...
Nos tempos de Bin Laden, no vácuo deixado pelo Word Trade Center, a mensagem dos punks continuam mais do que atual, diria, imprescindível. Punks de Genova e de Seatle, os inimigos nº 1 do G8. E por quê?
Atualmente, os olhos de qualquer pessoa lúcida se encontram fatigados de ver tanta imbecilidade e falsas comoções. Passamos todo o século XX vendo desgraças atrás de desgraças: Duas Guerras Mundiais, Guerra Fria, Guerra do Vietnã, Guerra do Golfo, da Bósnia, só para ficarmos em algumas das guerras declaradas, sem falarmos do morticínio africano, dos países abaixo da linha de miséria, vítimas de um sistema desigual e excludente que separa cada vez mais os extremos. Parece que nos acostumamos com as mortes dos miseráveis, não obstante, quando quem morre são os donos do poder, aí sim nossa comoção tem que ser evidenciada, torna-se até uma norma de etiqueta, extremamente necessária e recorrente.
Nesse momento aparecem os shows beneficentes, os apelos indignados e exortações em prol da paz, tudo isso enoja qualquer possuidor de um estômago ético. Clamores pela paz? Mas se das nossas relações sociais só advém ódio, intolerância, ignorância, fundamentalismos, tanto ocidental, quanto oriental, pedir paz é demagogia barata. Os executivos que morreram (eu sei não foram só executivos, havia também trabalhadores) no atentado merecem comoção sim, mas não mais que as criancinhas africanas que morrem de desnutrição há décadas.
Podem dizer: não há explicação para pessoas que se matam para matar outras pessoas. Será que não? Será que morrer de uma só vez acreditando ou não que tal fim leva a vida eterna não é mais sedutor do que morrer de fome vendo a miséria de seu povo? É preciso evitar os julgamentos apressados, aliás, se não tivemos a experiência da miséria, da degradação humana, estado esse em que é impossível ser ético, dever-se-ia evitar os julgamentos, os discursos morais; quem nunca passou fome, ou viu seu filho morrer à míngua sem nada poder fazer não deve pensar que é um absurdo morrer com uma bomba amarrada ao corpo.
Não estou defendendo os grupos fundamentalistas, longe de mim, mas também não posso digerir essa demagogia podre proliferada pela CNN. Não cabem mais canções pacíficas e bandeiras brancas cobrindo os bombardeios a um povo sem perspectivas, não se pode esconder que o terror começou no dia seguinte do atentado ao Word Trade Center, o terror vem do ocidente, não do oriente. E o brado que devemos proclamar não é melodioso e nem suave, é agonizante e estridente.
É por isso que eu prefiro os Punks aos Rippies.
Evidente que cada um cumpriu seu papel histórico e foi a resposta política mais eficaz em seus tempos, no entanto, a conjuntura atual merece um enfrentamento na mesma proporção, a estratégia tem que ser também a guerra, guerra ao verdadeiro mal que nos corrompe... O momento pede punhos fechados e não a paz ideológica.
E o que Marx tem que ver com isso?
Não é preciso ser um gênio para descobrir que o verdadeiro interesse dos EUA não é caçar os responsáveis pelo atentado do Word Trade Center, Bin Laden e Cia., aliás, isso ainda nem foi provado. Basta sabermos que os patrocinadores da campanha pseudovitoriosa de Bush (pois quem ganhou por larga vantagem foi Gore), foi a Indústria Bélica estadunidense, somado a isto, acrescentemos a crise de superprodução mundial (recessão), e teremos bons motivos para crermos que a invasão ao Afeganistão e, a seguir ao Iraque, além de ser a ocupação de territórios geopolíticos estratégicos, trata-se de um reaquecimento da economia mundial. O atentado terrorista, nesse sentido, foi apenas um álibi, um fator legitimador para o que veio a seguir. Resta apenas esclarecer se tal atentado foi obra realmente da Al-kaeda o que, sinceramente, chego a sentir arrepios de dúvida, pois é tão favorável ao neoimeperialismo estadunidense que não seria improvável um acordo tácito entre Bush e Osama. Lembra-se do Rambo III? Foi a CIA que treinou Bin Laden.
Numa economia capitalista em crise orgânica, no caso recessão, que se trata de mercadorias em excesso no mercado. A pergunta a ser feita é por que e como ocorre o excesso? Por que produziríamos mercadorias sabendo-se que não há consumidores para elas? Primeiro, nem sempre podemos saber, pois a economia segue as leis de mercado e não a necessidade real dos consumidores, aliás, necessidade deixou de ser, há muito tempo um indicador de consumo. É a produção que cria o consumo e quase sempre o consumido não é necessário. E a produção não é pensada racionalmente, como disse acima, é regida pelas leis de mercado que seguem uma única regra: a do lucro.
O lucro, por sua vez, tem que ser sempre aplicado na produção ou no mercado especulativo, mas tem que ser aplicado, tem que virar capital. Como sabemos, graças ao vovô Marx, o lucro advém da força de trabalho, assim com o progressivo avanço tecnológico, as máquinas, cada vez mais, ocupam o lugar do homem na produção, mas não é possível extrair mais-valia das máquinas, se pagam por elas o real valor, conseqüentemente, quanto menos trabalho humano na produção, mais desemprego, mais miséria, menos consumidores, mais mercadorias e menor a taxa de lucro. O lucro advém do trabalho humano explorado, as máquinas não podem ser exploradas, se pagam por elas exatamente o que elas produzem, conseqüentemente, a exclusão aumenta em igual proporção em que as mercadorias se acumulam. É uma contradição inerente do sistema capitalista que gera a falência das empresas pequenas e médias que perdem na corrida tecnológica para os grandes oligopólios e são compradas por estes que, passam, assim a conseguir o lucro na comercialização de produtos exclusivos (monopólio) ou através de acordo firmado entre as grandes multinacionais (cartéis). Garante-se, desse modo, uma margem alta de lucro (diferentemente da taxa de lucro que decresce). Tal perspectiva debilita ainda mais o poder de compra do consumidor limitando ainda mais o mercado até chegar à superprodução.
Nessa etapa há duas escolhas preponderantes: ou se efetiva uma transformação social e econômica radical, mudando os rumos da economia, da perspectiva do lucro, para o das necessidades efetivas ou se faz uma destruição do excesso das mercadorias, destruindo-as da maneira mais lucrativa, eliminando o excedente, injetando sangue novo (e inocente) no mercado com a guerra. Perdoe-me o trocadilho, mas foi inevitável, ao contrário da guerra que seria sempre evitável em uma economia que visasse o bem estar de todos, que fosse racional. Todavia, em uma estrutura social onde impera o lucro e a irracionalidade do mercado, as guerras serão sempre válvulas de escape da crise, conseqüência necessária para a manutenção de um sistema irracional e injusto, dir-se-ia o maior terror que pode haver, um terror camuflado de bandeiras brancas e lenços úmidos visto por milhões de pessoas nos veículos de comunicação, vide CNN, BBC e Globo.
É nessa perspectiva que defendo as ações anarquizantes dos punks. As atitudes que não são niilistas e que provém de uma juventude consciente de seu papel atual na sociedade, uma parcela da sociedade que ainda não foi contaminada pelas desilusões das gerações passadas, e talvez consista no único combustível desse novo milênio capaz de reacender a chama revolucionária há muito extinguida. Não bastam reformas parlamentares, trocar candidatos de direita pelos pseudoesquerdistas, é só vermos o caso inglês. É preciso destruir as estruturas carcomidas desse mundo e construir um novo. E para galgarmos esse novo horizonte, os gestos de paz e amor terão poucos resultados satisfatórios, é preciso cerrar os punhos e entendermos que a introjeção do lema faça você mesmo é mais eficaz do que esperarmos as próximas eleições ou a justiça de um mundo alicerçado em injustiças.

* Publicado on line originalmente no espaço para artigos do site da Caros Amigos no final de 2001, logo após e ainda sob o impacto do Atentado do 11 de setembro. Posteriormente também (15/09/2007) publicado no blog: http://www.clioedionisio.blogspot.com/

domingo, 14 de outubro de 2007

Conto: O Vômito do Ser


O Vômito do Ser

01: 30.
A noite engolia a cidade enxugando o resto de luz artificial que pingava dos postes. Passo por passo o caminho de braços abertos convidava Daniel para seu destino. Mas será que há um destino? Será que, mesmo sem Daniel saber, seus passos já estavam escritos? Sua mente cansada se esforçava por manter o raciocínio, mas logo preocupações mais iminentes como a de não cair no meio da rua lhe exauria o esforço. O que ele sabia era que tinha que tomar uma decisão. De um lado para o outro ele tentava vislumbrar o que havia a frente, mas a noite pouco a pouco, intermitentemente, sorvia as luzes raras que cobria o céu.
Envolto na indecisão, lembrava-se de um dia em que as coisas pareciam mais fáceis. Onde em um quintal brincava esquecido com seus amigos imagináveis. Ele sempre era o centro das atenções, sempre ditava as regras. E agora tudo lhe parecia diferente, estranho, sem controle. Nem seus próprios pés ele comandava. Nesse instante ele pensava em Deus. Um Deus que para ele já teve várias faces, que lhe abandonou quando mais precisava. Depois desse dia, se lembrava como se fosse hoje, ele também abandonara Deus. Deixara de ir às aulas de catecismo para jogar bola.
Sob as negras folhas de uma árvore, Daniel pára, e se percebe, nesse instante, um sorriso minguante em seus lábios trêmulos. Em sua memória aterrissou a lembrança do golaço que fizera e do abraço de seus companheiros comemorando aquele momento, um dos raros instantes de sua vida em que tudo parecia estar bem. Mas era só um gol, tudo bem, um gol bonito, mas apenas um gol. Um dos grandes problemas do ser humano... Ele não sabia, não tinha a menor idéia dos problemas do ser humano, ele sabia de seus problemas e apenas isso, ele sabia que um dos seus grandes problemas era condensar as expectativas de sua vida num momento bom, mesmo que este fosse supérfluo, enganando-se em pensar que tal momento poderia obliterar suas frustrações. Não se podia camuflar as desilusões, os fracassos pessoais. Melhor seria se não fizéssemos planos, se não sonhássemos, assim não haveria frustrações e desempregados estariam os psicanalistas. Mas seríamos humanos se assim fosse?
O sorriso que brotava de seu rosto, era a recordação de que poderia ter sido um grande jogador. Será? Sua mente caprichosa e desafiadora, mesmo lenta colocava mais lenha na fogueira de seus sentimentos. O chão parecia mais duro ao engolir em seco essa indagação, essa contestação. Sua mente, para equilibrar suas as ações, movida pelos últimos resquícios de orgulho próprio, propugnava: se não fosse aquela contusão teria sido um grande jogador, e hoje estaria na seleção. Mas que contusão, que medo de jogar e de machucar de novo, não havia contusão nenhuma. Era apenas uma autodefesa do seu espírito frente a mais um fracasso. Faltaram-lhe coragem, decisão e discernimento. O medo do novo, da visita que chegara e que lhe perscrutava com olhar curioso. A timidez em lhe dar com o inédito equilibrava a ânsia por companhia. Estava cada vez mais próximo da solidão, e isso o consolava, pois a solidão não o deixara só, lhe abraçava calorosamente como se tivesse mil braços. A solidão lhe aquecia e jamais o havia abandonado.
Os caminhos da sua vida se davam pela indecisão que o impedira de agir no passado, deixando se levar pelo vento como uma pipa que rebentara o barbante e ficara perdida flutuando esperando o momento de cair. A dúvida que o consumia, também era responsável por estar parado ali, embaixo da árvore, a qual suas folhas eram como cabelos negros que prostrava em seus ombros combalidos, não da luta, mas do arrependimento de ter fugido à luta.
Os mesmos cabelos negros que no decorrer de seus 14 anos, fazia-no freqüentar as festinhas no intuito de ganhar o direito de um beijo de despedida, o pagamento ao rapaz por levar a menina em casa. A prematura sujeição feminina ao homem, transparência de um mundo machista e paternalista, que forja mulheres que só se reconhecem enquanto tais, pelo que consegue com os homens. Em troca recebem pela sua sensualidade, a solicitude de um macho que fora naquele momento conquistado. Aos poucos, ele remontava os fragmentos de sua vida dando-lhes um formato enleado e esdrúxulo, motivado pelas circunstâncias extremas que experimentava naquele momento. Assim, na lembrança do gol também tinha os abraços de seus amigos, e mais do que isso, o que sentira de diferente daqueles abraços. Era estranho até então não havia lhe ocorrido tal manifestação de carinho, a não ser de sua mãe. Daniel não tinha pai, apenas mãe. O que sentira fora algo novo, não sabia explicar, faltava-lhe experiência para poder discernir sobre aquilo quando lhe ocorrera. Foi a primeira vez que outro ser humano, excetuando sua mãe, lhe abraçara daquele jeito. E fora um homem, e isso lhe fizera bem, se sentiu protegido. A partir daí, tudo ficara mais complicado. Ele não podia sentir aquilo, os costumes ditavam as regras e aquilo que sentira não era certo, ele aprendera. E por isso, arranjou uma namorada, o que fez com que esquecesse, pelo menos aparentemente, e isso lhe foi suficiente para o manter enganado até o dia em que descobriu que o ser humano não tinha sexo. Apenas uma marca biológica que não era determinante, e era facilmente suprimida pelo desejo. Até mesmo no escuro da rua onde Daniel se encontrava agora, seu olhar ainda mostrava o temor de que houvesse alguém para ouvir seus pensamentos, o mundo como um todo ainda não estava preparado para absorvê-los.
Alguns metros para frente, com passos trêmulos e indecisos ele se voltara para trás e percebera que os cabelos da árvore que dava um tom mais negro ainda à rua, não estava mais sobre seus ombros tal qual a lembrança de seu primeiro beijo que também fugira de sua mente. Primeiro ou aquele que seu espírito quisera que o fosse, porque agora se lembrava. Em verdade, o primeiro fora com alguém que lhe causava repulsa hoje em dia. Alguém que lhe ferira. A mente filtrara, portanto, o que seria incômodo no futuro, o que lhe doía ao pensar. A mente tem também essa utilidade. Perplexo com mais essa descoberta, ou melhor, com a revelação daquele outro ou outra que constituía seu ser, ele, não sem esforço, mas recompensado pelo alívio de não ter mais que sustentar seu peso, assentara-se. Entre seus pés e o paralelepípedo escorria o esgoto da chuva.
Nesse instante, fizera um esforço para se lembrar de quando chovera, não conseguira, então desistiu. Lembrou-se, no entanto, do esgoto, não daquele que molhava levemente o calcanhar de seu tênis, mas o de outro mais distante há uns quinze anos atrás quando ainda morava em uma favela em Belo Horizonte. Toda manhã ao acordar ficava brincando de jogar pedrinhas na fétida vala por onde passava aquela água barrenta, cheia de V separava a rua do seu minúsculo quintal. A madeira podre dos barracos a sua volta deixava a sua humilde casa de tijolos sem reboco com ar de superioridade sobre as demais que, eram, em grande parte, constituídas de madeira podre. Ele crescera numa favela.
Quando ainda criança não se importava, mas agora tinha uma vergonha terrível. Talvez fosse porque ainda não estava contaminado pelos valores sociais que fazem com que aqueles que não têm passam a desejar e admirar aqueles que têm. E também porque agora não morava mais em uma favela. Ainda um dia desses se lembrara que desligara a televisão porque só estava passando programas de fofoca, estava louco para saber do último adultério, mas se conteve. Mudando o rumo do seu pensamento que ainda se ligava por uma linha fina à idéia anterior que já quase havia se esquecido, pensou: se não fosse a televisão já teria ocorrido a revolução. Com as mãos em forma de concha subiu-as até a testa puxando levemente seus longos cabelos lisos para trás, lembrou-se num átimo de segundo que teria que cortar o cabelo, mas logo voltando ao que pensava, sorriu ao recordar do tempo em que era anarquista, de sua luta, de gabinete é verdade, pois era misantropo, era o único do minúsculo grupo de seguidores de Bakunin que nunca participava de nenhuma passeata. Num dia estava preparando os cartazes de protesto contra a articulação dos estudantes que estava sob o controle do partido comunista; quando, de repente os companheiros chegam, cheirando a sangue coalhado, cuspindo palavrões, uns aos berros, outros chorando miúdo como crianças por falta de colo. Nesse dia, decidira sair da facção, não se lembrava agora, se por escolha própria, por sentimento de culpa de não ter apanhado da polícia também como seus amigos ou se fora, na verdade, expulso. Sorrindo desgraçadamente lembrou-se: fora expulso.
Em sua cabeça ainda havia uma mão comprimindo seu cérebro, não sentia nada em seu corpo, apenas seu estômago que parecia um mar em revolta, e o que havia nele era como barquinhos frágeis à deriva preste a submergir, mas contrariando a metáfora, os barquinhos frágeis, ou melhor, sua última refeição emergiu de seu estômago como se tivesse gravado a queda de uma cachoeira e agora estivesse voltando à fita e vendo a cachoeira subir até transbordar para fora da boca.
O vômito pintara de creme a água que passava molhando seus calcanhares. Foi um alívio. Lembrara agora o porquê de estar ali naquela rua desconhecida, qual uma flor que balança ao vento e aos poucos vai perdendo suas pétalas, seu encanto. Estava fugindo, fugindo de tudo. Tentava a todo o tempo dar um sentido para sua vida, queria ser jogador de futebol, falhara. Queria ser vocalista de uma banda de rock, falhara. Queria ser jornalista, falhara. Queria ser economista, falhara. Queria estar junto a quem mais gostara na vida, a pessoa que tinha o beijo mais delicioso que já provara, mas, mais uma vez desperdiçara a chance. Paulo Coelho estava errado, o próprio sabe que está, mas afinal de contas foi mentindo que saiu do buraco, então é compreensivo, além do mais, a mentira o fez vender muitos livros, quase um milagre se tratando de Brasil. Mas aquela balela de dizer que é só acreditar em seu sonho, ter força de vontade e perseverança que o mundo conspirará a seu favor não enganava mais Daniel. Sentira na pele os percalços pelos quais teve que passar na vida e sabia do preço que tinha que pagar para continuar vivendo sem sonhos, e sem sonhos sabia que nesse mundo não era possível todos se darem bem. A pobreza até certo ponto é o alimento dos ricos. E se sentia comido, completamente degustado, mas rejeitado e cuspido em seguida. Ele fora cuspido, como um caroço de uma fruta, essa era a conclusão que chegara. Fora cuspido. E muitos são todos os dias também, cuspidos.
Estava agora ali sem saber ao certo onde estava. Seu vômito desaparecera na corrente d’água que já era nitidamente mais fraca, não foi apenas comida que lançara, vomitara também sua vida.
E agora ela descia com o esgoto da rua se espalhando por entre os outros detritos. Para onde sua vida estaria indo?
O desespero na ausência de lucidez subira por todo seu corpo dominando seu pensamento, que estava agora refém de seus medos. Seus estatelados olhos antecipavam sua ação. Cambaleante, mas incrivelmente rápido Daniel se pusera de pé e saíra correndo atrás de sua vida. Chegando à próxima esquina concluiu que só poderia ter descido rua abaixo tal qual o esgoto que por ali também seguia.
Não podia mais distinguir entre a sua vida e o esgoto fétido que por ali escorregava. Daniel então apavorado pela iminência de perder-se da vida, corria, corria desesperado ele corria. Já se enxergava a esquina à diante, quando já cansado e transpirando a álcool diminuíra o ritmo. Nesse instante, uma sinfonia vagneriana feita de luzes e sons, alcançou os acordes mais altos, finalizando com o estrondo de seu corpo ao chão.
O som alto de um carro pára rente a Daniel, dos bancos dianteiros descem pés cambaleantes e indecisos. Daniel ouve em forma de ruídos ininteligíveis vozes nervosas discutindo o que fazer, o dono dos pés mais trêmulos entra no carro seguido dos demais. No som do carro a música daquela noite em que transava no chão do seu quarto, com quem é, hoje, a dona de seus segredos mais íntimos e que seria conforme os sussurros no ouvido e as promessas daquela noite a mãe de Joshua e Jennefer, que ainda não havia nascidos, mas já tinham nomes, nomes que é só o que restava para Daniel nesta noite, que descobrira que a mãe de seus filhos casara com outro, antes mesmo de seus filhos nascerem. A mãe de seus filhos... Mas também a mãe de seus sonhos, sonhos que foram sonhados juntos e que não fazem mais sentido em sua solidão.
Qual o sentido que a vida pode ter quando os sonhos não se tornam realidades? O homem é aquilo que sonhou ser. Para continuar sonhando, para continuar vivendo, entretanto, é necessário que os sonhos se realizem, é imprescindível acreditar no ato de sonhar. A vida também é feita de sonhos, sobretudo, é feita da crença de que eles um dia vão se realizar. O que acontece então quando não mais se acredita nos sonhos? Quando não mais existem caminhos a escolher? Quando nada mais importa... E quando nada mais importa é o sinal de que nada mais existe. Tal pensamento germinava na mente cansada de Daniel e desaparecia no mesmo instante, e os poucos segundos de reflexão era uma mistura de razão, emoção, dor e solidão que batida no liquidificador dava origem a uma cornucópia de enigmas. Porém, a lembrança dela não lhe saía do pensamento, era uma imagem que se destacava perante a bagunça de sua mente.
A sua consciência como num último suspiro tentou-lhe consolar, então pensou: no mundo atual é melhor não ter filhos mesmo. Foi uma tentativa em vão, porque mesmo enaltecendo o que não tinha tanta importância tentava lhe ocultar o verdadeiro trauma: a culpa por ela não estar mais ao seu lado, a falta imprescindível que ela fazia naquele momento de dor, em que deslizava por um escorregador de lâminas caindo num poço de álcool. Foi esse itinerário de racionalidade que descobriu: a mente é consciente até em sua inconsciência. Ela revela apenas o que quer, quando quer, conscientemente, fingindo inconsciência. Como um bêbado que não assume o que fez com o pretexto de que esteve alcoolizado. E Daniel sabia muito bem disso.
Mas, foi então que descobrira com o som dos pneus rangendos que se sobrepunha sobre a canção que fertilizou sua memória lhe proporcionando, tal qual a um jato de gozo, a recordação daquela noite: “With or without you, With or without you...” Com ele ou sem ele não importava mais, nada mais importava, ele estava ali estirado no chão dobrado feito um guardanapo que se limpa o nariz sujo de sangue e depois se joga fora. Ele estava ali jogado fora.
Bravamente correra atrás de sua vida, mas não a alcançara. E a bravura nesta corrida existencial não era recompensada. Aflito pensava onde poderia estar ela uma hora dessas. Talvez e o mais provável é que estaria nas galerias junto ao esgoto fétido, junto às dejeções de onde não mais podia separá-la. Nessa galeria de um marrom pútrido, Daniel dançava com ela, a pessoa que mais amou, e nunca foste corajoso de confessar, nem para si mesmo, o quanto amava aquela mulher. A sua própria vida...
Agora, entanto, não importava, já não estava mais jogado à rua, sua vida não estava mais perdida no esgoto, o osso de sua perna não rasgava mais sua pele frágil. Ele só ouvia a boa voz do Irlandês, e ao som da música dançava flertando com o amor, que nunca conhecera, mas o desejava ardentemente.
Embriagado e entorpecido, não sentia dor, não sentia nada, e já era quase o nada. Apenas pensava, delirava ao som da sua memória que ia, como se atendendo ao seu último pedido, pescando as recordações boas. Quando, de repente, a sua volta se aproximaram pés curiosos e olhos que se fecharam e recuaram horrorizados que estavam pelo o mau gosto da estética surreal que viam. Daniel então, exausto, num instante em que abrir os olhos lhe custava muito, acordou. As bolas de seus olhos espantadas percorreram o horizonte, não estava mais dançando, a dor voltara, percorria todo o seu corpo, o desespero também voltara, sua vida estava indo embora esgoto abaixo e já não tinha forças para correr atrás dela. Alguém então sensível a sua afobação se aproximou e lhe pediu calma dizendo-lhe que estava chegando o socorro.
Daniel com grande esforço sentindo já os ossos perfurarem seu pulmão dizia, esganiçadamente: “a minha vida, eu quero a minha vida, eu quero a minha vida de volta”.
As pessoas a sua volta não entenderam o sentido daquelas últimas palavras e acharam que era só o desespero de alguém que sabia que iria morrer. Daniel, no entanto, já estava morto há muito tempo. Aquilo que ocorrera nos últimos minutos com Daniel fora apenas a descoberta de que já estava morto desde o dia em que não sabia mais para onde ir. Havia se perdido de sua vida. Ela o deixara. Ele não mais a sentia. O que havia agora era só o ritual de praxe do ser que deixara de existir. Ele não mais existia. Foi-se encontrar com o nada. Não havia mais nada, apenas o nada.
O nada, eis tudo...
01: 47.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Artigo: Os exageros de Carlota Joaquina - Uma análise do filme de Carla Camurati

O filme de Carla Camurati retrata a vida, em sua intimidade, de Carlota Joaquina, a princesa espanhola que com dez anos de idade fora ofertada ao infante D. João VI de Portugal. A diretora através de uma narrativa cômica enfatiza os escândalos que marcaram a vida de Carlota Joaquina e de toda a corte portuguesa. A história se passa em um período muito conturbado, em que a Europa estava cercada pelas tropas napoleônicas que tentava impor o embargo econômico à Inglaterra sua maior rival. Portugal seria o próximo alvo de Napoleão. Entretanto, como desde muito tempo o reino lusitano dependia economicamente da Inglaterra e, estava assim, irremediavelmente submisso aos interesses britânicos, D. João logo após assumir a regência de Portugal, ficara em uma encruzilhada: se aliar à França que já tinha dominado a Espanha ou continuar sob o julgo Inglês que lhe daria cobertura em uma fuga às pressas para o Brasil. D. João optou, por comodidade, pela segunda opção.
O filme é narrado, estranhamente, por um Escocês que relata a história de Carlota Joaquina após achar uma garrafa no mar. Esta trazia um trecho de um livro sobre Salvador Dali, falando que nunca havia ido ao Brasil devido às histórias que contavam a existência de borboletas gigantes que atacavam os homens nos trópicos. O narrador escocês relata a maioria das situações constrangedoras por que passara o ainda infante D. João VI. A maior delas aconteceu ainda em sua noite de núpcias. Foi nesse dia que D. João começou a conhecer a índole de sua esposa, devido a pouca idade, apenas 10 anos, a princesa deu-lhe uma dentada na orelha quando este procurava abraça-la. Passando à fase adulta Carlota demonstra ser uma amante dos prazeres e, em uma discussão com D. João que se recusava a enfrentar as tropas de Napoleão que era o que Carlota Joaquina representando o sangue quente espanhol queria. Ela em um lance de fúria diante da recusa de João em acatar seus desejos, o chama de João fujão e revela que apenas a primogênita era realmente a sua filha e que esperava que os outros puxassem as características dos pais.
É nesse ponto, que chamaria a discussão para um aspecto importante, embora devo destacar que a proposta do filme é a sátira e, portanto, tende-se a exagerar os fatos de maneira a igualar os seres humanos em sua fraqueza (Aristóteles, Poética). Contudo, o enredo se detém sobre um período histórico, nesse sentido, a tentativa de se separar a ficção da realidade se faz importante. Não discutirei os exageros porque isso é próprio da comédia e estes estão bem representados na figura de D. João VI que, embora, fosse conivente com os adultérios de sua esposa, não foi um “banana” como o filme retrata, e algumas cenas mesmo destacam a argúcia política do fundador do banco do Brasil.
Os aspectos que pretendo destacar no filme são, respeitando a proposta da diretora, as omissões históricas relativa à vida de Carlota Joaquina. Em 1805, Carlota Joaquina e alguns comparsas entre eles viscondes e marqueses conspiraram para a deposição de D. João VI. Este acontecimento caba por ser negligenciado, apesar do recorte temporal do filme ter como proposta narrar a vida de Carlota Joaquina desde seus primeiros anos até o suicídio. O que, do ponto de vista, da integridade histórica não se justifica, mesmo levando em conta o estilo cômico do roteiro, pois seria uma ação a ser explorada pela proposta satírica do filme. Há, porém, espaço para uma ressalva: o cinema, por suas próprias características, é uma obra de síntese em que, muitas vezes, a adaptação de obras literárias se torna deveras complicada, levando se em consideração os problemas orçamentários que Carla Camurati teve e o momento de crise que todo o cinema brasileiro passava no período da realização da obra, sem créditos governamentais, desinteresse dos investidores e a péssima distribuição das produções brasileiras. Todos esses fatores fazem do produto final motivo para muitas admirações, em que a criatividade e o jogo de cintura da cineasta estão a toda prova.
No entanto, outro ponto a destacar, seguindo essa linha de raciocínio, seria a questão da província Platina e o papel decisivo dos diplomatas ingleses no caso. O filme na tentativa de síntese acaba por distorcer a realidade dos fatos históricos mais uma vez, os ingleses tiveram dois posicionamentos distintos em relação à questão do Rio da Prata. O primeiro de ajudar dissimuladamente Carlota Joaquina na questão Platina e o segundo de desaprovar, publicamente, na figura de Lord Strangford pressionando D. João VI a intervir contrariamente no episódio. No filme há uma cena em que é o próprio embaixador inglês que dá as dicas a Carlota Joaquina como fazer para se tornar a Rainha da Província Platina. Entretanto é sabido que Strangford pressionou D. João VI para que esse, demonstrando grande habilidade conseguisse evitar as ações de sua esposa. Isso no filme é retratado na cena em que Carlota não consegue vender suas jóias parar mandar o dinheiro relativo a organização de um exército que lhe proclamasse a Rainha do Rio da Prata, portanto, a participação de Strangford no caso é distorcida.
Na trama cinematográfica não fica especificado o papel de D. João no caso das jóias, esse como é relatado nos documentos (José Prezas, um dos ajudantes da Princesa na questão Platina e que nada recebeu em troca dos serviços prestados ao chegar à Espanha escreveu Os escândalos de Carlota Joaquina e Juliano Rubio que fez uma biografia sobre Carlota Joaquina) históricos proíbe o maior comprador de jóias, o único que teria dinheiro para pagar o valor das jóias de sua esposa, de comprá-las. É notório que uma das propostas do filme é desmistificar os grandes personagens históricos, e esse é, sem dúvida, o grande mérito da diretora e, conseqüentemente, o do filme. É, nesse sentido, que o Príncipe Regente se torna alvo preferido das pilhérias que conduzem o enredo, no entanto, diferentemente, do caráter de D. João que as cenas nos impõe, e que nos passa a idéia de um rei comilão, medroso e sem nenhum tato político, D. João VI, com base em um consenso historiográfico teve uma participação muito mais efetiva na conduta política de seu reino, principalmente, ao que diz respeito, no fato da Província Platina, ele, mesmo pressionado pelos ingleses que queria dominar todo o mercado das Américas conseguiu defender os interesses lusitanos. O filme relata a sua recusa em ajudar financeiramente Carlota Joaquina a se proclamar a Rainha do Rio Prata, no entanto, as cenas nos dão a idéia de que se trata apenas de um ato de avareza do Príncipe Regente. No livro de Clemente de Oliveira, “Os tumores de Bragança”, é relatado que a princesa não conseguindo vender suas jóias para mandar o dinheiro à província do Rio Prata, enviou as próprias no intuito de que conseguisse ser vendidas lá, D. João se antecipando as ações da esposa, intercepta a embarcação e apreende as jóias e incube seu ourives de fazer cópias idênticas delas e guarda os originais em seu cofre. Depois disso, entra em contato com Carlota Joaquina relatando que apreendera dois ladrões que roubavam suas jóias, a princesa não desconfiando de nada fala que houve um engano e que, na verdade, se tratava de seus auxiliares na questão da Província Platina. Assim, ela envia as jóias falsificadas para a Província e quando, mais tarde, recebe a notícia de que suas jóias eram falsas e por isso não foram vendidas, então pensa que fora traída por seus ajudantes. Apenas mais tarde através, de “Chalaça” – que flagrado fornicando com uma Duquesa da Corte e por isso foi expulso do Reino, estranhamente não aparece no filme nem o personagem, nem o caso – (Jornal do Comércio, 1880, versão de Melo Morais) o intrigante mais famoso do reino e filho do ourives que falsificara as jóias, é que, Carlota Joaquina fica sabendo do ocorrido.
Ademais, como já disse acima a Inglaterra tinha duas posições distintas em relação à questão Platina, a primeira de pressionar D. João VI através de Lord Strangford para que não contribuísse com o intuito de Carlota Joaquina, e esse fato no filme é, totalmente desvirtuado. Em uma tomada a diretora mostra que não só Strangford apoiava os interesses de Carlota Joaquina de se tornar rainha da Província do Prata, como também é o próprio que lhe informa sobre os fatos, a película também mostra uma carta que Carlota Joaquina recebe da Espanha apoiando-a na questão do Prata e lhe dando total aval como descendente do trono espanhol para governar a província. Historicamente esse fato é contestável, já que a carta que Carlota Joaquina recebeu foi com tom de admoestação segundo os dizeres de Cipriano Barata: "Ficou nessa ocasião sem as suas jóias e sem o seu amado sonho de Rainha do Rio da Prata e por cúmulo, ainda recebeu um formidável pito do pai, o Rei da Espanha, que a ameaçava de mandar buscá-la no Rio de Janeiro e, de acordo com o Príncipe Regente, seu esposo, interná-la num convento da Catalunha, de freiras reclusas, chamando-a de má esposa, má filha, e mulher sem princípios”.
Apesar de Lord Strangford, segundo os relatos históricos oficialmente representando a Inglaterra se colocar contra os interesses de Carlota Joaquina de conquistar a Província Platina (ao contrário do que o filme mostra), ocultamente os ingleses através de Sidney Smith (que só é citado no filme uma única vez quando Carlota diz que o deve uma determinada quantia) apoiavam essa atitude. Pois os interesses Ingleses eram mais amplos, e deveria ser levado a cabo sem que, o reino Português tivesse conhecimento. A corte de S. James não queria que Portugal conquistassem as colônias do Rio da Prata, nem queria tão pouco que essas se libertassem e que vivessem como povo livre a partir daí. Os ingleses queriam, na verdade, “ver proclamado um reino no Prata com Carlota Joaquina como Rainha. Depois, oferecer a essa Princesa o trono de Espanha, por abdicação dos seus direitos no Reino da Prata em favor da Inglaterra. Quanto ao Príncipe Regente, mais tarde facilmente nos cederia o Brasil como um dos seus avós cedeu a Índia. Os canhões da nossa esquadra lhe restituiriam Portugal, e a Inglaterra faria a união ibérica, mediante a cessão do Brasil. D. João e Carlota Joaquina seriam assim os reis do Reino Unido de Portugal e Espanha, e a Inglaterra faria com o Rio da Prata e com o Brasil uma grande nação semilivre, como a Índia, com um vice-rei tirado da casa real inglesa. É o que me parece visarem as trincas diplomáticas da Chancelaria de S. James, em Londres”, (Tumores de Bragança, Clemente de Oliveira). Para isso era necessário apoiar Carlota Joaquina sem que D. João VI soubessem, evitando assim que Portugal fizesse parte da conquista facilitando uma possível negociação dos ingleses.
Como se vê esses detalhes que são de suma importância é, não sei se suprimido pela tentativa de síntese da diretora ou se ignorado pela mesma, mas o fato é que o enredo não os aborda. No filme também é suprimido o fato de que Carlota Joaquina esteve presa no Convento da Ajuda e escapou graças o auxílio de Sidney Smith que estava cumprido os desígnios secretos do trono inglês de apoiar a conquista da Província Platina por ela. Omite assim, que D. João descobre a fuga a tempo e intercepta a princesa na embarcação de Smith quando ela estava de partida para o Rio da Prata, nesse ínterim, a princesa se vendo abordada por Lobato, o fiel escudeiro de D. João e por Lord Strangford que nesse dia descobre os reais interesses da Inglaterra, ela se aproveitando de uma distração dos dois homens pega uma arma e atira em Lobato que a frustrara em 1805, avisando D. João VI da conspiração que ela armara contra o marido, Lobato ferido cai no chão e começa a ter uma crise de epilepsia ficando inconsciente por 24 horas quase sendo enterrado vivo, pois pensavam que ele estava morto (Tumores de Bragança, Clemente de Oliveira). O que fica claro é que, se esses fatos fossem abordados pela diretora seria muito difícil transformar a argúcia de D. João VI em preguiça, submissão e covardia como faz o filme.

O cinema como qualquer arte, quando foca um determinado período histórico tem que também estar preocupado com a integridade dos fatos. A crítica que faço ao filme Carlota Joaquina se direciona ao tratamento que a diretora dá aos acontecimentos históricos. A tentativa de síntese cinematográfica da diretora subtrai muitos fatos importantes que acaba deturpando a história, em vez de ter optado por uma síntese pouco preocupada com os fatos históricos, Carla Camurati poderia ter inserido sua história em um contexto mais restrito, de forma que, pudesse fiar-se mais acuradamente nas ações de Carlota na fase adulta. No entanto, a própria narração do filme que é feita por um Escocês já fornece à diretora um pretexto para os afeamentos cometidos na produção. Assim, nessa perspectiva que é a de uma revisão histórica do filme, a obra de Carla Camurati deixa muito a desejar, porém, ao que diz respeito, a desmistificação dos personagens históricos, o filme encontra enorme êxito, até pelo fato de ter uma proposta de paródia no trato com os personagens, ele tem o mérito de desmistificar alguns heróis da história brasileira. Os personagens centrais do enredo são humanizados. A história é filmada em tom burlesco: D. João é o comilão que de política pouco sabe, Carlota Joaquina uma princesa infiel e sem escrúpulos e, além disso, ninfomaníaca e D. Pedro I um mulherengo epiléptico que decidira ficar no Brasil unicamente pela sua paixão às mulheres da colônia.



A desmistificação dos personagens históricos no filme:
Carlota Joaquina

De acordo com o texto de Circe Maria Fernandes Bittencourt a História tem o poder de ser legitimadora da ideologia dominante. A educação brasileira desde o período republicano teve a preocupação de forjar uma identidade nacional. Para isso era necessário eleger-se heróis nacionais que fossem a personificação de um povo unido que amava a sua terra e que morreria por ela se fosse preciso. Assim, eram necessárias que fossem ensinadas nas escolas a história da pátria e que fossem instituídas datas comemorativas que simbolizassem os feitos gloriosos da nação brasileira.
No entanto, surge um problema, que heróis escolher, que memória forjar, a nossa independência fora conseguida através de um monarca herdeiro do trono português. Como então exaltar uma nação que só veio a se constituir como tal através de um herdeiro do trono Português? E os ideais republicanos como ficam nessa história? Esses foram alguns dos problemas que os republicanos brasileiros tiveram que enfrentar.
Dessa forma, a figura de D. Pedro I era sempre citada com reservas e alguns historiadores oficiais chegaram a ponto de destacar mais a pessoa do estadista José Bonifácio que ficou conhecido nos livros didáticos, em grande parte, devido a Rocha Pombo, como patrono da independência. Na própria letra do hino nacional criada por Osório Duque-Estrada, o grito é lembrado, é qualificado de heróico, de retumbante, mas o autor do brado não é mencionado. No filme Carlota Joaquina D. Pedro I era o filho que mais parecia com a mãe, pelo menos, ao que diz respeito à lascívia. Era um amante inveterado, boêmio e amante dos prazeres e por isso pedira ao pai para ficar no Brasil. Talvez esse tipo de comportamento fosse o pretexto dos republicanos para elegerem a figura de José Bonifácio como patrono da independência. Embora, pretexto, no caso de D. Pedro I não faltasse, pois se sabe bem que seu reinado do ponto de vista político racional foi deveras um desastre. Assim era preciso buscar outros heróis, e a solução encontrada foi desviar a importância do ato da independência para a sua manutenção. É, nesse sentido, que as figuras dos militares passam a ser erigidos na memória oficial. O primeiro deles, símbolo do exército nacional e, segundo os republicanos, o maior responsável pela união da nação, foi nada mais, nada menos que, Duque de Caxias. Para tal construção foi necessário se apagar da memória brasileira o fiasco desse mesmo Duque de Caxias na Guerra do Paraguai que, perdendo uma batalha e envergonhado pela a desastrosa Retirada de Laguna abandona o posto, que é então substituído por Conde D’ Eu genro do Imperador. Desse acontecimento a memória oficial só resgatou o grito heróico de Duque de Caxias antes de ser derrotado: “Siga-me quem for brasileiro”, era mais um ato imprudente de um oficial do que propriamente de heroísmo. Entretanto, era útil para os fins visados pelos republicanos e, assim foi instituído nos livros didáticos.
Ainda não bastava apenas exaltar a união dos povos e a manutenção da pátria simbolizada no personagem de Caxias. Por conseguinte, os “bravos” bandeirantes responsáveis pela atual imensidão do território brasileiro e pelas riquezas aqui encontradas foram criados para simbolizar a grandeza e a índole corajosa do brasileiro. A construção dos bandeirantes como heróis nacionais também se deve ao fato de ter sido oriundos de São Paulo que já se destacava economicamente devido à produção de café e já tinha uma maior representação política dentre as províncias. Assim, os paulistas que no século XIX trazia o progresso, descendentes daqueles que, nos séculos passados desbravaram territórios e descobriram riquezas. Como se vê, fomos ensinados na escola a cultuar oficiais do exército e aventureiros caçadores homicidas de índios como se fossem heróis. Heróis que se fizeram como tais através da força. Então quando ficamos assombrados com a constatação de que os militares tinham apoio popular no ato do golpe de 64, - que muitos livros que vimos rotulava de revolução de 64 – devemos nos ater também ao fato da construção da memória oficial que nos foi imposta em nossas aulas de história.
É, nesse sentido, que destaco a importância do filme de Carla Camurati, embora, os personagens históricos parodiados em “Carlota Joaquina” são, até certo ponto, desprezados pelos ideólogos da nação brasileira, por motivos acima, minimamente, identificados. A idéia do burlesco, do ridículo, do descaramento e dos escândalos de Carlota Joaquina que são encenados nos espaços da aristocracia que o filme nos mostra podem ser utilizados nas aulas de história com o intuito de desconstruir a memória oficial. A própria atmosfera burlesca do filme pode ser trabalhada de forma a desfazer o grande hiato que a tradição oficial construiu entre os “homens de política” e o povo. A comédia tem o poder de igualar as capacidades dos homens dando a eles contornos de imperfeição. Esse tipo de linguagem quando focaliza os personagens que nos ensinaram na escola, ao longo dos anos, a admirar e que, é reproduzido pela tradição de pai para filho, consegue um efeito muito positivo para o educador que está preocupado com o resgate das várias memórias que foram obliteradas pela história oficial. Além disso, a própria capacidade de empatia que o cômico estabelece com o público através da alegria despertada, faz com que a exposição do filme “Carlota Joaquina” tende a ser uma atividade muito apreciada pelos alunos.




Bibliografia consultada:


SINTRA, Assis. Os Escândalos de Carlota Joaquina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1934. .Compilado por Edilberto Pereira Leite e exposto no site: www.encichp.hpg.com.br.

Ø Todas as outras obras citadas no corpo do texto são retiradas da compilação de Edilberto Pereira Leite.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Sibyl Vane

De uma garrafa
Nasce um poeta
Enrolado em si mesmo
Olhos em fuga
Bebe o passado
Em amargos goles de sonho
Reminiscências...
Todos por perto-
Juntos na solidão.
Tudo é ilusão.
E a ilusão é um dia de sol.

Mas a noite se debruça
Em seus ombros,
E de repente alguém chega
Molhada da chuva
Cheirando a madrugada.

A solidão lhe povoa
E não vê mais nada, apenas sente.
Mas a vida é água:
Um lago para ser atravessado.
Ele só quer descarregar a angústia.
Uma caneta e um papel para fugir,
Para sorrir, para chorar,
Em tábuas brancas
Ele cospe pensamentos
Como sangue: símbolo da vida e da morte;
Pensamentos bombeados pelo coração.

Um poeta
Vive e morre todos os dias.
No mar o sol abre o portão.
Nasce o dia morrendo lentamente-
Pois a vida é um eterno morrer.
Mas o dia é um sorriso de menino
Que dura para sempre
A noite não chega
Quando se tem quatorze anos.
E assim o sol pavimenta o mar
Apontando o caminho,
Então ele levanta as velas
Acende seu cachimbo
E navega suas sensações
Rumo ao desconhecido.
Mas a água vai apagando seu rastro,
E ninguém mais é capaz
De dizer que ele esteve ali.

Das esperanças que ele matou
E daquelas que suicidaram
Só sobraram as lágrimas
E o medo.
Que também se confundiu
Com o imenso mar
E desapareceu
Mas ainda existe o papel.